Natan não soube identificar o instante exato em que perdeu o controle.
Passara a vida inteira reconhecendo sinais antes que se tornassem ruído. Antecipar, ajustar, conter, sempre fora assim. Mas ali, diante dela, nada obedecia à lógica habitual. Os pensamentos vinham em desordem, colidindo uns com os outros, como se alguém tivesse desmontado, peça por peça, a estrutura que sempre sustentara suas decisões.
Ana estava ali. Diante dele. O olhar firme, o corpo tenso, a respiração ainda marcada pelo confronto.
Falava.
Sempre falava.
E, pela primeira vez, não era o conteúdo que o desorganizava, era o som. O movimento da boca. A segurança com que as palavras escapavam, afiadas, desafiadoras. Aquilo o atingia em um lugar que ele não dominava.
Ele não queria ouvir.
Não queria mais ouvir.
O impulso veio bruto. Um passo à frente. A mão fechando-se no braço dela, firme o suficiente para interromper a frase no meio. O beijo não foi pedido. Não foi pensado.
Foi imposto.
Raiva. F