Inicio / Romance / A Babá Que Eu Não Podia Amar / Capítulo 7 — Rotina quebrada
Capítulo 7 — Rotina quebrada

O sábado na casa Albuquerque era silencioso demais para um dia que deveria ser leve.

Não havia horários rígidos de escola, nem pressa no café da manhã.

Ainda assim… nada parecia realmente diferente.

Theo passou a maior parte da manhã na biblioteca, alternando entre livros e o videogame portátil.

Bella ficou na sala, assistindo desenhos que pareciam mais um hábito do que uma escolha.

E a casa… continuava quieta.

Organizada.

Impecável.

Mas sem vida.

Lívia observava.

Sentada na poltrona próxima à janela, acompanhava os dois sem interferir. Aos poucos, começou a perceber algo que não estava nas regras escritas de Magno, mas existia em cada canto daquela casa.

Até os momentos livres eram controlados.

Até o descanso tinha limites invisíveis.

Depois do almoço, o silêncio voltou ainda mais forte.

Bella mexia distraidamente nos canais da televisão.

Theo subiu alguns degraus da escada, sentando-se ali com o videogame nas mãos, sem realmente jogar.

Foi então que Lívia falou:

— Vocês sempre ficam dentro de casa aos sábados?

Bella olhou para ela.

— Sempre.

— E você gosta?

A menina deu de ombros.

— É… normal.

Lívia ficou pensativa por um instante.

Depois olhou pela janela.

O jardim estava iluminado pelo sol da tarde. As árvores balançavam levemente com o vento, e o espaço aberto parecia… esquecido.

— E lá fora? — perguntou.

Bella seguiu o olhar dela.

— A gente não vai muito.

Theo respondeu antes que a irmã dissesse qualquer coisa:

— Não faz parte da rotina.

Lívia virou-se para ele.

— E precisa fazer parte?

Theo sustentou o olhar dela.

— Aqui… precisa.

Houve uma pequena pausa.

— Às vezes — disse Lívia com calma — a gente pode criar momentos que não estão na rotina.

Bella se ajeitou no sofá.

— Tipo o quê?

Lívia sorriu de leve.

— Tipo brincar lá fora.

Os olhos da menina brilharam imediatamente.

— Sério?

— Se você quiser.

Bella levantou rápido demais.

— Eu quero!

Theo não se moveu.

Apenas observou.

— Não é uma boa ideia — disse ele.

Lívia se aproximou alguns passos.

— Por quê?

— Porque depois muda.

A resposta veio direta.

Sem rodeios.

— O quê muda? — ela perguntou.

— As pessoas.

O silêncio caiu entre eles.

Bella olhou de um para o outro, sem entender completamente, mas sentindo o peso.

Lívia respirou fundo.

— A gente só vai brincar um pouco — disse, suavizando o tom. — Não precisa ser complicado.

Theo não respondeu.

Apenas desviou o olhar.

— Eu vou ficar aqui.

Mas não subiu.

Nem foi para o quarto.

Ficou ali.

Na escada.

Observando.

Lívia abriu a porta de vidro.

O ar quente da tarde entrou junto com a luz.

Bella saiu primeiro, quase correndo.

Parou no meio do jardim.

Olhou ao redor.

Como se aquele espaço fosse novo.

— O que a gente vai fazer?

Lívia pensou por um segundo.

E então disse:

— Pega-pega.

Bella arregalou os olhos.

— Você vai correr?

— Vou.

E correu.

Bella riu alto, correndo atrás dela.

O som da risada se espalhou pelo jardim.

Leve.

Solto.

Vivo.

Do lado de dentro, Theo observava tudo.

Sem descer.

Sem interferir.

Mas sem sair.

A atenção fixa.

Como se estivesse registrando cada detalhe.

Lívia diminuiu o ritmo.

— Tá cansada?

— Não! — Bella respondeu, ofegante. — De novo!

Elas recomeçaram.

Mais rápido dessa vez.

Mais solto.

Até acontecer.

Um passo errado.

Um tropeço.

E a queda.

Bella caiu com o joelho no chão.

O som foi baixo.

Mas o impacto, real.

Lívia parou imediatamente.

— Bella!

A menina não chorou.

Mas o rosto se contraiu.

— Doeu…

Lívia se ajoelhou ao lado dela.

O joelho estava arranhado.

Nada grave.

Mas sensível.

Vermelho.

— Calma… já vai passar…

Bella respirava rápido, tentando segurar o choro.

E então disse, em voz baixa:

— Não conta pro papai…

Lívia hesitou.

Um segundo.

Dois.

Depois assentiu.

— Não vou contar.

Bella relaxou levemente.

Lívia ajudou ela a levantar.

— Consegue andar?

— Consigo…

Mas não completamente.

O leve mancar era visível.

Do alto da escada, Theo viu tudo.

E não disse nada.

À noite, durante o jantar, tudo parecia normal.

Organizado.

Silencioso.

Como sempre.

Mas Magno percebeu.

O jeito que Bella se movia.

Mais devagar.

Cuidando do próprio corpo.

— O que aconteceu? — perguntou.

O garfo parou na mão da menina.

Por um instante.

Lívia sentiu a tensão subir.

— Eu… bati na cadeira.

A resposta veio rápida.

Ensaiada.

Magno franziu levemente o cenho.

— Onde?

— Na sala.

Silêncio.

Curto.

Mas denso.

Ele olhou para Lívia.

Depois para Theo.

Theo estava tranquilo.

Mas havia algo ali.

Um leve sorriso de lado.

Quase imperceptível.

E ele não desmentiu.

Magno voltou para Bella.

— Está doendo?

— Não muito.

Ele assentiu.

Mas não estava convencido.

— Depois eu olho.

O jantar continuou.

Mas algo havia mudado.

Depois, na cozinha, enquanto organizava os pratos, Lívia sentiu a presença dele.

— Lívia.

Ela se virou.

— Sim?

Magno a observava.

Direto.

— O dia foi tranquilo?

A pergunta parecia simples.

Mas não era.

Ela sustentou o olhar.

— Foi.

Uma pausa.

Curta.

Mas suficiente.

Os olhos dele se estreitaram levemente.

Outra pausa.

Mais pesada.

Magno a observou por alguns segundos.

Como se tentasse encaixar algo que ainda não fazia sentido.

— Certo.

Ele se afastou.

Mas a dúvida ficou.

E, pela primeira vez…

Lívia sentiu.

Que aquela pequena quebra…

Aquele pequeno segredo…

tinha criado algo novo dentro daquela casa.

Não era confronto ainda.

Mas estava próximo.

E, no fundo…

ela sabia.

Aquilo era só o começo.

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