Mundo ficciónIniciar sesiónO escritório permanecia em silêncio.
Magno estava sentado, o corpo levemente inclinado para frente, os cotovelos apoiados sobre a mesa. A folha ainda estava ali. O desenho. As palavras. Ele já havia lido mais de uma vez. E ainda assim… não conseguia afastar a sensação que aquilo provocava. A música. Não estava escrita. Mas estava ali. Nos espaços. Nas entrelinhas. Na memória. Ele fechou os olhos por um instante. E, como sempre, ela veio. Cecília. Sentada perto da janela. A luz da tarde desenhando o contorno do rosto dela enquanto cantava. Theo pequeno, deitado com a cabeça no colo dela. Bella ainda na barriga, quieta, como se já reconhecesse aquela voz. Era simples. Era leve. Era tudo o que ele perdeu. Magno abriu os olhos rapidamente. Como se tivesse ido longe demais. Passou a mão pelo rosto, exausto. Aquilo não era sobre lembrança. Era sobre o presente. Sobre o que estava acontecendo dentro da casa dele. E sobre quem estava causando isso. Ele se levantou. Sem pensar muito. E saiu do escritório. Lívia estava no corredor quando ouviu a voz dele. — Lívia. Ela parou imediatamente. Virou-se. O coração acelerou sem que ela entendesse exatamente o porquê. — Senhor Albuquerque. Ele se aproximou. A camisa social estava parcialmente aberta no colarinho, as mangas dobradas até o antebraço. O dia parecia ter sido longo — e, ainda assim, havia uma presença firme nele que preenchia o espaço. — Precisamos conversar. O tom não era duro. Mas também não era leve. Lívia assentiu. — Claro. Ele indicou a pequena sala ao lado do escritório. Ela entrou primeiro. Sentiu o olhar dele antes mesmo de ouvi-lo fechar a porta. O silêncio veio rápido. E ficou. — Sobre o trabalho da Bella — ele começou. Direto. Sem rodeios. — Foi uma iniciativa sua? Lívia sustentou o olhar. — Foi uma forma de ajudar. Ele deu um passo à frente. — Eu não perguntei isso. A tensão subiu um pouco. — Foi uma ideia que surgiu no momento — respondeu ela, mantendo a calma. — A Bella estava confusa… e o Theo— — O Theo não reage bem a esse tipo de abordagem. — Ele reagiu porque sente — interrompeu ela, antes de se conter. O silêncio pesou. Magno a encarou. Mais fixo agora. — E você acha que entende o que ele sente? A pergunta veio baixa. Mas carregada. Lívia respirou fundo. — Acho que ele está tentando não esquecer a mãe… e ao mesmo tempo não sabe como lidar com isso. Magno passou a mão pelo maxilar, tensionado. — E você decidiu interferir. — Eu decidi não fingir que não estava acontecendo. A resposta saiu mais firme do que ela pretendia. O ar entre eles mudou. Mais denso. Mais próximo. Ele se aproximou mais um passo. Agora perto o suficiente para que ela percebesse detalhes que antes passariam despercebidos. As veias marcadas no antebraço. A tensão nos músculos. O leve abrir da camisa revelando parte do peitoral. Lívia desviou o olhar por um segundo. Mas foi suficiente para perceber. E sentir. — Essa não é uma decisão que cabe a você — disse ele. A voz mais baixa agora. Mais controlada. Mais perigosa. Ela voltou a encará-lo. — E ignorar não é uma boa decisão. A pausa que veio depois foi diferente. Não era só conflito. Era… outra coisa. Magno sustentou o olhar dela por mais tempo do que deveria. Havia algo ali. Na forma como ela não recuava. Na forma como respondia. Sem medo. Sem submissão. Isso o incomodava. E atraía. Ao mesmo tempo. Ele respirou fundo, desviando o olhar por um instante. Como se precisasse se reorganizar. — Você não entende o que essa casa já passou. — Talvez não da mesma forma — disse ela, mais suave agora. — Mas eu entendo o que é crescer tentando não perder o pouco que restou. Aquilo o fez olhar de volta. Direto. Mais atento. — E o que exatamente você acha que está fazendo aqui? A pergunta veio mais baixa. Menos defensiva. Mais… real. Lívia hesitou por um segundo. Mas respondeu. — Tentando fazer com que eles não se sintam sozinhos dentro da própria casa. O impacto foi imediato. E real. Magno ficou imóvel por um instante. O olhar preso nela. Como se avaliasse algo além das palavras. — Você está mudando a rotina — disse ele, depois. Não como acusação. Como constatação. — Estou tentando melhorar. — Sem autorização. — Às vezes… esperar autorização também é uma forma de não fazer nada. Ele soltou um pequeno ar pelo nariz. Quase um riso. Sem humor. Mas diferente de antes. — Você é insistente. — Eu não costumo desistir fácil. Os olhos dele voltaram para os dela. Mais intensos agora. Mais conscientes. — Eu percebi. O silêncio voltou. Mas dessa vez… não era desconfortável. Era carregado. Vivo. Lívia sentiu o próprio coração acelerar. Não pela discussão. Mas pela proximidade. Pela forma como ele a olhava agora. Diferente. Magno percebeu. E foi exatamente isso que o fez dar um passo para trás. Quebrando o momento. — Mantenha-me informado — disse, retomando o tom profissional. — Sobre qualquer… mudança. Ela assentiu. — Certo. Ele ainda a observou por um segundo. Como se quisesse dizer algo a mais. Mas não disse. Abriu a porta. — Pode ir. Lívia passou por ele. Sentindo o peso do olhar dele nas costas. Quando a porta se fechou, Magno permaneceu parado. As mãos apoiadas na mesa. A respiração um pouco mais pesada do que deveria. Aquilo não era só sobre as crianças. Ele sabia disso agora. E isso… era exatamente o problema. Porque, pela primeira vez em anos… algo dentro dele não estava mais completamente sob controle.






