Inicio / Romance / A Babá Que Eu Não Podia Amar / Capítulo 9 — Nova percepção
Capítulo 9 — Nova percepção

O escritório permanecia em silêncio.

Magno estava sentado, o corpo levemente inclinado para frente, os cotovelos apoiados sobre a mesa. A folha ainda estava ali.

O desenho.

As palavras.

Ele já havia lido mais de uma vez.

E ainda assim… não conseguia afastar a sensação que aquilo provocava.

A música.

Não estava escrita.

Mas estava ali.

Nos espaços.

Nas entrelinhas.

Na memória.

Ele fechou os olhos por um instante.

E, como sempre, ela veio.

Cecília.

Sentada perto da janela. A luz da tarde desenhando o contorno do rosto dela enquanto cantava. Theo pequeno, deitado com a cabeça no colo dela. Bella ainda na barriga, quieta, como se já reconhecesse aquela voz.

Era simples.

Era leve.

Era tudo o que ele perdeu.

Magno abriu os olhos rapidamente.

Como se tivesse ido longe demais.

Passou a mão pelo rosto, exausto.

Aquilo não era sobre lembrança.

Era sobre o presente.

Sobre o que estava acontecendo dentro da casa dele.

E sobre quem estava causando isso.

Ele se levantou.

Sem pensar muito.

E saiu do escritório.

Lívia estava no corredor quando ouviu a voz dele.

— Lívia.

Ela parou imediatamente.

Virou-se.

O coração acelerou sem que ela entendesse exatamente o porquê.

— Senhor Albuquerque.

Ele se aproximou.

A camisa social estava parcialmente aberta no colarinho, as mangas dobradas até o antebraço. O dia parecia ter sido longo — e, ainda assim, havia uma presença firme nele que preenchia o espaço.

— Precisamos conversar.

O tom não era duro.

Mas também não era leve.

Lívia assentiu.

— Claro.

Ele indicou a pequena sala ao lado do escritório.

Ela entrou primeiro.

Sentiu o olhar dele antes mesmo de ouvi-lo fechar a porta.

O silêncio veio rápido.

E ficou.

— Sobre o trabalho da Bella — ele começou.

Direto.

Sem rodeios.

— Foi uma iniciativa sua?

Lívia sustentou o olhar.

— Foi uma forma de ajudar.

Ele deu um passo à frente.

— Eu não perguntei isso.

A tensão subiu um pouco.

— Foi uma ideia que surgiu no momento — respondeu ela, mantendo a calma. — A Bella estava confusa… e o Theo—

— O Theo não reage bem a esse tipo de abordagem.

— Ele reagiu porque sente — interrompeu ela, antes de se conter.

O silêncio pesou.

Magno a encarou.

Mais fixo agora.

— E você acha que entende o que ele sente?

A pergunta veio baixa.

Mas carregada.

Lívia respirou fundo.

— Acho que ele está tentando não esquecer a mãe… e ao mesmo tempo não sabe como lidar com isso.

Magno passou a mão pelo maxilar, tensionado.

— E você decidiu interferir.

— Eu decidi não fingir que não estava acontecendo.

A resposta saiu mais firme do que ela pretendia.

O ar entre eles mudou.

Mais denso.

Mais próximo.

Ele se aproximou mais um passo.

Agora perto o suficiente para que ela percebesse detalhes que antes passariam despercebidos.

As veias marcadas no antebraço.

A tensão nos músculos.

O leve abrir da camisa revelando parte do peitoral.

Lívia desviou o olhar por um segundo.

Mas foi suficiente para perceber.

E sentir.

— Essa não é uma decisão que cabe a você — disse ele.

A voz mais baixa agora.

Mais controlada.

Mais perigosa.

Ela voltou a encará-lo.

— E ignorar não é uma boa decisão.

A pausa que veio depois foi diferente.

Não era só conflito.

Era… outra coisa.

Magno sustentou o olhar dela por mais tempo do que deveria.

Havia algo ali.

Na forma como ela não recuava.

Na forma como respondia.

Sem medo.

Sem submissão.

Isso o incomodava.

E atraía.

Ao mesmo tempo.

Ele respirou fundo, desviando o olhar por um instante.

Como se precisasse se reorganizar.

— Você não entende o que essa casa já passou.

— Talvez não da mesma forma — disse ela, mais suave agora. — Mas eu entendo o que é crescer tentando não perder o pouco que restou.

Aquilo o fez olhar de volta.

Direto.

Mais atento.

— E o que exatamente você acha que está fazendo aqui?

A pergunta veio mais baixa.

Menos defensiva.

Mais… real.

Lívia hesitou por um segundo.

Mas respondeu.

— Tentando fazer com que eles não se sintam sozinhos dentro da própria casa.

O impacto foi imediato.

E real.

Magno ficou imóvel por um instante.

O olhar preso nela.

Como se avaliasse algo além das palavras.

— Você está mudando a rotina — disse ele, depois.

Não como acusação.

Como constatação.

— Estou tentando melhorar.

— Sem autorização.

— Às vezes… esperar autorização também é uma forma de não fazer nada.

Ele soltou um pequeno ar pelo nariz.

Quase um riso.

Sem humor.

Mas diferente de antes.

— Você é insistente.

— Eu não costumo desistir fácil.

Os olhos dele voltaram para os dela.

Mais intensos agora.

Mais conscientes.

— Eu percebi.

O silêncio voltou.

Mas dessa vez…

não era desconfortável.

Era carregado.

Vivo.

Lívia sentiu o próprio coração acelerar.

Não pela discussão.

Mas pela proximidade.

Pela forma como ele a olhava agora.

Diferente.

Magno percebeu.

E foi exatamente isso que o fez dar um passo para trás.

Quebrando o momento.

— Mantenha-me informado — disse, retomando o tom profissional. — Sobre qualquer… mudança.

Ela assentiu.

— Certo.

Ele ainda a observou por um segundo.

Como se quisesse dizer algo a mais.

Mas não disse.

Abriu a porta.

— Pode ir.

Lívia passou por ele.

Sentindo o peso do olhar dele nas costas.

Quando a porta se fechou, Magno permaneceu parado.

As mãos apoiadas na mesa.

A respiração um pouco mais pesada do que deveria.

Aquilo não era só sobre as crianças.

Ele sabia disso agora.

E isso…

era exatamente o problema.

Porque, pela primeira vez em anos…

algo dentro dele não estava mais completamente sob controle.

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