Início / Romance / A Babá Proibida do CEO / 3. Coragem Não Substitui Currículo
3. Coragem Não Substitui Currículo

A porta b**e na parede com tanta força que pulo e deixo minha bolsa cair no chão.

Mas quem entra não são os seguranças.

É um furacão de um metro de altura vestindo uma fantasia de astronauta e tênis que piscam, gritando como se alguém tivesse arrancado as asas do Buzz Lightyear.

— QUERO IR EMBORA! — ele berra, arremessando um foguete de metal no chão.

Lucas solta um suspiro tão profundo que parece que a alma dele desceu até o térreo.

— Oliver. Para. Agora.

O menino ignora completamente.

Abre a mochila, puxa outro brinquedo e arremessa na direção do pai… mas acerta a xícara de café que eu trouxe.

O café espirra no terno de Lucas, e uma veia salta no pescoço dele, pulsando em modo perigo iminente.

— Oliver Sinclair — ele diz, baixo e ameaçador. — É a última vez que falo com você.

O menino encara o pai, limpa o nariz na manga e solta um grito tão agudo que meus tímpanos pedem socorro.

Parece uma ambulância atropelando um gato.

Nesse exato momento, entra uma mulher de vinte e poucos anos, cabelo preso e expressão de quem está a dois segundos de um colapso nervoso.

— Lucas, pelo amor de Deus, controla o seu filho! — Ela quase grita. — Duas candidatas foram embora dizendo que não voltam nem mortas. Sem falar que ele mordeu a perna da candidata quatro. Mordeu, Lucas. Como um cachorro!

Lucas fecha os olhos e respira fundo, como se estivesse contando até um milhão.

— Sophia, leve seu sobrinho para a sua sala — pede, claramente tentando não explodir. — Tenho reunião com os italianos em quinze minutos.

— E eu tenho trabalho, Lucas! — ela rebate, vermelha de indignação. — Sou sua vice, não a babá do seu filho!

De repente, Oliver para de correr, sobe na cadeira giratória e começa a rodar.

— EU SOU O REI DO MUNDO! — grita, chutando o ar.

Lucas tenta agarrar o menino enquanto discute com a irmã, mas Oliver solta um grito tão alto que meu ouvido até tampa.

— ME SOLTA, SEU CHATO! — berra, distribuindo soquinhos no peito do pai até Lucas largá-lo no chão.

Fico imóvel, tentando decidir se corro antes que ele me morda também… ou se continuo tentando a vaga, porque, sinceramente, ninguém aqui parece lembrar que eu existo.

Mas, claro, a vida não facilitaria para mim.

Oliver para de correr pela sala e olha direto para a minha bolsa caída no chão.

Aberta.

Os olhos dele vão exatamente para o boneco do Homem-Aranha lá dentro. O boneco que meu irmão me deu no dia do enterro da nossa mãe, três semanas atrás.

— NÃO! — exclamo, me abaixando para pegar.

Tarde demais, porque Oliver é mais rápido.

Ele segura o boneco com as duas mãos, e seus olhos brilham.

— É o Homem-Aranha — sussurra, encantado. — O de verdade.

Meu coração aperta. Isso não. Qualquer coisa, menos isso.

Olho para Lucas, esperando que ele faça alguma coisa, mas ele apenas observa, com aquela expressão neutra e avaliadora.

Como se estivesse esperando para ver como eu vou agir.

Como se isso fosse um teste.

E talvez seja.

Respiro fundo e me abaixo ao lado de Oliver, ignorando completamente o CEO que nos observa.

— Oi, Oliver. Esse não pode — digo baixinho, estendendo a mão. — Ele é muito especial. Pode me devolver?

— MAS EU QUERO! — ele grita, apertando o boneco contra o peito.

— Eu sei que quer — respondo, mantendo a calma. — E ele é muito legal mesmo. Mas…

— Ele é o Aranha de verdade! — Oliver interrompe, virando o boneco. — Olha! A teia funciona!

Ele aperta o botão e a teia dispara, grudando na parede com um estalo seco.

E então eu entendo: o que fisgou Oliver não foi só o boneco. Foi a teia funcionando.

Algo que, pelo visto, não existe nas versões caríssimas e perfeitas que ele deve ter aos montes.

— É incrível mesmo — admito. — Mas esse boneco é do meu irmãozinho. Ele tem cinco anos, quase a sua idade.

— Onde ele tá? — Oliver pergunta, franzindo a testa. — Ele morreu igual ao meu hamster?

— Não… — respondo, sentindo a garganta apertar. — Ele está vivo. Só… não sei onde ele está agora. Por isso esse boneco é tão importante. É a única coisa que tenho dele aqui.

Oliver olha para o boneco. Depois para mim. Depois, para o boneco outra vez.

— Posso… só brincar um pouquinho? — pergunta, pela primeira vez com uma voz totalmente humana. — Depois eu devolvo. Prometo.

Abro a boca para dizer não. É o Liam. É o meu pedaço dele.

Mas quando olho para Oliver, vejo algo familiar demais.

A mesma carência que eu via no Liam.

A mesma necessidade de ser ouvido. De se sentir importante.

Algo que, pelo visto, ninguém aqui faz.

— Tá bom. Você pode brincar um pouquinho — digo, engolindo as lágrimas. — Mas promete cuidar direitinho? Como um astronauta de verdade?

— PROMETO! — ele exclama, abraçando o boneco e sorrindo.

O silêncio se instala na sala. Um silêncio tão absoluto que dá para ouvir o tic-tac do relógio.

Lucas e Sophia param de falar e me encaram como se eu tivesse acabado de expulsar um espírito maligno.

— Você é uma bruxa? — Sophia pergunta, chocada. — Porque eu já vi exorcista com mais dificuldade que isso.

— Ele só viu o meu boneco — respondo, simples.

— Não foi o boneco — Lucas diz devagar, sem tirar os olhos de mim. — Foi a maneira como você falou com ele. Como se… ele importasse.

— Não pode ter sido só isso, Lucas — Sophia rebate, ainda impressionada. — As outras também tentaram ser legais com o Oliver.

— Talvez nenhuma tenha sido honesta — digo baixinho. — Crianças percebem quando você mente. E percebem quando você também está perdendo alguma coisa.

Lucas não responde, só me observa por segundos que, sinceramente, parecem uma eternidade.

Por um instante, tudo some. O caos, os gritos, o pequeno astronauta sequestrador de bonecos… só fica aquele olhar verde me analisando.

Então, ele olha para o filho. Depois, para a irmã, que arqueia as sobrancelhas como quem diz “só sobrou essa”, antes de sair da sala.

Lucas volta a me encarar e, por um segundo, a expressão dele suaviza. Será que ele está considerando?

— Você disse que não tem nenhuma das qualificações que pedi, certo? — pergunta, erguendo uma sobrancelha.

— Sim — respondo. — Mas tenho experiência real com crianças. Ajudei minha mãe a criar meu irmão. Sei lidar com birras, crises, pesadelos…

— Experiência pessoal não é qualificação profissional — ele me corta, voltando a se sentar.

— Eu sei, mas o senhor acabou de ver que eu consigo.

— Vi que você acalmou uma criança em trinta segundos oferecendo um brinquedo — ele rebate, juntando alguns papéis como se eu já não estivesse aqui. — Isso não te qualifica para a posição.

Meu estômago afunda. Especialmente quando vejo a postura dele mudar. Fica fria, distante.

— Sr. Sinclair, se o senhor me der uma chance, eu…

— Oliver — ele chama, sem me olhar. — Devolva o brinquedo para a moça.

— Mas eu tô brincando, papai! — o menino protesta, apertando o boneco.

— Agora, Oliver.

Com os olhos cheios de lágrimas, ele caminha até mim e me entrega o boneco com a maior expressão de derrota do mundo.

— Obrigada, Oliver — digo baixinho, pegando-o de volta.

Lucas se levanta e me encara.

— Se quiser, pode deixar seu currículo. Pelo esforço que fez para chegar até aqui — diz, profissional demais. — Mas não vou abrir mão das exigências para contratar alguém como você.

Suspiro, finalmente entendendo o óbvio.

Ele não está me dispensando pelo francês, pelo mandarim ou por qualquer qualificação que não tenho.

Está me dispensando pelo beijo que nunca deveria ter acontecido.

Engulo em seco, reunindo o que resta de dignidade.

— Entendo — murmuro, pegando minha bolsa do chão.

Vou até a mesa, tiro o currículo amassado da bolsa, mas antes que eu consiga entregá-lo, o celular dele vibra sobre a madeira.

— Minha reunião com os investidores começa em cinco minutos — comenta, olhando a tela. — Oliver, vá para a sala da sua tia.

— Mas, papai… não quero…

— Agora.

O menino sai arrastando os pés, lançando um último olhar triste para mim antes de passar pela porta.

Lucas se levanta num movimento brusco, pega o paletó no encosto da cadeira e, só então, aceita o currículo da minha mão.

— Ivy Collins, dezenove anos, Ohio — lê rapidamente antes de largá-lo sobre a mesa. — Coragem não substitui currículo, sabia?

Seguro as lágrimas, porque chorar aqui seria exatamente o que ele espera.

Ele ajusta os punhos da camisa, alisa a gravata e, por fim, me encara.

— A saída é por ali — diz, apontando para a porta sem cerimônia. — Boa sorte com… o que quer que tenha te trazido a Nova York, Ivy Collins.

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