2. Honestidade Mortal

“Informamos que, devido à inadimplência, o imóvel vinculado ao contrato nº 45827 entrará em processo de leilão.

Prazo para regularização: dez dias úteis.”

A mensagem me acorda às sete da manhã, trazendo de volta uma realidade que, se eu pudesse, continuaria ignorando.

Dez dias.

— Bem-vinda de volta à realidade, Ivy — murmuro, saindo da cama. — Hora de parar de agir como princesa de conto de fadas e voltar a procurar emprego.

Visto uma calça jeans, uma blusa simples e prendo o cabelo em um rabo de cavalo.

Nada de salto alto, nada de vestido branco, nada de fingir ser alguém que não sou.

Hoje é dia de tentar a vaga de babá que a Tiffany me enviou.

Mesmo sabendo que tudo o que planejei pode ser um desastre completo.

Uma hora depois, caminho pela Park Avenue, rindo sozinha do meu próprio desespero.

Sim, porque não existe outra explicação para entrar escondida em uma empresa. Para praticamente implorar por uma vaga para a qual nem sequer tenho as qualificações exigidas.

— Francês e mandarim — murmuro, balançando a cabeça enquanto releio a descrição da vaga.

Tenho dezenove anos, um diploma do ensino médio e zero formações oficiais. As duas línguas que conheço são o inglês e o espanhol das aulas da Sra. Rodriguez, que quase me reprovou, aliás.

Ao menos tenho experiência, mas não com famílias americanas de alto padrão, obviamente.

Mas em manter meu irmão mais novo vivo e mentalmente estável enquanto nossa mãe morria em um hospital de uma cidadezinha de Ohio que nem aparece no G****e Maps.

— Você consegue, Ivy — sussurro para mim mesma, respirando fundo. — Chegou até aqui pra desistir? O que pode dar errado?

Tudo. Absolutamente tudo. Inclusive uma chance real de ser presa por invasão.

Mas é tarde demais para voltar atrás.

Preciso desse emprego.

Preciso de dinheiro para salvar a casa da minha mãe e pagar um advogado capaz de me ajudar a encontrar meu irmão, Liam.

Endireito os ombros, ajeito a bolsa e passo pelas portas giratórias do prédio espelhado, que deve ter uns cinquenta andares.

Coragem, por favor, não me abandone agora.

Sigo as instruções da Tiffany à risca: atravesso o saguão de cabeça baixa, evito olhar para os seguranças e vou direto para os elevadores ao fundo.

Aperto o botão do último andar e torço para ninguém entrar. Quando as portas se fecham, finalmente solto o ar.

— Consegui — murmuro, me sentindo a própria James Bond em uma missão impossível. — Estou dentro!

Quando as portas se abrem de novo, dou de cara com um corredor claro e silencioso. A recepção está vazia e, nas poltronas de couro, estão as candidatas.

Cinco mulheres impecáveis. Salto alto, pastas de couro e aquela expressão de quem não perde tempo conversando.

Parecem cinco clones perfeitamente produzidos.

Antes que eu consiga me sentar em uma das poltronas mais distantes, um sexto clone sai de uma das salas chorando.

— Será que essa entrevista é bem pior do que eu imaginei? — murmuro baixinho, observando a moça praticamente correr em direção ao elevador.

Balanço a cabeça, afastando o nervosismo que ameaça aparecer.

Não cheguei até aqui para desistir. Só preciso descobrir como vou entrar naquela sala e…

Meus pensamentos são interrompidos por uma voz masculina. Impaciente, irritada e autoritária demais para passar despercebida.

— Estou esperando a cópia do contrato há dez minutos! — ele exclama, insatisfeito.

— Já vou imprimir — a moça responde, em um tom que basicamente soa como “não me mate”.

— Ainda vai imprimir? Está esperando que eu me sente e faça o seu trabalho? — dispara. — Quero isso na minha mesa em três minutos. E traga meu café.

— Sim, senhor.

Franzo as sobrancelhas. Por que tenho a impressão de já ter ouvido essa voz antes?

A reação da moça não me dá tempo de pensar muito. Assim que a porta se fecha, ela encara o corredor vazio e, em menos de dois segundos, levanta o dedo do meio, rindo sem humor.

— Eu não preciso disso — resmunga, juntando as próprias coisas. — Pegue você mesmo o seu café, Sr. Sinclair.

Sinclair?

Esse é o Sr. Sinclair?

É com ele que preciso falar sobre a vaga de babá.

Meu cérebro, que claramente não funciona bem sob pressão, finalmente tem uma ideia brilhante de como entrar naquela sala e falar com ele.

Uma ideia brilhantemente terrível.

Se eu levar o café, talvez consiga falar sobre a vaga. Talvez ele me ouça.

Talvez…

— Você é louca, Ivy — sussurro para mim mesma, levantando. — Mas vamos lá, né?

Me aproximo da moça.

— Com licença… pode me dizer onde fica a copa? É meu primeiro dia e estou meio perdida.

— No final do corredor, à direita — ela responde, colocando a bolsa no ombro. — E boa sorte, porque eu estou indo embora!

Ela nem espera meu “obrigada”, só some.

Sigo na direção que ela indicou e, em menos de cinco minutos, tenho uma xícara sobre a bandeja e uma coragem invejável.

Passo pelas candidatas sem nem sequer olhar para elas e paro diante da porta por onde o homem mal-humorado entrou.

Meus olhos vão direto para a placa dourada:

CEO

— Ótimo. Vou invadir a sala do dono da empresa — murmuro, baixinho.

Respiro fundo três vezes, endireito os ombros e bato na porta.

— Entre — ele ordena, seco.

Prendo o ar e abro a porta.

A sala é gigantesca. Janelas de vidro enormes, estantes cheias de livros, uma mesa de madeira que mais parece ter sido esculpida por deuses escandinavos no tempo livre…

Mas é quando olho para trás da mesa que congelo completamente, como se o ar fosse sugado dos meus pulmões.

O Sr. Sinclair é… Lucas. O homem da boate.

Não.

Não pode ser.

Ele nem olha para mim. Apenas faz um gesto vago com a mão, sem tirar os olhos do notebook.

— Deixe isso aí e saia.

Mas… como sair quando meus pés parecem ter criado raízes no chão?

Me recuso a aceitar que o homem que me beijou no sábado à noite, que me fez sentir coisas que eu nunca tinha sentido antes… seja o dono dessa empresa inteira.

Forço o corpo a obedecer. Me aproximo devagar e coloco a bandeja sobre a mesa, torcendo para que minhas mãos trêmulas não me traiam.

Mas quando termino, não saio. Não consigo.

Talvez, se eu tiver um pouco de sorte, ele nem vá me reconhecer. Talvez eu ainda consiga tentar essa vaga.

Os segundos passam e ele continua digitando como se eu fosse parte da mobília. Até que percebe que eu ainda estou aqui.

Lucas levanta o rosto e nossos olhares finalmente se encontram.

Percebo o exato instante em que ele me reconhece.

Os mesmos olhos que me encararam antes do beijo se arregalam por uma fração de segundo. A mandíbula trava. Os dedos congelam sobre o teclado.

Dois segundos. Três. Uma eternidade.

Ótimo, Ivy. Agora mesmo é que você não vai conseguir esse emprego.

— Merda — ele sussurra, tão baixo que quase não ouço.

Lucas limpa a garganta e, por um segundo, algo muito parecido com pânico passa pelo rosto dele. Então, a máscara volta.

Ele se recosta na cadeira, me observando com uma intensidade que faz minha espinha formigar.

Mas agora não é desejo.

É como se ele estivesse montando um quebra-cabeça mental.

— O que você está fazendo na minha sala? — pergunta, em um tom baixo e controlado. — Aliás, como conseguiu entrar aqui?

Mordo o lábio, tentando encontrar uma resposta. Posso inventar uma desculpa? Posso. Vai ajudar? Provavelmente não.

Honestidade mortal, mas tudo bem.

— Eu… — minha voz falha, e preciso limpar a garganta para continuar. — Vim pela vaga de babá e…

Lucas me interrompe com uma risada curta, sem humor algum.

— Essa é a melhor desculpa que você conseguiu inventar? — rebate, seco. — Quer mesmo que eu acredite nisso? Não existe nenhuma Ivy na lista de candidatas.

— Porque eu não me candidatei — admito, quase num sussurro. — Mas preciso desse emprego. Desesperadamente.

— E invadiu a minha sala porque…?

— Porque ninguém me daria uma chance de outra forma — respondo, baixando os olhos. — Sem diploma, sem indicações de famílias ricas, sem falar mandarim ou francês… eu não existo para pessoas como o senhor.

Lucas me observa em silêncio, como se estivesse pesando cada palavra.

Por um instante, acredito que ele vai entender e vai me ouvir. Que vai me deixar provar que sou capaz.

Então, uma risada seca corta o silêncio da sala.

— Você deveria tentar ser atriz — comenta, balançando a cabeça. — Quase me convenceu. Ótima tentativa, Ivy. Mas conheço muito bem mulheres como você.

Abro a boca para responder, mas ele se levanta devagar e o ar parece desaparecer da sala.

Porque, pelos ombros largos e pela altura absurda, mais pareço uma formiga diante de uma geladeira.

Uma formiga prestes a ser esmagada quando ele pega o telefone e disca um número.

— Vou chamar a segurança. Agora.

— Espera! — exclamo, completamente desesperada. — Só me dá uma chance de…

A porta se abre de repente, me interrompendo.

Os seguranças vieram a jato? Porque não é possível que tenham chegado tão rápido.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App