A primeira Regra da Mansão Savoia

Existe um universo que nós, mortais, não enxergamos, um lugar que apenas os deuses pisam. O habitat natural do poder.

Será que era esse o mundo que Daniel Savoia estava me oferecendo?

Eu seria capaz de lidar com ele?

Mas convenhamos que três mil dólares por semana não era algo que eu podia rejeitar.

Descobri naquele dia que ao menos parte do meu orgulho tinha preço. Ergui a cabeça e perguntei como se eu soubesse o que significava fechar um contrato com um homem daqueles.

— Quando começo?

O sorriso, antes disfarçado, se abriu vitorioso e os olhos dele me encararam com a frieza de quem vence um jogo.

— Imediatamente, senhorita Bittencourt, afinal, não é como se tivesse algo para buscar ou alguém a quem avisar. Se houvesse, não se apresentaria a mim nessas condições.

A raiva voltou e eu o encarei com o maxilar travado antes de responder.

— Posso saber como pretende me tornar uma dama, se nem sabe respeitar uma, senhor Savoia?

O ódio que antes só estava em mim pareceu tomar o rosto dele. Dei um passo para trás, o medo tem gosto de fuga e humilhação e isso foi provado naquele dia.

Pisei em uma pedra que havia no gramado e o reflexo da dor no meu pé descalço me fez cambalear.

Eu teria caído, mas dessa vez, antes do chão, senti o braço forte de Daniel me amparar. Ele estava perto, perto demais para que eu não sentisse o mundo girar em torno de nós. Meus olhos se perderam nos lábios dele por um tempo que não fui capaz de medir.

Ele iria me beijar ali, na frente de todos?

Sei que foi um pensamento ridículo, mas meu corpo acreditou e o meu coração quis, mesmo que a mente gritasse para eu reagir.

Não tive tempo de ouvir nada antes da voz de Daniel me tirar daquele transe.

— Consegue ficar em pé, senhorita Bittencourt?

Eu respondi apenas com a cabeça e então a realidade brutal me trouxe de volta.

— Então por que não fica, está gostando do meu corpo no seu?

Devo ter ficado tão vermelha que poderia facilmente me esconder entre tomates em uma feira. Me ergui e antes que eu pudesse falar qualquer coisa fui deixada no meio do gramado.

Olhei para as costas largas do homem que agora era o meu patrão e não soube o que fazer.

Talvez devesse ter corrido atrás dele. Ou ido embora para sempre, mas demorei vários minutos olhando para a figura imponente que desapareceu para dentro da mansão.

Quando o êxtase desapareceu, caminhei seguindo os passos de Daniel. Aquela casa era agora o meu trabalho e lá dentro havia uma menininha que precisava de abrigo assim como eu precisei um dia.

Fui recebida por Lisa que me dedicou um sorriso cúmplice.

— Muito bem, Serena. Você conseguiu o inimaginável. Parabéns.

— Obrigada. Eu acho.

Minha voz saiu tão fragmentada quanto minha alma. E foi então que Lisa se apresentou formalmente.

— Seja bem-vinda, eu sou a secretária pessoal do senhor Savoia e cuido de todos os assuntos da família, incluindo a Clara. Vamos, vou te apresentar o seu quarto.

Segui ainda segurando os sapatos e me deparei com a realidade que atravessa o mundo. O quarto que eu estava prestes a ocupar tinha uma cama grande no centro, um armário de madeira repleto de vestidos exatamente iguais e um banheiro pequeno no canto.

Tudo simples e limpo, mas completamente diferente do restante da mansão. As paredes escuras careciam de pintura e a madeira das janelas, provavelmente não recebia verniz há anos.

Um recado dado pelas paredes e que eu ouvi com clareza.

— Você não pertence a essa mansão, é um mal necessário e nada além disso.

Lisa deu todas as instruções com um formalismo metódico.

— Essas serão suas roupas a partir de hoje, elas devem servir, mas caso contrário avise e encomendarei novos. Não deve sair do quarto sem estar com o uniforme. Os sapatos também devem ser os que trarei. Você não deve se sentar à mesa, mas ficará nas costas da senhorita Clara durante as refeições.

A lista de regras continuou interminável, mas tudo poderia se resumir a uma única frase. Você não tem autorização para sentir, pensar ou falar.

Concordei com os termos, vesti o uniforme e prendi os cabelos como ela orientou, não questionei nada, apenas obedeci.

Lisa cuidou dos processos administrativos da minha contratação.

Assinatura on-line, contratos infinitos que eu assinei sem ler, orientações que não faziam sentido nenhum para mim.

Tudo o que minha mente pensava era naqueles lábios, no corpo quente que me amparou, no hálito com cheiro de cravo e whisky que se escondia atrás do sorriso mais bonito que já tinha visto.

Lisa falou algo sobre bonificação.

— O valor é de mais duzentos dólares por semana se puder atender a esses termos.

Eu não ouvi, olhei para ela e perguntei direta.

— Daniel mora aqui?

Lisa respondeu com naturalidade mecanizada.

— Sim, o senhor Daniel reside na mansão da família desde que se casou com a falecida senhora Savoia. Foi parte da herança que a senhora Luciana recebeu, a mãe de Clara descendia da aristocracia.

Quando ela terminou a explicação, veio o primeiro aviso.

— No entanto, como eu disse anteriormente você deve se referir ao senhor Savoia pelo nome e sobrenome quando estiver na presença de Clara e apenas pelo sobrenome em outras ocasiões. Não deve sequer erguer o olhar para ele, compreendeu isso senhorita Bittencourt?

— Sim, desculpe. Posso ver a Clara, agora?

— Pode, venha. Ela está nesse mesmo andar, mas na ala da família, esse lado é reservado apenas aos empregados, estoques, despensa e serviços.

Atravessamos alguns corredores e quando a porta que me separava de Clara se abriu foi como entrar em um mundo encantado. Brinquedos, luzes, e enfeites que faziam o quarto da garotinha ser uma cópia da Disney.

No centro daquele paraíso infantil, Clara estava sentada com os sapatos da mãe entre as perninhas rechonchudas.

Aquela imagem doeu em mim de tal forma que a beleza ao redor escureceu.

Caminhei até a menina sem pedir permissão a Lisa, naquele momento eu só conseguia ver a mim mesma, implorando para que minha mãe não morresse.

Abaixei devagar e interrompi o que parecia ser uma conversa de Clara com os sapatos.

— Oi? Adivinha só? Eu não chorei!

Clara se levantou e segurou meus dedos com a mãozinha gelada e um sorriso lindo que me derreteu.

— Oba! Eu estava torcendo para que você ficasse, gostei do desenho verde na sua roupa.

Dei risada e confessei.

— Não conta para ninguém, mas foi um acidente e agora estou pensando em lançar tendência, acha que vai dar certo?

Clara franziu a testa, colocou o dedo indicador no queixo e respondeu animada.

— Acho que não, mas não importa, se você gostar de verdade e desejar de todo o coração você pode ter! Papai sempre me fala isso.

De repente os olhinhos animados se tornaram tristes e Clara cravou em meu peito a frase mais dolorosa que eu ouvi na vida.

— Estou quase conseguindo, eu desejo de todo o coração que a minha mamãe volte logo para casa, mas ela vem só um pouquinho e vai embora de novo.

Eu a abracei com os olhos inundados, mas naquela mesma noite eu entendi que a família Savoia escondia bem mais coisas do que apenas um CEO quebrado e uma garotinha traumatizada.

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