Mundo ficciónIniciar sesión— O senhor Savoia à espera para jantar.
Foi a frase de uma senhora de meia idade que quebrou a doçura de um dia inteiro com Clara.
Ela não era uma criança comum, acho que por isso Daniel falou sobre a importância de ter uma mulher forte ao lado da filha.
Clara era sensível e tinha uma inteligência afiada e isso me deixava encantada.
Ergui os olhos e falei sorrindo, ainda envolta pela doçura de Clara.
— Minha princesa e eu já descemos.
Eu pretendia arrumar os cabelos da menina e levá-la para lavar as mãos, mas o que ouvi me fez estremecer.
— Não! O senhor Savoia disse que apenas você e ele comeriam no deck esta noite.
Engoli a saliva e meus olhos repousaram em Clara. Não queria que ela imaginasse que eu estava traindo sua confiança logo em nosso primeiro dia juntas.
Ela sorriu para mim e garantiu, com aquele jeito único e seguro.
— Pode ir, não se preocupe. Vou escovar os dentes e já vou para a cama. Quero ver minha mamãe hoje.
Quis pedir para que Clara parasse de falar aquelas coisas, mas não tive coragem.
O olhar da senhora idosa permanecia sobre as minhas costas como uma cobrança.
Ignorei. Eu estava ali para ser a babá de Clara, e não iria deixá-la se sentir trocada.
Ajudei com a higiene, a roupa de dormir e, quando a cobri, depositei um beijo em sua testa, como a minha mãe fazia comigo.
— Boa noite, alteza.
Ela abraçou o meu pescoço com as mãozinhas pequenas e me puxou para mais perto.
— Boa noite. Eu amei que você vai ficar comigo para sempre, Serena.
Acariciei os cachos dourados que caíam sobre o travesseiro branquinho e me despedi com a verdade.
— Também estou muito feliz por poder ser sua amiga.
Saí do quarto e fechei a porta devagar. Só então dei de cara com o rosto rechonchudo da senhora me encarando com desdém.
— Não deve chamar a senhorita Savoia por nomes infantilizados. É ridículo.
Ergui as sobrancelhas, sem acreditar no que estava ouvindo, e deixei evidente a minha confusão.
— Ela é uma criança, não é? Então eu não a infantilizo. Ela é infantil.
O ódio subiu pela face cansada da senhora.
— Coloquei a roupa que deve usar sobre a sua cama. Não espere que eu continue te servindo como se fosse algo nesta casa. Sou a governanta, não sua criada.
Achei ter entendido o problema. Sabia que egos são frágeis, então abaixei a cabeça e tentei trazer conforto para aquela mulher.
— Me desculpe. Acho que não fomos apresentadas. Eu me chamo Serena e comecei hoje com a Clara. Qual o seu nome?
— Claudete. E não pense que me engana com essa cara de besta. Conheço bem o seu tipo, e nem imagina como vai quebrar a cara. Pode até conseguir o que quer… e isso vai ser tão engraçado.
Ela saiu rindo como se só ela tivesse ouvido uma piada esplêndida.
Naquele momento, eu achava que eu era a piada. Hoje sei que não.
Era o próprio Daniel e o que aquela mulher tramava por baixo do pano da confiança que havia recebido pelos vários anos trabalhando na mansão Savoia.
Fui para o meu quarto e, no caminho, trombei com outro funcionário. O impacto foi tão grande que as toalhas na mão do rapaz ficaram espalhadas pelo corredor.
— Ai, meu Deus! Me desculpa, por favor, me perdoa!
— Ei, calma. Está tudo bem. Você se machucou?
Chequei rapidamente. Nada doía mais do que antes, então eu estava bem.
— Não. Eu só estou perdida. Não consigo achar o meu quarto… é o meu primeiro dia aqui.
— Ah, você é a babá?
— Sou.
— Já conheceu as outras?
— Outras? Que outras?
Não consegui imaginar de quem ele falava. A família Savoia só tinha uma herdeira, todos os sites diziam o mesmo.
— As outras babás! Você é a chefe delas, mas quem cuida da senhorita Savoia são elas.
— Chefe? Não. Acho que está enganado. Eu não sou chefe de ninguém.
Falei confusa. Talvez Lisa, a secretária, tivesse dito algo sobre isso.
Eu jamais saberia.
Minha mente estava ocupada demais pensando nos lábios do meu chefe.
Que vergonha.
Quis fugir daquele corredor, mas o rapaz me chamou quando percebeu que eu ia para o lado errado… de novo.
— Moça, seu quarto é por ali. Vem, eu te levo.
Segui o rapaz até a porta indicada. Agradeci sem graça e entrei.
— Obrigada. E, outra vez, me desculpe pelo acidente com as toalhas.
Ele aceitou sem problemas, mas, quando me virei para dentro do quarto, a surpresa colou as minhas costas na porta.
Sobre a cama havia um vestido preto delicado e elegante.
Aproximei devagar e o toquei com as pontas dos dedos. Era frio e gostoso ao mesmo tempo.
A constatação me fez pensar nele.
Daniel Savoia também era assim, uma mistura exótica entre dor e a frieza que me fazia querer saber mais sobre aqueles olhos profundos.
Olhei para o vestido. Sabia que tinha sido uma ordem dele… e escolhi fazer o oposto.
Tomei um banho demorado, prendi o cabelo em um coque baixo e peguei um dos vestidos de algodão cinza, indicado como roupa obrigatória.
Me olhei no espelho e sorri com o que estava prestes a fazer.
Chegar ao deck também não foi fácil. Pesquisei na internet o significado daquela palavra e só depois descobri que era apenas… um piso de madeira.
Perguntei a alguns funcionários até conseguir chegar à área das piscinas.
Um espaço bonito, com luzes suaves e aquele ruído aconchegante de água caindo.
Mas não podia ser ali… podia?
Olhei em volta sem dar nenhum passo. Não queria ser surpreendida por Daniel, eu já tinha passado vergonha demais em um único dia.
— Você não recebeu o vestido?
A voz soou atrás de mim, soprada no meu ouvido. Dei um passo para trás.
Eu sei que deveria ser para frente… mas foi para trás e pisei no pé dele.
Daniel Savoia não esperava por mim. Havia deixado a ratoeira armada, e eu mordi.
Me odiei por isso.
Virei para me desculpar e, em vez de brigar, ele sorriu.
— Venha, Serena. Esta noite você é minha convidada.
Daniel me guiou, com a mão em minhas costas, até uma mesa elegante onde diversos pratos desconhecidos esperavam por nós.
Já comeu com o nó na garganta?
Foi assim que fiz a minha primeira refeição do dia tentando controlar o tremor nas mãos e convencer meu coração a permitir que a comida descesse.
Ele também parecia incomodado. E então falou palavras que pareciam ser um sacrifício para sair.
— Pedi para que jantasse comigo porque minha conduta com você foi inaceitável. Peço que desconsidere o que falei sobre serviços paralelos aos cuidados da minha filha. Clara é tudo o que restou da minha família. Cuide dela com carinho e terá em mim um amigo.
Apenas aceitei as desculpas. Não havia o que discutir.
— Cuidarei da Clara. Prometo não o decepcionar.
Ele segurou a minha mão sobre a mesa. Um agradecimento rápido, cheio de palavras não ditas e da dor que ele carregava nos olhos.
Desviei o olhar e, nesse movimento, percebi Claudete e outra mulher olhando em nossa direção.
A elegância da senhora ao lado da governanta não combinava com uma empregada.
Mas, assim que desviei os olhos de novo, as duas simplesmente desapareceram.
Ainda procurava por elas quando o grito de Clara me fez olhar para a janela do segundo andar.
Ela estava com o corpo para fora, gritando algo que eu não ouvi.
Levantei tão rápido que a taça de cristal virou, derrubando vinho na camisa de Daniel.
— Desculpa!
Gritei já de costas e corri para o quarto de Clara.
Puxei-a para o meu colo como se estivesse salvando a mim mesma, e enquanto ela chorava dizendo que a mãe tinha ido embora de novo… eu chorava abraçada nela.
Eu achava conhecer aquela dor.
Fiquei com Clara até que ela se acalmasse. Cantei uma canção antiga e, quando ela começou a ressonar, me levantei.
A mente vagava entre meu passado e o presente de Clara, a dor por não poder fazer nada e a dúvida sobre quem realmente era Daniel.
Os pensamentos tomaram minha atenção e não percebi que, desde o primeiro instante naquele quarto, eu estava sendo observada.
Meu corpo se chocou contra o de Daniel.
Olhei para cima e confirmei o que já sabia... as mãos fortes em torno da minha cintura pertenciam ao meu chefe.
E os olhos dele, presos em meus lábios, fizeram meu corpo se dissolver naquele toque.
Fiquei na ponta dos pés. Fechei os olhos com os dedos travados no terno manchado de vinho e tentação. O hálito dele invadiu o meu, a respiração quente tão perto que tudo o que consegui fazer foi esperar que ele tomasse a minha boca.







