Mundo de ficçãoIniciar sessãoELLA
Uma hora depois, Maggie bateu na porta.
— Ella? Luisa está na biblioteca. Vou te levar até ela.
Levantei da cama onde estava sentada, olhando a chuva. Alisei a roupa — calça jeans, blusa branca simples, tênis gastos. Nada elegante. Mas era o que eu tinha.
Segui Maggie pelo corredor silencioso. Nossos passos ecoavam no mármore. A casa parecia engolir qualquer som, transformá-lo em eco e depois em nada.
— A biblioteca é o lugar favorito dela — Maggie disse enquanto descíamos ao primeiro andar. — Ou era. Antes.
Antes.
Antes da mãe morrer.
Antes do silêncio.
Antes do mundo desabar.
Paramos em frente a uma porta dupla de madeira escura. Maggie abriu devagar, como se tivesse medo de assustar alguém.
— Luisa, querida, tem alguém aqui para te conhecer.
Entrei atrás dela.
A biblioteca era linda. Estantes até o teto, escada em espiral para acessar o segundo nível, poltronas de couro junto a uma lareira apagada. Janelas enormes com vista para o jardim. Livros, muitos livros, organizados por cor.
E lá, sentada no tapete felpudo no centro da sala, estava ela.
Luisa Harrington.
Seis anos. Pequena para a idade. Cabelos loiros cacheados caindo pelos ombros. Vestido azul-claro que parecia caro demais para ser usado em casa. E nos braços, apertado contra o peito, um coelho de pelúcia cinza surrado pelo tempo.
Ela não levantou o olhar quando entramos.
Apenas continuou ali, imóvel, olhando para um livro aberto na frente dela. Mas eu vi: ela não estava lendo. Só olhava para as páginas como se fossem um portal para outro lugar.
— Luisa — Maggie tentou de novo, voz suave. — Essa é a Ella. Ela vai ficar com você agora.
A menina levantou o rosto.
E meu coração parou.
Olhos azuis. Tão azuis que pareciam doer. Mas vazios. Como se a luz dentro deles tivesse apagado há muito tempo e ninguém soubesse como acendê-la de novo.
Ela me olhou.
Não com curiosidade.
Não com medo.
Apenas... olhou.
Como se eu fosse mais uma pessoa que ia entrar na vida dela e sair logo depois.
Como se não valesse a pena se importar.
Maggie suspirou baixinho.
— Vou deixar vocês se conhecendo. Qualquer coisa, me chama. — Ela tocou meu ombro brevemente e saiu, fechando a porta.
Fiquei ali, de pé, sem saber o que fazer.
Luisa voltou a olhar para o livro.
Respirei fundo.
Devagar, Ella. Ela não precisa de pressão. Precisa de espaço.
Me aproximei devagar, sentei no chão a uma distância segura dela. Não muito perto. Não muito longe.
Ela não reagiu.
— Oi, Luisa — disse baixinho. — Meu nome é Ella.
Silêncio.
— Eu vim morar aqui para ficar com você. Para brincar, ler, fazer o que você quiser.
Nada.
Ela continuava olhando para o livro. Os dedos pequenos apertavam o coelho.
Olhei ao redor, vi outros livros espalhados. Peguei um aleatório. Alice no País das Maravilhas. Abri na primeira página.
— Você gosta de histórias? — perguntei, sabendo que não haveria resposta. — Eu também gosto. Quando eu era pequena, histórias eram meu lugar seguro.
Virei uma página.
— Sabe por quê? — Continuei, como se conversasse comigo mesma. — Porque nas histórias, a gente pode ser quem quiser. Pode viajar para lugares que não existem. Pode esquecer do mundo lá fora por um tempo.
Luisa moveu a cabeça. Levemente. Olhando para mim pelo canto do olho.
Continuei.
— E o melhor: nas histórias, sempre tem um final. Às vezes feliz, às vezes triste, mas sempre tem. — Fechei o livro. — Na vida real... nem sempre a gente sabe quando as coisas vão terminar.
Ela me olhou de frente agora.
E por um segundo, só um segundo, vi algo.
Reconhecimento.
Como se ela entendesse exatamente o que eu estava dizendo.
Ela sabe.
Ela sabe o que é viver sem final.
— Você não precisa falar comigo — disse, suave. — Nunca. Se não quiser. Mas eu vou falar com você. E vou ouvir. Mesmo quando não sair som nenhum. Tá bom?
Ela piscou.
Devagar.
E então, algo que me partiu e curou ao mesmo tempo:
Ela estendeu a mão.
Pequena. Tremendo levemente.
Segurava o coelho.
Oferecendo para eu ver.
Meu peito apertou.
— Ele é lindo — sussurrei, tocando a orelha surrada do bichinho. — Como ele se chama?
Ela abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.
Nenhum som saiu.
Mas seus lábios formaram as palavras:
Sr. Nuvem.
Lágrimas queimaram meus olhos. Não deixei cair.
— Sr. Nuvem. — Sorri. — Nome perfeito. Ele parece bem sábio.
Luisa quase sorriu.
Quase.
E então puxou o coelho de volta, apertou contra o peito de novo.
Mas algo havia mudado.
Ela tinha me deixado tocar.
Tinha me deixado entrar.
Mesmo que só um pouquinho.
Primeiro passo.
Fiquei ali, sentada no chão com ela, em silêncio. Peguei outro livro, comecei a folhear. Não falei mais nada. Apenas... estava ali.
E ela deixou.
Não saiu correndo.
Não chorou.
Apenas ficou.
E talvez, naquele momento, naquele silêncio compartilhado entre duas pessoas quebradas, começou algo.
Pequeno.
Frágil.
Mas real.







