ELLAA chuva começou no exato momento em que o táxi virou na rua sem saída.Não era chuva de verdade. Apenas aquele tipo de garoa fina que molha devagar, quase educada, como se pedisse desculpas por existir. Eu observava as gotas deslizarem no vidro embaçado enquanto o motorista reduzia a velocidade, e algo dentro do meu peito apertou.Não era medo.Medo eu conhecia muito bem. Sabia o gosto dele na boca, o peso nos ombros, a forma como ele acordava comigo às três da manhã.Isso era diferente.Expectativa, talvez.Ou apenas cansaço de carregar o mundo sozinha há tempo demais.O condomínio apareceu entre as árvores como uma fortaleza. Muros altos, portões de ferro negro, câmeras apontadas para todos os ângulos. Guarita com vidros espelhados. Um homem de uniforme se aproximou, conferiu meu nome numa prancheta, acenou para o motorista.Os portões se abriram em silêncio.Devagar.Como se também hesitassem.Passamos por jardins impecáveis, ruas largas onde nenhuma criança brincava, casas qu
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