Mundo de ficçãoIniciar sessãoELLA | FLASHBACK
Seis meses atrás
A carta chegou num envelope branco.
Simples. Sem remetente.
Eu estava voltando do segundo emprego, exausta, os pés doendo de ficar oito horas em pé limpando escritórios vazios. Eram quase 23h. O prédio onde eu morava cheirava a mofo e fritura velha.
Subi as escadas — o elevador estava quebrado há três semanas — e vi o envelope enfiado embaixo da porta do meu apartamento.
Meu coração gelou.
Ele te encontrou.
Marcus te encontrou.
Peguei o envelope com mãos tremendo. Abri ali mesmo, no corredor mal-iluminado.
Dentro, uma única folha de papel.
"Você não pode se esconder para sempre."
Nenhuma assinatura.
Mas eu conhecia a letra.
Entrei correndo, tranquei a porta, puxei a corrente. Joguei a bolsa no chão, sentei encostada na parede, abraçando os joelhos.
Como?
Como ele descobriu?
Eu tinha mudado de cidade. Mudado de nome nas redes sociais. Bloqueado todos os contatos em comum.
Mas ele era assim.
Marcus sempre encontrava.
Sempre.
Passei a noite acordada, olhando para a porta, esperando que ela se abrisse. Esperando que ele aparecesse.
Ele não veio.
Mas a ameaça estava lá.
Na manhã seguinte, liguei para a escola onde dava aulas de reforço. Pedi demissão. Disse que era emergência familiar.
Procurei apartamentos em outras cidades.
Mais longe.
Mais escondido.
Precisava desaparecer.
De novo.
Foi quando vi o anúncio.
"Babá para criança de 5 anos. Necessário: formação em pedagogia, experiência com trauma infantil, disponibilidade integral. Oferece-se: moradia, salário acima da média, privacidade."
Privacidade.
A palavra pulou da tela.
Li os detalhes. Condomínio fechado. Segurança 24h. Nos arredores da cidade, longe do centro.
Longe.
Seguro.
Invisível.
Enviei o currículo sem pensar muito.
Dois dias depois, uma mulher ligou. Voz gentil, madura.
— Ella Moreau?
— Sim.
— Meu nome é Margaret Price. Sou a governanta da família Harrington. Recebi seu currículo.
Meu coração acelerou.
— A vaga ainda está disponível?
— Sim. O senhor Harrington gostaria de entrevistá-la. Você pode vir amanhã?
Amanhã.
Tão rápido.
— Posso, sim.
Ela deu o endereço. Horário.
— Uma coisa, senhorita Moreau. — Pausa. — A criança... ela não fala. Desde que a mãe morreu há dois anos. É importante que você saiba disso antes de vir.
Meu peito apertou.
Não fala.
Trauma.
Mãe morta.
Conheci essa dor.
De formas diferentes, mas conheci.
— Eu entendo — disse. — Vou estar lá amanhã.
Desliguei.
Sentei na beirada da cama do meu apartamento minúsculo.
Olhei ao redor. Paredes rachadas. Janela que não fechava direito. Pia pingando.
Você não pode ficar aqui.
Ele sabe onde você está.
Precisa ir.
Então decidi.
Pegaria esse emprego.
Moraria naquela mansão segura, em condomínio fechado, longe de tudo.
Cuidaria de uma menina quebrada.
E talvez, só talvez...
Eu também conseguiria me consertar.
Ou pelo menos esconder as rachaduras bem o suficiente para ninguém ver.
ELLA | PRESENTE
Luisa dormiu.
Finalmente.
Depois de duas histórias, três copos d'água e quinze minutos segurando o Sr. Nuvem contra o peito enquanto eu cantava baixinho uma canção que minha mãe cantava para mim quando eu era muito pequena.
Boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta...
Voz desafinada, baixa, mas ela pareceu gostar.
Seus olhos foram fechando devagar.
Respiração ficando regular.
E então, finalmente, ela dormiu.
Fiquei sentada na beirada da cama mais alguns minutos, só observando.
Ela parecia tão pequena ali. Frágil. Como se um vento forte pudesse levá-la.
Ajeitei o cobertor, apaguei a luz do abajur, deixei apenas a luzinha noturna acesa — uma lua prateada que projetava estrelas no teto.
Saí devagar, deixando a porta entreaberta.
Maggie havia dito que sempre deixavam assim. Caso Luisa acordasse assustada.
O corredor estava silencioso.
Escuro.
Apenas a luz baixa vinda das arandelas nas paredes.
Fui até meu quarto, entrei, fechei a porta.
Encostei nela por um momento, respirando.
Primeiro dia.
Você conseguiu.
Troquei de roupa. Vesti uma camiseta velha grande demais e short de pijama. Sentei na cama, peguei o celular.
Nenhuma mensagem.
Ninguém sabia onde eu estava.
Ninguém para me procurar.
Exatamente como eu queria.
Solidão escolhida é diferente de solidão forçada, pensei.
Mas doía do mesmo jeito.
Deitei, puxei o cobertor até o queixo, olhei para o teto.
A casa era silenciosa.
Silenciosa demais.
Como se prendesse a respiração.
Como se esperasse algo que nunca chegava.
Pensei em Luisa. Nos olhos azuis vazios. No jeito que ela apertava o coelho. No riso baixo quando eu fiz vozes engraçadas lendo.
Ela está tão quebrada.
Mas está tentando.
Do jeito dela.
Pensei no homem que eu não conheci.
Nathaniel Harrington.
Nate.
O pai fantasma.
Maggie disse que ele estava no trabalho. Que voltava tarde.
Mas eu tinha ouvido passos no corredor há pouco.
Pesados.
Lentos.
Parando na porta de Luisa.
Ficando ali por alguns segundos.
E então continuando.
Subindo as escadas.
Ele tinha estado ali.
Ouvindo.
Mas não entrou.
Por quê?
Por que um pai não entra para ver a própria filha?
Virei de lado, fechei os olhos.
Amanhã.
Amanhã talvez eu conhecesse o homem de gelo.
Ou talvez não.
Talvez ele continuasse sendo apenas passos no corredor.
Uma sombra.
Um fantasma na própria casa.
E por algum motivo...
Isso me entristeceu mais do que deveria.







