CAPÍTULO 3

NATE

A reunião se arrastava há três horas e quinze minutos.

Richard Sutton falava, gesticulando excessivamente sobre projeções de mercado que eu já tinha lido no relatório. Sua voz enchia a sala de conferências, confiante, autoritária, irritante.

Eu olhava pela janela.

Chuva fina caindo sobre a cidade. Prédios de vidro refletindo o céu cinza. Carros lá embaixo, pequenos como brinquedos, correndo para lugares que provavelmente não importavam.

A nova babá chegou hoje.

A mensagem de Maggie havia chegado há duas horas. Li. Não respondi.

Mais uma.

Quatro babás em menos de um ano.

A primeira durou três meses. Saiu chorando, dizendo que não aguentava o silêncio.

A segunda, dois meses. Pediu demissão por e-mail, sem explicação.

A terceira, seis semanas. Disse que a casa era "pesada demais".

A quarta, um mês. Simplesmente não voltou depois do fim de semana.

E agora a quinta.

Ella Moreau.

Vinte e quatro anos. Formada em Pedagogia. Experiência com crianças em situação de trauma.

Eu tinha visto o currículo. Maggie insistiu. Aprovei sem entrevistá-la. Sem conhecê-la.

Porque que diferença fazia?

Ela ia desistir também.

Todas desistiam.

— Harrington, você está me ouvindo?

A voz de Sutton me trouxe de volta. Olhei para ele. Terno cinza caro, gravata azul-escura, irritação mal disfarçada nos olhos.

— Perfeitamente — respondi, voz plana. — Continue.

Ele estreitou os olhos mas continuou. Mais números. Mais gráficos. Mais projeções que eu podia ler sozinho em dez minutos.

Meu celular vibrou. De novo.

Ignorei.

Vibrou mais uma vez.

Sutton pausou, olhando para o meu bolso com reprovação.

Suspirei, puxei o aparelho.

Três mensagens. Todas de Maggie.

"Ela chegou."

"Está com Luisa agora."

"Você deveria ter vindo em casa hoje, Nathaniel."

Maggie era a única pessoa no mundo que ainda me chamava de Nathaniel quando estava brava.

Guardei o celular.

— Precisamos encerrar — disse, levantando. — Tenho outro compromisso.

Sutton me olhou como se eu tivesse acabado de falar em língua estrangeira.

— Compromisso? Nate, ainda temos o relatório trimestral para—

— Amanhã. — Vesti o paletó, peguei a pasta. — Mande por e-mail. Eu reviso de casa.

Saí antes que ele pudesse protestar.

Antes que alguém pudesse me fazer ficar.

Porque se eu ficasse mais um minuto naquela sala, ouvindo palavras vazias sobre números que deixaram de importar há muito tempo, eu ia gritar.

Ou quebrar algo.

Ou simplesmente desmoronar.

E eu não podia fazer nenhuma dessas coisas.

Porque eu era Nathaniel Harrington.

CEO da Harrington Group.

Implacável.

Controlado.

Intocável.

Morto por dentro.

O elevador descia devagar. Fiquei sozinho no espelho das paredes, vendo meu reflexo. Terno preto impecável. Camisa branca sem uma ruga. Gravata escura perfeitamente alinhada.

Cabelo negro começando a ficar longo demais nas pontas. Barba por fazer porque fazia três dias que eu esquecia de me barbear.

Olhos cansados.

Sempre cansados.

Você parece um fantasma, Nate.

A voz de James na minha cabeça. Meu melhor amigo desde a faculdade, sempre preocupado, sempre insistindo.

Você está vivo. Mas não está vivendo.

Apertei a mandíbula.

O elevador abriu no estacionamento subterrâneo. Entrei no carro, liguei o motor, saí dirigindo no piloto automático.

Vinte e cinco minutos até em casa.

Vinte e cinco minutos para me preparar para entrar naquela casa que não parecia mais minha.

Vinte e cinco minutos para lembrar que eu tinha uma filha.

Luisa.

Minha menina.

Seis anos. Cabelos loiros como a mãe. Olhos azuis como os meus.

E muda.

Muda porque testemunhou o incêndio que matou Isabelle.

Muda porque viu.

Muda porque eu falhei.

"Se você não tivesse discutido com ela..."

"Se você tivesse ido atrás..."

"Se você tivesse pedido desculpas..."

"Ela ainda estaria viva."

Fechei os olhos por um segundo. Respirei. Abri de novo.

A estrada molhada à frente. O limpador de para-brisa indo e vindo. Esquerda, direita. Esquerda, direita.

Como metrônomo.

Como batida de coração.

Como contagem regressiva para algo que nunca chegava.

Cheguei em casa quando o céu já estava escurecendo. A mansão se erguia imponente, iluminada, linda.

Vazia.

Sempre vazia.

Mesmo quando tinha gente dentro.

Estacionei na garagem. Desliguei o motor. Fiquei sentado em silêncio, mãos ainda no volante.

Você deveria ter vindo em casa hoje, Nathaniel.

Maggie tinha razão.

Eu deveria.

Deveria ter conhecido a nova babá.

Deveria ter estado lá quando Luisa a conheceu.

Deveria ser um pai.

Mas eu não conseguia.

Não conseguia entrar naquela casa e fingir que estava tudo bem.

Não conseguia olhar para Luisa e não ver Isabelle.

Não conseguia estar perto sem lembrar.

E lembrar doía.

Doía tanto que eu preferia não sentir nada.

Saí do carro. Entrei pela porta lateral que dava direto para a cozinha.

Maggie estava lá, terminando de guardar algo na geladeira. Ela me viu, e sua expressão endureceu.

— Boa noite, Maggie.

— Senhor Harrington. — Formal. Tom frio. Sinal de que estava realmente brava.

Silêncio pesado.

— O jantar já passou — ela disse finalmente. — Elas já comeram.

Elas.

Luisa e a nova babá.

— Não estou com fome.

— Claro que não está. — Maggie fechou a geladeira com mais força que o necessário. — Nunca está.

Fiquei parado ali, sem saber o que dizer.

Ela suspirou, e a raiva saiu, deixando apenas cansaço.

— Nathaniel. — Ela se virou para mim. — Você ao menos vai conhecê-la?

— Quem?

— Ella. A nova babá. A menina que está cuidando da sua filha.

Ella Moreau.

O sobrenome ecoou na minha cabeça.

Moreau.

Como Isabelle.

Isabelle Moreau antes de se casar comigo.

Coincidência.

Tinha que ser coincidência.

Mas doía do mesmo jeito.

— Amanhã — menti. — Amanhã eu conheço.

Maggie me olhou como se pudesse ver através da mentira.

— Ela está aqui há seis horas. Luisa está com ela agora. E você nem subiu para ver.

Desviei o olhar.

— Onde elas estão?

— No quarto de Luisa. Ella está lendo para ela.

Lendo.

Como Isabelle fazia.

Todas as noites.

O Pequeno Príncipe. Alice. Peter Pan.

Vozes suaves no quarto escuro, Luisa rindo, Isabelle criando vozes diferentes para cada personagem.

Antes.

Antes de tudo desmoronar.

— Eu vou... — comecei, mas não sabia como terminar. — Preciso trabalhar.

Maggie balançou a cabeça, desapontada.

— Um dia, Nathaniel, você vai acordar e perceber que o tempo passou. Que Luisa cresceu sem você. Que você desperdiçou a chance de estar presente.

As palavras me acertaram como pedras.

Mas eu não rebati.

Apenas assenti.

E subi as escadas.

Passei pela porta do quarto de Luisa.

Parei.

Ouvi.

Uma voz feminina. Suave. Lendo.

"E a raposa disse: 'Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.'"

O Pequeno Príncipe.

Minha respiração falhou.

Dei um passo em direção à porta.

Minha mão tocou a maçaneta.

E então ouvi o riso.

Baixo. Abafado.

Mas um riso.

De Luisa.

Minha filha estava rindo.

Depois de dois anos de silêncio absoluto.

Ela estava rindo.

Por causa de uma estranha.

De uma babá que chegou hoje.

De alguém que não era eu.

Soltei a maçaneta.

Recuei.

Subi para o meu quarto no terceiro andar.

Tranquei a porta.

Sentei na beirada da cama.

E deixei a culpa me engolir.

Como sempre fazia.

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