CAPÍTULO 5

ELLA | PRESENTE — DIA 2

Acordei com o som da chuva.

Ainda caía.

Fina, persistente, como se tivesse decidido ficar.

Olhei o relógio: 6h30.

Me levantei, tomei banho rápido, vesti calça jeans e blusa cinza. Prendi o cabelo num rabo de cavalo.

Desci para a cozinha.

Maggie já estava lá, preparando café.

— Bom dia — cumprimentei.

— Bom dia, querida. Dormiu bem?

— Sim. E Luisa?

— Dormiu a noite toda. — Maggie sorriu. — Primeira vez em semanas que ela não acorda no meio da madrugada chorando.

Meu peito aqueceu.

Primeira vez.

Por minha causa?

Ou só coincidência?

— Ela costuma acordar?

— Toda noite. — Maggie suspirou, colocando café na xícara. — Pesadelos. Ela acorda gritando. É... de partir o coração.

Engoli seco.

— E o Sr. Harrington... ele...

— Ele nunca vai. — A voz de Maggie endureceu. — Fica no quarto, trancado. Como se não ouvisse.

Ou como se ouvir doesse demais.

Não julguei.

Eu conhecia dor assim.

A que paralisa.

A que faz você fingir que não existe.

— Luisa desce às sete — Maggie disse. — Sempre pontual. Toma café, come pouco. Você pode ficar com ela depois.

Assenti.

Ajudei a preparar a mesa. Frutas. Torradas. Suco de laranja. Leite morno.

Às sete em ponto, ouvi passos pequenos nas escadas.

Luisa apareceu na porta da cozinha.

Cabelos loiros bagunçados de sono. Vestido azul já vestido — ela mesma se trocava, Maggie havia me dito. Sr. Nuvem debaixo do braço.

Ela me viu.

Parou.

Me olhou.

E então... caminhou até a mesa e sentou.

Como se fosse natural.

Como se eu já fizesse parte da rotina.

Meu coração deu um pulo.

— Bom dia, Luisa — disse suavemente.

Ela olhou para mim.

Não falou.

Mas acenou com a cabeça.

Pequeno. Quase invisível.

Mas estava lá.

Segundo dia. Segunda vitória.

Servi o café dela. Coloquei uma torrada no prato. Cortei morangos.

Ela comeu devagar, olhando para o prato.

Eu comi também, em silêncio.

Não forcei conversa.

Apenas... estava ali.

E ela permitiu.

Depois do café, levei Luisa para o quarto dela.

— Quer brincar de alguma coisa? — perguntei.

Ela foi até uma caixa no canto. Puxou lápis de cor e papel.

Sentou no chão.

Começou a desenhar.

Sentei ao lado dela, observando.

Ela desenhava uma casa. Grande. Bonita.

E três pessoas.

Uma mulher loira.

Uma menina loira.

Um homem moreno.

A mulher estava longe dos outros dois.

Do outro lado do papel.

Separada.

Meu peito apertou.

— É sua família? — perguntei baixinho.

Ela assentiu.

— Você, seu pai e... sua mãe?

Outro aceno.

— Você sente falta dela.

Os olhos de Luisa encheram de lágrimas.

Não caíram.

Mas estavam lá.

Puxei-a para meu colo devagar.

Ela não resistiu.

Encostou a cabeça no meu ombro.

Segurou o Sr. Nuvem com uma mão.

E com a outra... segurou meu dedo.

Pequeno gesto.

Mas devastador.

— Está tudo bem sentir falta — sussurrei. — Está tudo bem chorar. Está tudo bem ficar triste.

Ela não chorou.

Mas ficou ali.

Quieta.

Segura.

E eu segurei também.

Porque talvez...

Talvez ela precisasse disso.

Alguém que apenas segurasse.

Sem perguntar.

Sem exigir.

Apenas... segurar.

NATE | PRESENTE — DIA 2

Saí de casa às 5h30.

Antes do sol.

Antes de Luisa acordar.

Antes de ter que enfrentar.

Dirigi até o escritório, ruas vazias, cidade ainda dormindo.

Entrei na sala, liguei as luzes, sentei na cadeira.

Abri o laptop.

Trabalho.

Sempre trabalho.

Números. Contratos. E-mails.

Coisas que faziam sentido.

Coisas que eu conseguia controlar.

Mas a mente vagava.

Ella Moreau.

A babá nova.

Que eu ainda não tinha conhecido.

Que fez Luisa rir ontem.

Luisa riu.

Depois de dois anos.

Por causa de uma estranha.

Deveria me fazer feliz.

Deveria me trazer alívio.

Mas só trouxe mais culpa.

Por que ela consegue e eu não?

Por que uma desconhecida em um dia faz o que eu não faço em dois anos?

O que está errado comigo?

Encostei na cadeira, passei as mãos pelo rosto.

Não dormira. De novo.

Passara a noite acordado, olhando o teto, pensando.

Em Isabelle.

No incêndio.

Nas últimas palavras que trocamos.

"Você nunca está aqui, Nate!"

"Eu trabalho para nós, Isabelle!"

"Não. Você trabalha para fugir de nós."

Ela tinha razão.

Mesmo antes do incêndio, eu já estava fugindo.

Do casamento que esfriava.

Da intimidade que dava medo.

Da vulnerabilidade que me expunha.

E agora?

Agora eu continuava fugindo.

De Luisa.

Das memórias.

De sentir qualquer coisa.

Meu celular tocou.

James.

Atendi.

— Alô.

— Você está no escritório às seis da manhã de novo? — Voz cansada, preocupada.

— Trabalho acumulado.

— Mentira. — Pausa. — Quando foi a última vez que você dormiu direito?

— Não sei.

— Quando foi a última vez que você viu Luisa acordada?

Silêncio.

— Nate...

— Não comece, James.

— Alguém precisa começar. — Voz firme agora. — Você está se matando. E pior, está matando a relação com sua filha.

— Eu sei.

— Então faz algo!

— Como? — A palavra saiu mais alta que pretendia. — Como eu faço, James? Como eu olho para ela e não vejo Isabelle? Como eu fico perto sem lembrar?

Silêncio do outro lado.

Depois:

— Você vai à terapia?

— Não.

— Nate...

— Não funciona.

— Você foi duas vezes.

— Suficiente para saber.

James suspirou.

— A nova babá chegou?

— Sim.

— Você conheceu?

— Não.

— Por que não?

— Porque... — não consegui terminar.

Porque ela se chama Moreau.

Porque toda vez que ouço o sobrenome, Isabelle volta.

Porque eu não consigo enfrentar mais uma coisa que dói.

— Nate, você precisa estar presente. Não pela babá. Por Luisa.

— Eu sei.

— Então vai em casa hoje. Almoça com ela. Conhece a menina que está cuidando da sua filha. Seja pai, mesmo que doa.

Desliguei.

Joguei o celular na mesa.

Ele tinha razão.

Todos tinham razão.

Maggie, James, provavelmente até Sutton se importasse.

Mas saber não tornava mais fácil.

Fiquei ali, na sala vazia, olhando para a tela do computador.

Pensei em voltar.

Em descer do carro.

Em entrar na cozinha.

Em ver Luisa tomando café.

Em conhecer Ella.

Ella Moreau.

Fechei os olhos.

Respirei fundo.

Amanhã.

Amanhã eu vou.

Mas sabia que era mentira.

Como sempre era.

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