Mundo de ficçãoIniciar sessão
ELLA
A chuva começou no exato momento em que o táxi virou na rua sem saída.
Não era chuva de verdade. Apenas aquele tipo de garoa fina que molha devagar, quase educada, como se pedisse desculpas por existir. Eu observava as gotas deslizarem no vidro embaçado enquanto o motorista reduzia a velocidade, e algo dentro do meu peito apertou.
Não era medo.
Medo eu conhecia muito bem. Sabia o gosto dele na boca, o peso nos ombros, a forma como ele acordava comigo às três da manhã.
Isso era diferente.
Expectativa, talvez.
Ou apenas cansaço de carregar o mundo sozinha há tempo demais.
O condomínio apareceu entre as árvores como uma fortaleza. Muros altos, portões de ferro negro, câmeras apontadas para todos os ângulos. Guarita com vidros espelhados. Um homem de uniforme se aproximou, conferiu meu nome numa prancheta, acenou para o motorista.
Os portões se abriram em silêncio.
Devagar.
Como se também hesitassem.
Passamos por jardins impecáveis, ruas largas onde nenhuma criança brincava, casas que pareciam capas de revista. Tudo lindo. Tudo frio. Tudo perfeito demais para ser real.
— É aquela ali no fim — disse o motorista, apontando.
Olhei.
A Mansão Harrington se erguia no final da rua como uma escultura moderna. Vidro, concreto, linhas retas que cortavam o céu cinza. Três andares. Janelas enormes que refletiam as nuvens. Jardim extenso ao redor, verde mas silencioso, como se nem os pássaros ousassem fazer barulho ali.
Linda.
Mas morta.
Como aquelas casas de boneca que ninguém toca porque são caras demais.
O táxi parou na entrada circular. Tirei o cinto, peguei a bolsa, respirei fundo.
Você precisa desse emprego, Ella.
Você precisa do silêncio.
Você precisa que ninguém te encontre.
Paguei a corrida com as últimas notas que me restavam, agradeci baixo. O motorista me olhou pelo retrovisor com aquele tipo de olhar que diz "boa sorte, você vai precisar", mas não disse nada. Apenas pegou o dinheiro e partiu rápido demais, como se quisesse sair dali antes que a mansão o engolisse também.
Fiquei sozinha na entrada de pedras portuguesas, minha mala surrada aos pés, a chuva tocando meus ombros.
A porta da frente era de vidro fosco, imensa, com maçaneta dourada que brilhava mesmo sob o céu sem sol. Havia uma campainha discreta ao lado. Estendi a mão, hesitei.
E se for um erro?
E se você não conseguir?
E se eles descobrirem?
Fechei os olhos. Respirei. Apertei.
O som ecoou do outro lado, abafado, educado.
Esperei.
A chuva continuava caindo, mansinha, como se tivesse todo o tempo do mundo.
Passos do outro lado. Firmes. Ritmados.
A porta se abriu.
Uma mulher de uns sessenta anos me olhou de cima a baixo. Cabelos grisalhos presos num coque impecável, avental imaculado, olhos gentis mas cansados. Olhos de quem viu muita coisa e aprendeu a não perguntar.
— Você deve ser a senhorita Moreau — disse, e havia algo maternal no tom, algo que me pegou desprevenida.
— Ella — corrigi rápido, porque "senhorita Moreau" parecia pesado demais para carregar. — Pode me chamar de Ella.
Ela assentiu, deu um passo para o lado.
— Margaret Price. Mas todos me chamam de Maggie. Sou a governanta. — Fez um gesto para dentro. — Bem-vinda.
Bem-vinda.
A palavra ecoou no hall enorme quando entrei. Pé-direito altíssimo, escada de mármore que subia em curva elegante, lustre de cristal que parecia mais arte que iluminação. Tudo branco, cinza, preto. Limpo demais. Silencioso demais.
Como se ninguém vivesse ali.
Como se a casa estivesse apenas esperando.
Maggie fechou a porta atrás de mim, cortando a chuva, o som do mundo lá fora. Pegou minha mala antes que eu pudesse protestar.
— O senhor Harrington está no trabalho — disse enquanto começava a subir as escadas. — Volta tarde. Como sempre.
Havia algo no jeito que ela disse "como sempre".
Tristeza, talvez.
Ou só aceitação de algo que não mudava há tempo.
Segui-a, meus tênis velhos fazendo barulho no mármore. Ela não comentou minha roupa simples, minha mala remendada, meu cabelo úmido de chuva. Apenas subia os degraus com a postura ereta de quem conhecia cada centímetro daquela casa.
— Você tem experiência com crianças, certo? — perguntou sem olhar para trás.
— Sim. Sou formada em Pedagogia. Trabalhei em escola pública por dois anos.
Não mencionei o resto.
Nunca mencionava o resto.
— A Dra. Olivia Santos disse que você era qualificada. — Maggie parou no segundo andar, virou à direita. — Luisa precisa de alguém... paciente.
Luisa.
A menina que não falava.
A menina de seis anos que tinha olhos velhos demais.
— Ela não fala desde que a mãe morreu — continuou Maggie, voz baixa, como se falasse de algo sagrado. Ou proibido. — Dois anos e meio. Os médicos dizem que não há nada fisicamente errado. É trauma. Ela testemunhou o incêndio.
As palavras ficaram penduradas no ar.
Viu o incêndio.
Uma criança de quatro anos testemunhando a morte da mãe num incêndio.
Meu peito apertou.
— Eu entendo — murmurei.
E entendia.
Silêncio eu entendia.
Dor eu entendia.
Não falar porque as palavras doem demais... isso eu entendia muito bem.
Maggie me levou até uma porta no fim do corredor. Abriu.
O quarto era pequeno, mas acolhedor. Cama de solteiro com lençóis brancos, escrivaninha junto à janela, luminária de leitura, estante vazia esperando ser preenchida. A janela tinha vista para o jardim lá embaixo, a chuva ainda caindo mansa sobre a grama muito verde.
— Banheiro é ali. — Ela apontou uma porta lateral. — Se precisar de qualquer coisa, meu quarto é no térreo, perto da cozinha. O quarto de Luisa fica logo ao lado do seu. — Pausa. — O do senhor Harrington é no andar de cima.
Longe.
Claro que longe.
O viúvo que não superou.
O pai que se afastou.
Eu já conhecia esse tipo de dor. Já tinha visto em outros olhos.
— Obrigada — disse, e soou pequeno demais para o tamanho da gentileza.
Maggie colocou minha mala no chão, virou-se para me encarar. Seus olhos eram bondosos, mas sérios.
— Ella. — Ela deu um passo à frente. — Antes de você conhecer Luisa, preciso que entenda uma coisa.
Esperei.
— Essa casa está adormecida. — Ela olhou ao redor, como se visse fantasmas nas paredes. — Faz dois anos que ninguém ri aqui. Faz dois anos que aquela menina não diz uma palavra. E faz dois anos que o senhor Harrington esqueceu como é viver.
Engoli seco.
— As outras babás... — comecei.
— Desistiram. Todas. Quatro, em menos de um ano. — Maggie suspirou fundo. — Não porque Luisa é difícil. Mas porque o silêncio aqui é ensurdecedor. Porque ele mal olha para a própria filha. Porque essa casa dói, Ella. Ela dói tanto que sufoca.
Fiquei quieta, absorvendo cada palavra.
Maggie tocou meu braço levemente.
— Mas eu vi você descer daquele táxi. Vi o jeito que você olhou para essa casa. — Um sorriso triste apareceu. — E tive um pressentimento.
— Pressentimento de quê?
— Que talvez você seja a única que aguenta. — Ela apertou meu braço. — Porque você também conhece esse tipo de dor, não é?
Não perguntou como eu sabia.
Apenas sabia.
Dor reconhece dor.
Assenti devagar.
— Então descanse um pouco. — Maggie soltou meu braço, foi até a porta. — Daqui a uma hora, te apresento à Luisa. Depois você janta com ela. O senhor Harrington não costuma jantar em casa.
Claro que não.
Ela saiu, fechando a porta suavemente.
Fiquei parada no meio do quarto vazio, ouvindo a chuva bater na janela. Tirei o casaco molhado, sentei na beirada da cama, olhei para minhas mãos.
A cicatriz no pulso esquerdo era fina, branca, antiga.
Passei o dedo por cima.
Você está segura, Ella.
Ninguém sabe onde você está.
Ele não vai te encontrar.
Você pode recomeçar.
Respirei fundo.
Me levantei.
Abri a mala, comecei a arrumar minhas poucas roupas na gaveta vazia.
E pensei: talvez, só talvez, aquela casa silenciosa, aquela menina muda, aquele homem de gelo... fossem exatamente o tipo de invisibilidade que eu precisava.
Um lugar onde eu pudesse existir sem ser vista.
Um lugar onde o passado não me alcançasse.
Um recomeço.
Ou pelo menos a ilusão de um.







