O cheiro veio antes da memória. Manteiga quente, quase caramelizando, alho começando a dourar — ainda claro, ainda vivo. No exato instante em que deixa de ser cru e promete alguma coisa maior. Maya fechou os olhos por um segundo. Não por distração, mas por instinto. Deixou o aroma preencher o peito, como se precisasse reconhecer aquele momento antes de existir dentro dele. Era sempre assim. O corpo entendia primeiro. A mente vinha depois, atrasada, tentando alcançar.— Se você continuar parada aí, o pão vai passar do ponto.A voz atravessou a cozinha antes dela abrir os olhos.Maya respirou uma vez, curta, e voltou.— Não vai — respondeu, sem se mexer — eu calculei o tempo.— Você sempre acha que calculou.Ela revirou os olhos, mas um canto da boca quase reagiu. Quase. O lugar ainda estava vazio de clientes, mas não de pressão. Nunca estava. A tensão ali não dependia de movimento, ela morava no ambiente. Se escondia nas bancadas limpas, nos utensílios alinhados, no silêncio que pareci
Leer más