Mundo de ficçãoIniciar sessão— Você não parece o tipo que desiste — ele comentou, observando mais do que apenas a resposta dela.
Maya sustentou o olhar por um instante, como se avaliasse o peso da frase antes de devolvê-la. — Eu não sou. — fez uma pausa curta, depois completou, mais calma — não porque eu não queira, às vezes. Mas porque… se eu paro, parece que tudo que eu aguentei até ali perde o sentido. Ele inclinou levemente a cabeça, absorvendo aquilo. — Então você continua por teimosia… ou por propósito? Ela soltou um pequeno riso pelo nariz. — No começo era teimosia. — os dedos giraram lentamente a xícara — agora acho que virou uma questão de provar um ponto. Nem sei mais pra quem. — Pra você — ele disse, sem hesitar. Maya ergueu os olhos. Aquilo a pegou de surpresa. — Talvez — admitiu, mais baixa — ou talvez eu só não aceite a ideia de que o lugar onde eu deveria estar ainda depende da permissão de alguém que nunca teve que lutar por ele. O silêncio que veio não era desconfortável, era atento. Ele não desviou. — E você? — ela perguntou, inclinando levemente o corpo — desiste fácil ou só escolhe bem o que não vale a pena insistir? Ele demorou mais dessa vez. Não porque não tivesse resposta mas porque parecia decidir o quanto dela podia mostrar. — Eu não desisto fácil — disse, devagar — mas aprendi que insistir na coisa errada pode custar caro demais. — Caro como? — Maya pressionou, mas sem agressividade — tempo? Dinheiro? Ou… outra coisa? Ele sustentou o olhar dela por um segundo a mais do que o confortável. — Depende do que está em jogo. Ela não desviou. — E o que costuma estar em jogo pra você? Agora o silêncio mudou de forma. Ficou mais denso mais pessoal. Ele respirou fundo, quase imperceptível. — Mais do que eu gostaria de admitir em voz alta. Não era uma evasiva completa mas também não era uma entrega. Maya percebeu, claro que percebeu. Ela soltou o ar devagar, inclinando a cabeça. — Você é difícil. — Eu tô começando a achar que sim. — Não é charme, tá? — ela disse, um meio sorriso surgindo — às vezes parece só… proteção demais pra alguém que não parece precisar. Ele absorveu aquilo em silêncio sem defesa imediata e isso, por si só, já dizia alguma coisa. Maya desviou o olhar por um momento, como se reorganizasse os próprios pensamentos. — Mas você voltou — disse, quase como se tivesse pensado alto. Ele não respondeu de imediato. O olhar dele ficou nela, mais firme agora. — Voltei. Ela ergueu os olhos de novo. — Por quê? Dessa vez, o silêncio não foi hesitação, foi escolha. Ele apoiou o braço na mesa, inclinando o corpo um pouco mais na direção dela. Menos distância. Menos barreira. — Porque eu quis — disse, sem desviar — e porque, desde aquela noite, eu fiquei com a sensação de que tinha ido embora cedo demais. A frase ficou entre eles. Sem excesso, sem defesa. Maya sentiu algo se deslocar dentro dela. Pequeno mas suficiente. — Isso… — ela começou, o tom mais suave — isso é uma resposta de verdade. — Eu sou capaz delas. Só não com todo mundo. — Então eu sou uma exceção? Ele segurou o olhar dela, sem sorrir. — Você ainda é uma dúvida interessante. Ela riu baixo. — Eu devia me ofender? — Acho que você não é o tipo que se ofende fácil. — Só quando vale a pena. Ele assentiu, quase imperceptível. E, por alguns segundos, o silêncio voltou. Mas agora era outro, mais próximo, mais confortável. Como se ambos tivessem, sem perceber, dado um passo além do ponto inicial. — Então… — ele disse, mudando levemente o foco, mas sem quebrar a conexão — massa com manteiga, sálvia e limão. Maya ergueu uma sobrancelha, surpresa genuína atravessando o rosto. — Você lembra. — Eu lembro de coisas que me marcam — respondeu, simples — e aquilo parecia importante pra você. Ela apoiou o cotovelo na mesa, inclinando o corpo. — Não parecia. É. — Então eu preciso provar. Ela segurou o olhar dele por um segundo antes de responder. — Precisa. — Isso é um convite? — Depende do quanto você pretende continuar sendo misterioso — ela rebateu, com leve provocação — porque eu não sirvo prato bom pra gente que aparece e desaparece sem explicação. Ele soltou um riso baixo, mas havia algo mais sério por trás. — Justo. — Então aparece no restaurante. Ele hesitou, dessa vez não foi sutil o suficiente para passar despercebido. Maya viu. Claro que viu. O microsegundo em que ele considerou dizer sim… e algo o puxou de volta. — Não é tão simples assim — ele disse, mais contido. Ela cruzou os braços devagar, sem perder o tom leve. — Nunca é com você, né? Ele desviou o olhar por um instante, como se procurasse uma resposta melhor. — Eu tenho… horários complicados. Coisas que nem sempre eu consigo ajustar. — Ou você só não quer misturar as coisas — ela retrucou, observando com atenção — o que, sinceramente, seria mais fácil de entender do que essas respostas pela metade. Ele voltou o olhar para ela agora mais firme. — Eu quero ir. — Então vai. Simples e direto. Sem espaço para interpretação. O silêncio que veio depois não era leve, era uma encruzilhada. Por um segundo, pareceu que ele ia dizer mais. Explicar. Abrir alguma fresta — Eu vou ver — respondeu, por fim. E ali estava de novo. A distância. Maya soltou um riso baixo, balançando a cabeça. — Claro que vai. Mas, dessa vez, ela não insistiu. Não porque não quisesse mas porque já começava a entender. Ele não era alguém que se encaixava fácil em lugar nenhum e talvez fosse exatamente isso que tornava tudo difícil de ignorar. Do lado de fora, alguém passou correndo. A porta da cafeteria abriu com um leve impacto, trazendo junto o barulho da rua — alguns passos, vozes, um carro passando rápido demais e então mudou. Foi sutil quase invisível mas não para ela. O corpo dele enrijeceu por um segundo, os olhos se moveram antes da cabeça. Um cálculo rápido, automático. Defensivo. Maya franziu a testa. — O que foi? Ele piscou. E, tão rápido quanto veio, desapareceu. — Nada. Mas ela já tinha visto aquilo antes. Na festa, na rua. Agora. Sempre o mesmo padrão sempre o mesmo tipo de atenção deslocada. Ela inclinou levemente a cabeça, estudando ele com mais cuidado. — Você sempre fica assim? — Assim como? — Como se alguém fosse entrar pela porta a qualquer segundo… e você já estivesse preparado pra isso. O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Mais pesado, mais revelador. Ele a encarou e, dessa vez não havia sorriso, nem tentativa de suavizar. Só… uma verdade contida, prestes a escapar.






