capítulo 6

— Você não parece o tipo que desiste — ele comentou, observando mais do que apenas a resposta dela.

Maya sustentou o olhar por um instante, como se avaliasse o peso da frase antes de devolvê-la.

— Eu não sou. — fez uma pausa curta, depois completou, mais calma — não porque eu não queira, às vezes. Mas porque… se eu paro, parece que tudo que eu aguentei até ali perde o sentido.

Ele inclinou levemente a cabeça, absorvendo aquilo.

— Então você continua por teimosia… ou por propósito?

Ela soltou um pequeno riso pelo nariz.

— No começo era teimosia. — os dedos giraram lentamente a xícara — agora acho que virou uma questão de provar um ponto. Nem sei mais pra quem.

— Pra você — ele disse, sem hesitar.

Maya ergueu os olhos. Aquilo a pegou de surpresa.

— Talvez — admitiu, mais baixa — ou talvez eu só não aceite a ideia de que o lugar onde eu deveria estar ainda depende da permissão de alguém que nunca teve que lutar por ele.

O silêncio que veio não era desconfortável, era atento. Ele não desviou.

— E você? — ela perguntou, inclinando levemente o corpo — desiste fácil ou só escolhe bem o que não vale a pena insistir?

Ele demorou mais dessa vez. Não porque não tivesse resposta mas porque parecia decidir o quanto dela podia mostrar.

— Eu não desisto fácil — disse, devagar — mas aprendi que insistir na coisa errada pode custar caro demais.

— Caro como? — Maya pressionou, mas sem agressividade — tempo? Dinheiro? Ou… outra coisa?

Ele sustentou o olhar dela por um segundo a mais do que o confortável.

— Depende do que está em jogo.

Ela não desviou.

— E o que costuma estar em jogo pra você?

Agora o silêncio mudou de forma. Ficou mais denso mais pessoal. Ele respirou fundo, quase imperceptível.

— Mais do que eu gostaria de admitir em voz alta.

Não era uma evasiva completa mas também não era uma entrega. Maya percebeu, claro que percebeu. Ela soltou o ar devagar, inclinando a cabeça.

— Você é difícil.

— Eu tô começando a achar que sim.

— Não é charme, tá? — ela disse, um meio sorriso surgindo — às vezes parece só… proteção demais pra alguém que não parece precisar.

Ele absorveu aquilo em silêncio sem defesa imediata e isso, por si só, já dizia alguma coisa. Maya desviou o olhar por um momento, como se reorganizasse os próprios pensamentos.

— Mas você voltou — disse, quase como se tivesse pensado alto.

Ele não respondeu de imediato. O olhar dele ficou nela, mais firme agora.

— Voltei.

Ela ergueu os olhos de novo.

— Por quê?

Dessa vez, o silêncio não foi hesitação, foi escolha. Ele apoiou o braço na mesa, inclinando o corpo um pouco mais na direção dela. Menos distância. Menos barreira.

— Porque eu quis — disse, sem desviar — e porque, desde aquela noite, eu fiquei com a sensação de que tinha ido embora cedo demais.

A frase ficou entre eles. Sem excesso, sem defesa. Maya sentiu algo se deslocar dentro dela. Pequeno mas suficiente.

— Isso… — ela começou, o tom mais suave — isso é uma resposta de verdade.

— Eu sou capaz delas. Só não com todo mundo.

— Então eu sou uma exceção?

Ele segurou o olhar dela, sem sorrir.

— Você ainda é uma dúvida interessante.

Ela riu baixo.

— Eu devia me ofender?

— Acho que você não é o tipo que se ofende fácil.

— Só quando vale a pena.

Ele assentiu, quase imperceptível. E, por alguns segundos, o silêncio voltou. Mas agora era outro, mais próximo, mais confortável. Como se ambos tivessem, sem perceber, dado um passo além do ponto inicial.

— Então… — ele disse, mudando levemente o foco, mas sem quebrar a conexão — massa com manteiga, sálvia e limão.

Maya ergueu uma sobrancelha, surpresa genuína atravessando o rosto.

— Você lembra.

— Eu lembro de coisas que me marcam — respondeu, simples — e aquilo parecia importante pra você.

Ela apoiou o cotovelo na mesa, inclinando o corpo.

— Não parecia. É.

— Então eu preciso provar.

Ela segurou o olhar dele por um segundo antes de responder.

— Precisa.

— Isso é um convite?

— Depende do quanto você pretende continuar sendo misterioso — ela rebateu, com leve provocação — porque eu não sirvo prato bom pra gente que aparece e desaparece sem explicação.

Ele soltou um riso baixo, mas havia algo mais sério por trás.

— Justo.

— Então aparece no restaurante.

Ele hesitou, dessa vez não foi sutil o suficiente para passar despercebido. Maya viu. Claro que viu. O microsegundo em que ele considerou dizer sim… e algo o puxou de volta.

— Não é tão simples assim — ele disse, mais contido.

Ela cruzou os braços devagar, sem perder o tom leve.

— Nunca é com você, né?

Ele desviou o olhar por um instante, como se procurasse uma resposta melhor.

— Eu tenho… horários complicados. Coisas que nem sempre eu consigo ajustar.

— Ou você só não quer misturar as coisas — ela retrucou, observando com atenção — o que, sinceramente, seria mais fácil de entender do que essas respostas pela metade.

Ele voltou o olhar para ela agora mais firme.

— Eu quero ir.

— Então vai.

Simples e direto. Sem espaço para interpretação. O silêncio que veio depois não era leve, era uma encruzilhada. Por um segundo, pareceu que ele ia dizer mais. Explicar. Abrir alguma fresta

— Eu vou ver — respondeu, por fim.

E ali estava de novo. A distância. Maya soltou um riso baixo, balançando a cabeça.

— Claro que vai.

Mas, dessa vez, ela não insistiu. Não porque não quisesse mas porque já começava a entender. Ele não era alguém que se encaixava fácil em lugar nenhum e talvez fosse exatamente isso que tornava tudo difícil de ignorar.

Do lado de fora, alguém passou correndo. A porta da cafeteria abriu com um leve impacto, trazendo junto o barulho da rua — alguns passos, vozes, um carro passando rápido demais e então mudou. Foi sutil quase invisível mas não para ela. O corpo dele enrijeceu por um segundo, os olhos se moveram antes da cabeça. Um cálculo rápido, automático. Defensivo.

Maya franziu a testa.

— O que foi?

Ele piscou. E, tão rápido quanto veio, desapareceu.

— Nada.

Mas ela já tinha visto aquilo antes. Na festa, na rua. Agora. Sempre o mesmo padrão sempre o mesmo tipo de atenção deslocada. Ela inclinou levemente a cabeça, estudando ele com mais cuidado.

— Você sempre fica assim?

— Assim como?

— Como se alguém fosse entrar pela porta a qualquer segundo… e você já estivesse preparado pra isso.

O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Mais pesado, mais revelador. Ele a encarou e, dessa vez não havia sorriso, nem tentativa de suavizar. Só… uma verdade contida, prestes a escapar.

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