capítulo 3

Eles continuaram conversando sem perceber exatamente quando o assunto mudava. Comida virava trabalho. Trabalho escorregava para memórias pequenas, quase irrelevantes mas que, de algum jeito, diziam mais do que grandes histórias. O tempo desacelerou. Ou talvez fosse só a sensação de não precisar apressar nada. Foi então que Maya notou. Pequeno no começo. Quase banal.

— Você não usa o celular — comentou, inclinando levemente a cabeça.

Ele acompanhou o olhar dela, como se só então lembrasse do aparelho no bolso.

— Tento evitar.

A resposta veio simples demais.

— Por quê?

Ele deu de ombros, mas havia algo mais ali. Um cansaço sutil, mal disfarçado.

— Porque, se eu começo… não paro.

Maya soltou um riso leve.

— Isso é praticamente todo mundo.

— Pois é.

Mas ele não riu.

E isso chamou atenção.

Ela estreitou um pouco os olhos, observando melhor.

— Espera… — disse, juntando as peças — você não olhou nenhuma notificação desde que a gente saiu. Nem uma vez.

Ele ficou em silêncio. O suficiente para confirmar.

— Isso é estranho — ela concluiu.

— Eu sei.

— Você não tem cara de quem consegue se desconectar assim.

— E eu não consigo.

Agora ele olhou para ela. Direto. Sem desviar.

— Esse é o ponto.

Maya descruzou os braços, interessada.

— Explica.

Ele respirou fundo, passando a mão pelo bolso da calça, não para pegar o celular, mas como se sentisse o peso dele ali.

— É meio… automático — começou devagar — Você pega o celular sem perceber. Só pra ver uma coisa rápida. Aí já tem outra. E outra. E quando vê… você não sabe mais por que pegou.

Maya assentiu, reconhecendo.

— Sim.

— E não é só isso — ele continuou — Você começa a se comparar. A acompanhar coisas que nem queria saber. A responder gente que não importa tanto assim… só porque parece que precisa.

Ele fez uma pausa curta, como se estivesse medindo até onde queria ir.

— E aí vem aquela sensação de que você tá sempre atrasado. Sempre devendo alguma coisa. Sempre sendo visto.

Maya ficou em silêncio. Aquilo não era superficial, era experiência.

— Ansiedade — ela disse, mais como constatação do que pergunta.

Ele soltou um pequeno riso, sem humor.

— Um pouco.

— Um pouco?

Ele inclinou a cabeça.

— Ok. Bastante.

Ela observou o rosto dele com mais atenção agora. Os pequenos sinais. A forma como ele parecia… atento demais a tudo.

— Então você foge — ela concluiu.

— Às vezes.

— E funciona?

Ele pensou por um instante.

— Por alguns minutos.

— Só?

— Só.

o silêncio não era vazio.

— Parece cansativo — Maya disse, mais suave.

Ele deu um meio sorriso.

— É.

Ela desviou o olhar por um segundo, absorvendo. Depois voltou.

— Engraçado — disse — eu sempre achei que quem vive conectado tem mais controle.

Ele negou com a cabeça, quase imediato.

— É o contrário.

Uma pausa.

— Você perde o controle e nem percebe.

Aquilo ficou no ar entre eles. Pesado de um jeito diferente, mais íntimo.

— Então por que não desliga de vez? — ela perguntou.

Ele soltou um ar curto, como se a resposta fosse óbvia demais.

— Porque não dá.

— Por quê?

Ele sustentou o olhar dela por um segundo a mais e dessa vez, não havia desvio.

— Porque tem gente esperando.

A frase veio baixa, simples. Mas carregada. Maya franziu a testa.

— Esperando o quê?

Ele hesitou e foi ali que tudo voltou a ficar incompleto.

— Coisas — respondeu.

Vago de novo, protegido de novo. Maya cruzou os braços lentamente.

— Você faz isso o tempo todo.

— O quê?

— Chega perto de dizer algo real… e volta.

Ele não negou, só deu um meio sorriso cansado.

— Hábito.

Ela o observou por mais alguns segundos, tentando entender onde ele terminava e onde começava o personagem que ele claramente construía.

— Então você evita o celular pra evitar… o quê exatamente?

Ele olhou para frente mas não parecia ver a rua.

— Ruído — respondeu.

Maya franziu levemente a testa.

— Ruído?

— Opinião demais. Informação demais. Gente demais achando que tem direito a um pedaço de você.

Ele soltou o ar devagar.

— E, quanto mais você dá… mais pedem.

Aquilo… Aquilo não era sobre um usuário comum de celular. Maya sentiu. Não completamente. Mas o suficiente para incomodar.

Ela inclinou a cabeça.

— Você não é normal, né?

A pergunta saiu mais baixa dessa vez, menos provocação. Mais tentativa. Ele sorriu. Mas não como antes.. agora havia algo ali. Quase… triste.

— Depende do ponto de vista.

Ela abriu a boca para insistir, para puxar mais um fio daquela história que claramente não estava sendo contada mas não teve tempo. Um grupo passou pela rua rindo alto demais para aquele horário.nUm deles olhou direto para ele.

Parou. Franziu a testa, como quem tenta encaixar uma memória. E então os olhos se arregalaram.

— Cara…

A palavra saiu em tom de reconhecimento. A pessoa começou a se aproximar sem hesitar. Gabriel não se moveu de imediato mas o corpo dele mudou. Ficou rígido, alerta. E, pela primeira vez naquela noite, toda a leveza desapareceu.

Maya sentiu o estômago apertar.

— O que foi? — perguntou, mais baixo agora.

Ele não respondeu só olhou para ela. E, naquele olhar, havia urgência.

— A gente precisa sair daqui — disse, quase num sussurro. — Agora!

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