A música estava alta demais.
Não apenas alta — invasiva. Vibrava no peito como um segundo batimento cardíaco, deslocado, insistente. O chão parecia ceder em pequenas ondulações, como se a qualquer momento alguém ou alguma coisa fosse perder o controle.
Maya nunca gostou disso.
Preferia sons que obedeciam a uma lógica. O corte seco de uma faca atravessando cebola. O chiado preciso de uma panela quente recebendo manteiga. O ritmo quase coreografado de uma cozinha funcionando bem a cada movimento com propósito, cada ruído com significado.
Ali, nada fazia sentido. Era excesso puro.
Luzes em roxo e azul piscavam sem ritmo, corpos se moviam em uma coreografia desorganizada, risadas altas demais disputavam espaço umas com as outras. O ar era denso: perfume caro misturado com álcool, calor e alguma coisa levemente sufocante.
Ela encostou na bancada improvisada de bebidas, cruzando os braços como se aquilo pudesse mantê-la inteira. Como se fosse possível ocupar menos espaço sem desaparecer por completo.
— Você tá com cara de quem quer ir embora faz… uns quarenta minutos.
A voz surgiu ao lado dela, casual demais para aquele ambiente.
Maya virou o rosto.
Ele estava ali como se sempre tivesse estado.
Alto, postura relaxada, um copo apoiado na mão com descuido calculado. Camisa preta simples, sem esforço em impressionar. O tipo de presença que, em teoria, passaria despercebida — se não fosse o detalhe incômodo de que ele parecia confortável ali. Como se o caos não o tocasse.
— Quarenta e cinco — ela corrigiu, antes mesmo de decidir responder.
Ele sorriu.
Não foi imediato, nem automático. Começou contido, quase discreto, e então se abriu, como se escapar fosse inevitável.
— Então por que ainda não foi?
Maya deu de ombros, desviando o olhar por um segundo.
— Promessa.
— Péssima motivação.
— Eu sei.
Ele inclinou levemente a cabeça, observando-a com uma atenção que não era invasiva — mas também não era superficial.
— Que tipo de promessa?
Ela soltou o ar pelo nariz, pegando um copo de água. Um gesto pequeno, mas necessário. Alguém precisava manter um mínimo de lucidez ali.
— Que eu ia “socializar mais”. — fez aspas no ar, sem entusiasmo — “Fazer contatos”. Essas coisas que as pessoas dizem quando você trabalha demais.
— E você trabalha demais?
Um riso curto escapou.
— Eu trabalho numa cozinha. Isso responde?
— Responde completamente.
Ele levou o copo aos lábios, ainda olhando para ela — não de forma invasiva, mas presente.
— Cozinha é guerra.
Maya arqueou uma sobrancelha.
— Você já trabalhou em uma?
— Não oficialmente. — uma pausa breve — Mas já tentei cozinhar.
— E?
Ele fez uma careta leve, quase teatral.
— Sobrevivi. Por pouco.
Ela riu. Dessa vez sem filtro.
— O que você tentou fazer?
— Macarrão.
Ela inclinou o corpo na direção dele, incrédula.
— Isso não tem como dar errado.
— Foi exatamente o que eu pensei.
— E deu?
Ele suspirou, como quem revive um trauma.
— O macarrão… virou uma coisa só. Um bloco. Compacto. Eu considerei usar como arma depois.
Maya levou a mão à boca, rindo mais do que pretendia.
— Impressionante.
— Eu gosto de pensar que foi um desastre inovador.
O silêncio que veio depois não pesou. Pelo contrário, se acomodou entre eles com naturalidade. Não exigia continuidade, nem preenchimento. Apenas existia.
— E você? — ele perguntou, virando levemente o corpo na direção dela
— É boa no que faz?
A pergunta era simples, aresposta, não.
Maya hesitou. Não por dúvida, mas por excesso. Porque a resposta carregava mais coisas do que cabiam naquele momento — frustrações acumuladas, pequenas humilhações, tentativas ignoradas.
— Eu sou — disse, por fim. — Mas isso não significa muita coisa.
Ele franziu levemente o cenho.
— Como assim?
Ela girou o copo entre os dedos, observando a água se mover.
— Significa que ser boa não garante espaço. Nem respeito. — uma pausa — Especialmente quando você é mulher numa cozinha cheia de homens que ainda acham que você deveria estar… sei lá. Fazendo sobremesa e sorrindo.
O clima mudou. Sutil, mas definitivo. Ele ficou mais sério.
— Isso ainda acontece?
Maya soltou um riso sem humor.
— Mais do que você imagina.
Ele não respondeu de imediato e foi aí que algo mudou. Porque ele não interrompeu. Não tentou suavizar. Não ofereceu solução.
Ele só… ficou olhando. Ouvindo. Absorvendo.
E aquilo — aquela atenção sem pressa — era raro o suficiente para desarmá-la um pouco.
— E o que você quer? — ele perguntou, com uma calma que não pressionava.
Maya ergueu o olhar.
— Quero ser chef.
— Só isso?
Um quase sorriso tocou seus lábios.
— Só isso.
— Então por que não é?
Ela abriu a boca e fechou.
Porque a resposta não era uma frase. Era um acúmulo. Olhares atravessados. Piadas disfarçadas. Promoções que nunca chegavam. Homens medianos sendo escolhidos antes dela... repetidamente. Era cansaço. Era insistência. Era continuar mesmo assim.
— Porque não depende só de mim — disse, por fim.
Ele assentiu, devagar.
— Entendi.
Mas não entendeu. Ela percebeu no mesmo instante.
— Não — corrigiu, mais firme — você não entendeu. Mas tudo bem.
Ele ergueu as mãos, num gesto leve de rendição.
— Justo.
Uma pausa.
E então, quase como se recusasse o peso da conversa:
— Quer fugir daqui?
Maya piscou.
— O quê?
— Fugir. — ele deu de ombros — Ir pra qualquer lugar que não tenha essa música horrível e essas luzes piscando sem motivo.
Ela olhou ao redor. Nada tinha mudado. Ainda era barulho. Movimento. Excesso. Depois voltou o olhar para ele.
— Você sempre convida estranhos pra fugir de festas?
— Só quando parecem estar prestes a implodir por dentro.
Ela cruzou os braços.
— Eu não estou prestes a implodir.
— Claro que não.
— Eu só… — ela parou.
Ele não apressou.
— Eu só não pertenço a esse tipo de lugar — concluiu.
Ele sorriu de lado.
— Ótimo. Então já somos dois.
Maya o analisou por um instante, mais atenta agora.
— Você não parece alguém que não pertence aqui.
— Aparências enganam.
A frase veio leve mas não era. Havia algo por baixo. Um peso sutil. Uma história não contada.
— E onde você pertence? — ela perguntou.
Ele demorou um pouco mais do que o normal. O suficiente.
— Ainda estou tentando descobrir.
Silêncio entre eles.
A música pareceu aumentar, como se o ambiente tentasse se impor de novo. Alguém esbarrou neles, derramando bebida no chão mas Maya mal percebeu porque algo pequeno e quase imperceptível tinha mudado. Aquela conversa importava mais do que deveria. e a ideia de sair dali com ele carregava uma sensação estranha, não exatamente confortável, mas inevitável. Como se fosse o começo de alguma coisa que ela ainda não sabia nomear.
Ela respirou fundo.
— Tá. Vamos fugir.
Dessa vez, o sorriso dele veio sem contenção.
— Boa escolha.
Eles começaram a caminhar em direção à saída mas, antes de alcançarem a porta..
— Gabriel!
A voz veio alta. Cortando o ambiente, insistente e , pela primeira vez desde que tinham começado a conversar, o corpo dele reagiu. Ficou rígido. Quase imperceptível. Mas não para ela. Maya estreitou os olhos.
— Você conhece alguém aqui?
Ele não respondeu de imediato. Apenas lançou um olhar rápido por cima do ombro... rápido demais. E então voltou para ela, com um sorriso que já não era o mesmo.
— Não exatamente.
Foi sutil. Mas foi uma mentira e Maya reconheceu no instante em que ouviu. Pela primeira vez, algo dentro dela se ajustou como uma peça fora do lugar encontrando encaixe. Talvez aquele estranho não fosse tão simples quanto parecia. Talvez aquela noite não fosse só uma fuga. Talvez fosse o começo de algo muito mais complicado do que ela estava disposta a admitir. Ainda assim ela não recuou.