capítulo 2

Do lado de fora, o ar era outro. Mais leve. Menos insistente. Respirável. A música ficou para trás como um eco distorcido, engolido pela porta que se fechou com um baque surdo — quase simbólico. Como se, por alguns instantes, o mundo tivesse voltado ao eixo.

Maya puxou o ar devagar, enchendo os pulmões como quem se reconecta ao próprio corpo.

— Isso sim é melhor.

— Concordo.

A resposta veio simples, sem esforço. Eles começaram a andar sem pressa, sem destino

Apenas acompanhando a linha irregular da calçada, iluminada por postes antigos que tingiam tudo de um amarelo cansado. Por alguns segundos, nenhum dos dois falou e não havia urgência nisso.

— Então… — ele quebrou o silêncio, com leveza — você sempre aceita fugir com desconhecidos?

Maya lançou um olhar de lado.

— Só quando eles têm a coragem de admitir que não sabem cozinhar.

Ele soltou um riso baixo.

— Um critério bem específico.

— Eu sou criteriosa.

— Ainda bem.

Ela quase sorriu.

O silêncio voltou, mas não como antes. Agora ele se acomodava entre eles com mais intimidade, como se já tivesse sido convidado.

— Você disse que tenta cozinhar — Maya retomou, virando levemente o rosto para ele. — Por quê?

Ele deu de ombros, como se a resposta fosse óbvia.

— Porque eu gosto de comer.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Isso não responde.

— Responde sim. — ele ajustou o tom, mais pensativo — Eu gosto de comida boa. E achei que… se aprendesse a cozinhar, poderia ter isso sempre. Sem depender de ninguém.

— E não deu certo.

— Nem um pouco.

Um canto do lábio dela se ergueu.

— O que você gosta de comer?

Ele demorou um segundo. Não por falta de resposta mas como se escolhesse as palavras com cuidado.

— Comida de verdade.

Maya soltou um suspiro curto, divertido.

— Isso ainda não é uma resposta.

Ele respirou fundo, dessa vez cedendo.

— Tá. Eu gosto de coisas simples feitas direito. Um risoto que não precise provar nada pra ninguém. Um pão fresco, ainda quente, que você quebra com a mão. Ou… — ele fez uma pequena pausa — um prato que deixa claro que alguém se importou enquanto fazia.

Maya diminuiu o passo, quase parou. Aquilo não era só sobre comida e ela percebeu.

— Você descreve comida melhor do que muita gente que vive disso — comentou, observando-o com mais atenção. Ele deu um meio sorriso, discreto.

— Eu observo.

— Isso é raro.

— Eu sei.

Eles seguiram andando mas agora havia uma camada a mais ali. Algo silencioso, porém presente.

— E você? — ele perguntou, virando o corpo um pouco mais na direção dela. — Qual é o seu prato?

— Meu prato?

— Aquele que você faz sem pensar. Que sempre dá certo.

Maya não precisou de tempo.

— Massa fresca. Molho de manteiga, sálvia e limão. Parmesão ralado na hora bem fino. A resposta saiu com firmeza. Familiar. Ele soltou o ar, quase num suspiro.

— Isso soa perigoso.

— Perigoso?

— No sentido de que eu provavelmente comeria mais do que deveria.

Ela sorriu, dessa vez sem segurar.

— É exatamente isso que acontece.

— Eu já gostei.

— Ainda não provou.

— Não preciso. Dá pra saber.

Ela balançou a cabeça, mas o orgulho estava ali, discreto.

— E por que você ainda não tem um restaurante? — ele perguntou, como se fosse uma continuação natural.

Maya soltou uma risada curta.

— Você faz perguntas demais.

— Eu sei. É um problema antigo.

— E você evita respostas com a mesma dedicação.

Ele arqueou a sobrancelha.

— Evito?

— Onde você trabalha?

A pergunta veio direta e ele desviou o olhar rápido demais para passar despercebido.

— Com… entretenimento — respondeu, após um breve intervalo.

Maya estreitou os olhos.

— Isso é extremamente vago.

— Eu sei.

— Você é o quê? Produtor? DJ? Alguma coisa assim?

Ele riu, mas não negou.

— Alguma coisa assim.

Ela cruzou os braços, diminuindo o passo.

— Você pergunta muito e revela pouco.

— Justo.

O silêncio que se seguiu não foi tão leve quanto os anteriores. Havia algo diferente agora. Ele parecia mais… contido. Como se tivesse recuado alguns passos dentro de si mesmo. Mais cuidadoso.

— Meu trabalho… — ele começou, escolhendo as palavras — exige que eu mantenha uma certa imagem.

Maya franziu a testa.

— Que tipo de imagem?

Ele pensou antes de responder. Não por dúvida — por cálculo.

— De alguém… previsível.

Ela soltou uma pequena risada, quase incrédula.

— Isso parece insuportável.

— É.

A resposta veio rápida. Sem defesa.

— Então por que você aceita isso?

Ele não olhou para ela.

Manteve os olhos na rua à frente, como se houvesse algo ali que merecesse mais atenção do que a própria pergunta.

— Porque, às vezes… — ele começou, mais baixo — a versão que as pessoas esperam de você acaba valendo mais do que quem você realmente é.

Maya parou de novo. A frase não passou por ela, ficou.

— Isso é triste.

Ele deu um meio sorriso, mas não havia humor ali.

— Isso é útil.

Ela o encarou, tentando decifrar o que vinha por trás daquela resposta.

— Eu não aceitaria.

Ele assentiu leve.

— Eu sei.

— Não — ela corrigiu, firme — você não sabe.

Dessa vez, ele olhou para ela de verdade e havia algo diferente ali, algo mais fundo. Menos protegido.

— Sei sim — disse, em voz baixa.

Sem ironia. Sem defesa. Só… certeza. Por um instante breve demais, Maya teve a sensação de que aquela frase não era sobre trabalho. Era sobre ele e sobre algo que ele ainda não estava disposto a dizer.

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