capítulo 4

O cheiro veio antes da memória. Manteiga quente, quase caramelizando, alho começando a dourar — ainda claro, ainda vivo. No exato instante em que deixa de ser cru e promete alguma coisa maior. Maya fechou os olhos por um segundo. Não por distração, mas por instinto. Deixou o aroma preencher o peito, como se precisasse reconhecer aquele momento antes de existir dentro dele. Era sempre assim. O corpo entendia primeiro. A mente vinha depois, atrasada, tentando alcançar.

— Se você continuar parada aí, o pão vai passar do ponto.

A voz atravessou a cozinha antes dela abrir os olhos.

Maya respirou uma vez, curta, e voltou.

— Não vai — respondeu, sem se mexer — eu calculei o tempo.

— Você sempre acha que calculou.

Ela revirou os olhos, mas um canto da boca quase reagiu. Quase. O lugar ainda estava vazio de clientes, mas não de pressão. Nunca estava. A tensão ali não dependia de movimento, ela morava no ambiente. Se escondia nas bancadas limpas, nos utensílios alinhados, no silêncio que parecia tranquilo demais para ser verdade. Esperava. Sempre esperando o momento certo de estourar.

— Bom dia pra você também, Ricardo — disse ao passar por ele, abriu o forno no tempo exato, como se estivesse respondendo mais com precisão do que com palavras.

Entrou de volta na cozinha Ele lançou um olhar rápido. Avaliou. Sempre avaliava.

— Você tá atrasada.

— Dois minutos.

— Dois minutos já são suficientes pra alguém errar.

O pão pousou na bancada com um som seco.

— E quem errou ontem e não ouviu um pio?

A pergunta ficou no ar. Ricardo não respondeu e nem precisava. O silêncio dele era um tipo específico de resposta, aquele que não confronta, mas confirma. Maya sustentou o olhar por um segundo a mais do que o confortável. Depois desviou. Respirou fundo.

"Ainda não." Ela pensou

Era cedo demais pra transformar aquilo em batalha. Ela voltou ao que sabia fazer melhor: trabalhar. Porque ali, pelo menos ali, existia uma lógica que ninguém podia distorcer. Corte preciso, movimento limpo. Foco absoluto. O mundo se organizava na ponta da faca. Mas nem isso foi suficiente, a mente escapou. Voltou. Insistiu naquela noite. O frio leve da rua depois da festa. O tipo de frio que não incomoda, só mantém você desperto. A caminhada sem destino, sem urgência. As conversas que não pediam esforço, que simplesmente aconteciam, como se já estivessem atrasadas.

E então a ruptura, sem aviso, sem preparação. O olhar dele mudando. O corpo ficando alerta antes da explicação chegar. A palavra ainda ecoava, nítida demais.

“Agora.”

Ela lembrava da sensação mais do que do som. A pressa. O toque firme quando ele puxou a mão dela rápido, instintivo e depois soltou, como se tivesse atravessado uma linha invisível. E então… vazio. Uma despedida desalinhada. Sem troca de números, sem continuidade, sem nada que desse sentido ao que tinha acabado de acontecer, só um corte brusco. Como se algo tivesse sido interrompido no meio da primeira respiração.

— Maya.

Ela piscou. Voltou.

— O quê?

— O molho.

Ela virou a cabeça e viu tarde demais.

A manteiga já escurecia além do ponto. O cheiro — antes promissor — agora carregava um amargor sutil.

— Droga.

Ricardo soltou um suspiro longo, quase satisfeito.

— Eu falei.

— Eu sei o que você falou.

Ela desligou o fogo com mais força do que o necessário, segurando o impulso de fazer barulho. De fazer mais barulho.

— Refaz.

Claro. Refaz. Sempre refaz. Maya pegou outra panela e recomeçou mas agora o movimento não era o mesmo. Estava mais tenso. Mais carregado. Pequenos excessos de força denunciando o que ela não dizia. E, no fundo, ela sabia: não era o trabalho, Era ele... o estranho que não parecia estranho. O tipo de presença que atravessa um único momento e, mesmo assim, permanece.

O restaurante ganhou ritmo aos poucos. Pedidos começaram a entrar. Primeiro um. Depois dois. Depois muitos. O som aumentou, o calor subiu, o tempo encurtou e Maya desapareceu dentro disso. Ali, ela não precisava pensar. Só reagir, só acertar, só continuar. E durante algumas horas, foi suficiente. Nenhuma lembrança, nenhuma distração. Só execução. Até que o gerente apareceu..

— Mesa sete pediu pra falar com o chef.

Maya levantou a cabeça imediatamente.

— Eu vou, deixa que eu vou.

Ricardo nem olhou para ela.

— Foi erro do prato? - ela perguntou

— Não sei.

— Então deixa eu ir.

Ele virou, finalmente.

— Eu vou.

Simples e definitivo, sem espaço. Maya travou a mandíbula. Observou ele sair. E ficou como sempre esperando. Minutos depois, ele voltou. Tranquilo demais para alguém que acabou de resolver um problema.

— Era elogio — disse, já pegando outra comanda.

Por um segundo, Maya não reagiu.

— E você nem pensou em me chamar?

— Eu resolvi.

Claro que resolveu. Ela assentiu, seca.

— Claro que sim.

E voltou ao trabalho mas agora havia algo diferente. Uma pressão interna que não encontrava saída. Não era mais irritação, era desgaste.

O turno terminou tarde. Mais do que deveria. Menos do que parecia. Como sempre

Maya saiu pela porta dos fundos, soltando o cabelo preso há horas, sentindo o peso do dia escorrer pelos ombros mas o alívio não veio porque a mente já tinha voltado para ele. Para o que não fazia sentido.

“Gabriel.”

Só isso. Um nome comum demais para alguém que não tinha nada de comum. Ela começou a andar sem decidir, sem pensar. Passos automáticos. Talvez hábito, talvez expectativa disfarçada, talvez só cansaço.

Foi então que viu a cafeteria pequena, discreta, Luz quente escapando pelas janelas como um convite silencioso. Maya parou por um instante e entrou. O som ali era outro. Era calma pelo horário... xícaras tocando pires, conversas baixas, quase íntimas, o vapor da máquina de café criando um ruído constante quase como um sopro. Ela respirou fundo e o corpo respondeu.

Melhor. Muito melhor.

— O que vai ser?

— Café preto.

Sem pensar, sem variar.

Ela esperou, apoiando os cotovelos no balcão, deixando o olhar passear sem foco. Não procurava nada e não esperava nada e talvez tenha sido exatamente isso

— Você sempre pede café preto?

Ela congelou. A voz veio limpa, inconfundível. Maya virou devagar e lá estava ele. Como se não tivesse existido intervalo algum entre antes e agora. Como se ele tivesse simplesmente dado um passo para fora da memória dela. Mesmo sorriso. Mesmo jeito contido de ocupar espaço mas agora… Mais concreto mais perigoso.

— Você tá me seguindo? — ela perguntou, antes de filtrar.

Ele sorriu.

— Acho que essa parte era minha.

Ela cruzou os braços, mas o gesto não carregava defesa real.

— Eu cheguei primeiro.

— Justo.

O silêncio que veio depois foi curto, mas não vazio, reconhecimento.

— Você sumiu — ela disse.

Sem rodeios. Ele inclinou levemente a cabeça.

— Eu fui embora.

— Rápido demais.

Uma pausa.

Pequena.

— Foi necessário.

De novo aquilo. Metade resposta, metade fuga. Maya estreitou os olhos.

— Por quê?

Ele sustentou o olhar. Um segundo. Dois.

— Problemas.

Ela soltou o ar pelo nariz.

— Você é sempre assim?

— Assim como?

— Metade resposta, metade mistério.

Ele riu, baixo.

— Depende da pergunta.

— Eu fiz uma bem simples.

— Nem sempre perguntas simples têm respostas simples.

Ela pegou o café quando chamaram.

— Você é irritante.

— Eu já ouvi isso.

— Imagino.

Mas não havia peso real na fala porque ele estava ali de novo e aquilo não parecia coincidência.

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