capítulo 7

A despedida não veio de uma vez. Foi se formando aos poucos, quase imperceptível como o fim de algo que nenhum dos dois queria encerrar, mas também não sabia exatamente como prolongar sem ultrapassar um limite invisível.

A cafeteria já não tinha o mesmo movimento de antes. Algumas mesas vazias, outras ocupadas por pessoas mergulhadas em telas ou conversas em voz baixa. O ruído constante tinha diminuído deixando o espaço mais íntimo do que confortável como se qualquer palavra agora carregasse mais peso do que deveria.

Maya girava a xícara vazia entre os dedos, distraída. Gabriel observava. Nenhum dos dois falava mas não era falta de assunto, era escolha. Havia algo ali... um acordo silencioso de permanecer mais um pouco naquele intervalo suspenso, onde nada precisava ser definido ainda.

— Eu tenho que ir — ela disse, por fim.

Sem firmeza suficiente para soar definitiva. Ele assentiu, mas não se moveu imediatamente.

— Eu também.

E então nada. Um segundo, Dois. Como se ambos esperassem que o outro fizesse algo primeiro, dissesse algo que justificasse ficar mais cinco minutos, mais dez, mais um café que nenhum dos dois realmente queria.

— A gente vai fazer isso de novo? — Maya perguntou.

Direta mas sem dureza. Mais curiosidade do que cobrança. Gabriel inclinou levemente a cabeça como se a pergunta exigisse mais análise do que realmente precisava.

— Você quer?

Ela soltou um riso baixo, breve.

— Você sempre responde pergunta com outra pergunta ou isso é exclusivo meu?

Ele sustentou o olhar dela por um instante a mais.

— Eu tô tentando entender o quanto você quer.

A resposta veio com calma, mas havia algo por baixo — não evasivo, exatamente. Cauteloso. Maya não desviou.

— O suficiente pra perguntar.

Simples mas não leve e ele percebeu um pequeno sorriso surgir... contido, quase discreto, mas real.

— Então sim. A gente faz isso de novo.

Ela assentiu devagar, como se confirmasse algo que já tinha decidido antes mesmo de perguntar.

— Ótimo. Porque eu não gosto de conversas pela metade.

— Eu percebi.

— E você parece especialista nisso.

Ele soltou um sopro leve de riso, sem negar.

— Tô trabalhando pra melhorar.

O eco de algo que ele já tinha dito antes mas agora soava um pouco menos como defesa, um pouco mais como admissão. Maya abriu a bolsa e pegou o celular, o gesto quebrou o momento de forma prática. Necessária.

— Então vamos começar com o básico.

Gabriel acompanhou o movimento com os olhos.

— Que seria?

Ela ergueu o aparelho, uma sobrancelha levemente arqueada.

— Número de telefone. Ou isso também entra na categoria “complicado demais”?

Ele riu baixo, tirando o próprio celular do bolso.

— Isso eu consigo lidar.

Por um segundo, os aparelhos trocaram de mãos. Rápido e simples mas carregado de uma importância silenciosa como se aquele pequeno gesto formalizasse algo que até então existia apenas no acaso. Maya digitou o nome dela, salvou como “Maya” sem floreio, sem curiosidade extra. Ele fez o mesmo e então, olhando para a tela por um instante:

— Sem sobrenome?

Ela deu de ombros, despreocupada.

— Por enquanto, você ainda não merece um nível tão alto de organização.

Ele arqueou levemente a sobrancelha.

— Justo.

Guardou o celular, mas não imediatamente — como se quisesse esticar aquele momento só um pouco mais.

— Eu te mando mensagem.

Maya cruzou os braços, inclinando levemente a cabeça.

— Promessa ou intenção vaga?

Agora, ele não desviou.

— Promessa.

Direto. Sem espaço para interpretação. Ela sustentou o olhar por um instante, avaliando, e então assentiu.

— Então eu vou cobrar.

— Eu imagino que sim.

Eles se levantaram quase ao mesmo tempo, sincronizados de um jeito que nenhum dos dois comentou. Saíram juntos mas, ao atravessarem a porta a cidade entrou entre eles. O vento leve, o som distante dos carros. Pessoas passando sem notar. O mundo retomando seu ritmo, como se aquele pequeno universo dentro da cafeteria nunca tivesse existido. Maya parou primeiro, não abruptamente mas o suficiente para criar uma pausa.

— Bom… — começou.

E não terminou porque qualquer continuação parecia insuficiente. Gabriel esperou. Sem pressionar, sem preencher o espaço.

— Boa noite — ela disse, finalmente.

Simples mas não vazio. Ele respondeu no mesmo tom:

— Boa noite, Maya.

O nome dela veio fácil, natural. mas permaneceu no ar por mais tempo do que deveria como se tivesse sido dito com mais intenção do que parecia. Ela assentiu, quase imperceptível e começou a se afastar. Um passo. Depois outro. Sem pressa, mas sem hesitação também. E então virou como se algo ainda a puxasse de volta por um segundo. Gabriel ainda estava ali, no mesmo lugar observando. Não de forma invasiva mas atento como se estivesse se certificando de que ela realmente iria, de que aquele momento tinha, de fato, terminado.

Maya ergueu uma sobrancelha.

— Você vai ficar me olhando até eu desaparecer?

Ele sorriu de leve, quase contido.

— Talvez.

Ela soltou um riso baixo, balançando a cabeça.

— Estranho.

— Um pouco.

Mas não parecia um problema, não para nenhum dos dois. Dessa vez, ela não virou de novo. Seguiu. Mas sentiu o olhar dele companhando cada passo. Constante, presente até a esquina.

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