O hospital tem um silêncio mentiroso.As paredes são claras demais, o cheiro é limpo demais, como se tudo ali tivesse sido feito para convencer as pessoas de que a morte não passa por aqueles corredores. Eu aprendi cedo que ela passa. Passa quieta, passa sem pedir licença, passa quando quer.Giulia estava sentada na maca, o braço enfaixado, reclamando mais do gosto do analgésico do que da dor. O médico tinha acabado de sair, deixando para trás a frase mais bonita daquela noite:— Não foi grave.Eu soltei o ar que nem percebi que estava segurando.— Eu disse — Giulia murmurou, revirando os olhos. — Um furo no braço não vai me matar. Já sobrevivi a chefe babaca, turno dobrado e café queimado. Isso aqui é luxo.Mesmo assim, eu segurei o rosto dela entre as mãos, ignorando o sangue seco nos meus dedos.— Me desculpa — repeti, pela centésima vez.— Se você pedir desculpa mais uma vez, eu arranco esse vestido de noiva e uso de pano de chão — ela rebateu. — Olha pra mim, Caterina. Eu tô viva
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