(Pov: Natan)
O escritório sempre foi um território previsível.
Natan gostava disso. Do silêncio funcional, da luz correta, da disposição precisa dos móveis. Nada ali estava fora de lugar por acaso. Cada tela tinha uma função, cada pasta um destino. O ambiente respondia à lógica — e ele também.
Naquela manhã, porém, a previsibilidade não trouxe conforto.
Ele chegou cedo demais, como sempre fazia quando precisava reafirmar controle. O prédio ainda despertava aos poucos. Elevadores vazios, recepção silenciosa. Um espaço ideal para organizar decisões sem interrupção.
Mesmo assim, algo estava deslocado.
Natan sentou-se à mesa e abriu o primeiro relatório. Leu duas linhas. Voltou ao início. Leu de novo. Fechou o arquivo com mais força do que o necessário.
— Concentre-se — murmurou.
Abriu outro documento. Projeções. Aquisições. Dados concretos. Coisas que obedeciam regras claras. Funcionou por alguns minutos. Depois, o pensamento escapou sem pedir permissão.
Porta fechada.