O envelope de Carlos Esteves queima. Não literalmente, mas sinto seu calor através do tecido do bolso de Dante durante todo o caminho de volta para casa, é um calor de culpa e segredo, um núcleo radioativo do passado que agora carregamos conosco.Não falamos. O silêncio dentro do carro é espesso, pesado, preenchido apenas pelo som do motor e do limpador de para-brisas contra a chuva fina que começou, e a imagem de Esteves, frágil e decidido, fica gravada em meus olhos, na minha memória. Ele nos passou um veneno, mas o fez com as mãos limpas, ou tão limpas quanto as de um homem morrendo podem estar.Assim que chegamos em casa, Dante não vai direto para o escritório, ao contrário, vai para o jardim, onde Otto está farejando a terra molhada perto da amendoeira, ele fica parado, olhando para a árvore, agora com o envelope visível em sua mão, me aproximo e fico ao seu lado, nossos ombros quase se tocando.— Ele confiou em nós — diz sem me olhar.— Ou desistiu de tudo. — Corrijo, suavement
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