A estrada é uma fuga.
O carro comum corta a paisagem que muda da cidade para o campo, e depois para a serra, até que o cheiro do mar, salgado e úmido, começa a invadir o ar condicionado, Melissa dorme no banco de trás, a cabeça apoiada em uma almofada e Otto enroscado a seus pés. O silêncio entre Dante e eu não é pesado; é o silêncio de quem está se movendo, de quem deixou o perigo para trás, mesmo que por um tempo.
No painel, o relógio digital avança com uma lentidão cruel e cada minuto parece um pequeno território conquistado longe de Viktor, longe do nome Lobo, longe das ruínas que carregamos nos ossos. Tento memorizar aquela sensação provisória de normalidade, como se fosse possível guardá-la em um bolso invisível para os dias futuros.
Dante dirige sem ligar o rádio, ele nunca liga, diz que a música distrai, mas sei que o silêncio é o único lugar onde ele ainda sente algum controle. Seus olhos percorrem a estrada como se buscassem padrões invisíveis, ameaças que talvez nem exista