Capítulo cinco

Bônus

Um Navio, um Naufrágio

"A vida não oferece promessas nem garantia, apenas oportunidades e possibilidades".Autor desconhecido.

Alicia

A definição de um naufrágio nada mais é do que a destruição ou a perda de um navio. Os naufrágios têm diversas causas. Um navio pode ser destruído pelo fogo, pode afundar ou pode colidir com outra embarcação. As causas de alguns naufrágios permanecem desconhecidas.

Se prestarmos atenção, a vida é como um navio: muitos desfrutam de uma bela paisagem, passam sem alguma tormenta; alguns já começam a sua viagem com furacões e desastres, ficam à deriva, sem sinal de que possam ser salvo; já outros, devido suas ambições, maldade e seu egoísmo, fazem da sua vida um verdadeiro naufrágio.

Como eu sei disso? Simples: eu passei por isso, vivi uma vida maravilhosa por seis anos, as paisagens eram maravilhosas; mas devido a um desastre, um furacão na minha vida, tudo mudou e se transformou nisso que é hoje.

Devem estar se perguntando quando meu naufrágio começou, não é mesmo? Ele começou quando meus pais morreram.

Dizem que não lembramos com detalhes de nossa infância, mas eu ainda fecho os olhos e lembro da mamãe me abraçando, me beijando, me empurrando no balanço feito de um pneu de carro velho pendurado na árvore no quintal de casa... me lembro da sua voz doce e suave, como um sussurro, dizendo que eu era um anjo que papai do céu tinha enviado na terra para dar sentido à vida dela. Lembro-me de como sorrir era fácil, de como eu era feliz, aquela felicidade que vem daqui de dentro, do fundo da alma.

Mas tudo acabou quando eu entrei naquele barco, e pela primeira vez em minha vida eu desejei ter morrido também.

Te encontro nas ruas até de olhos fechados.

Sinto a tua presença, e a lembrança que eu tenho de você

Me faz querer te abraçar,

Querer te encontrar.

Detonautas — Verdades do mundo

Naquela manhã de sábado, há seis anos, mamãe, papai e eu estávamos indo ao zoológico. Eu estava animada porque tinha um bebê elefante novo. Estava louca para ver ele. Lembro-me da trança que mamãe havia feito no meu cabelo, do perfume com cheiro de jasmim que ela usava, do vestido cor-de-rosa com renda branca, lembro do papai sorrindo também, de tênis, bermuda e uma camiseta, lembro de olhar ela janela e ver o sol brilhando tanto e tão quente, que queimava a minha pele, me lembro que o meu sorriso era do tamanho do mundo, que eu, balançando meus pés, brincava com um foguete que tinha ganhado no dia anterior. Eu cantarolava a música do rádio. A canção parecia triste, mas mesmo assim, me deixei envolver.

Das coisas que digo sobre a gente ter coragem,

Às vezes me esqueço, e quando vejo, outro dia clareou,

E eu fiquei aqui,

E eu fiquei aqui.

Aquele dia, que era para ser de pura alegria e descontração, se transformou no pior dia da minha vida. Um caminhão vindo na outra direção bateu em nosso carro, jogando-o em um barranco. Lembro-me do carro descendo aquele barranco, girando tanto, que me deixou enjoada, e eu acabei vomitando. Quando ele finalmente parou, mamãe me chamava desesperadamente. Eu não conseguia falar, algo impedia de a minha voz sair.

Passei as mãos pela cabeça, que sangrava. Comecei então a chorar. Papai não se mexia, e mamãe também chorava.

         Mamãe pediu para ter calma, que me tiraria dali. Eu chorava, minha cabeça doía, papai não se mexia e nem respondia quando mamãe o chamava... Eu queria que ele me pegasse no colo, que me embalasse, como ele costumava fazer sempre, mas o que eu não sabia ainda era que nunca mais ele me embalaria e me confortaria.

O que veio então foi a cena mais horrível que vi na minha vida.

Depois de tanto tempo, eu ainda fechei os olhos é a vi. Mamãe conseguiu se soltar, em seguida me tirou da cadeirinha em que eu estava, me colocou perto de uma árvore e voltou para o carro. Ela chorava e soluçava muito enquanto tentava tirar meu pai de dentro do carro, que estava todo retorcido e de cabeça para baixo. Vi quando ela se levantou, colocou as mãos na cabeça e caiu ajoelhada, pedindo para Deus que aquilo não fosse verdade.

Minha visão começou a ficar embaçada, a respiração ficou difícil, então eu vi, vi um ferro passando por dentro do peito do meu pai e saindo para o outro lado. O sangue era muito.

Comecei a chorar novamente. Eu sabia que ele tinha morrido.

Uma dor imensa foi tomando conta de mim. Mamãe ainda estava ajoelhada, chorando quando o carro explodiu. Um pedaço de ferro passou raspando por ela, e logo as chamas estavam por todo o corpo. Ela gritava, deitada no chão. Tentei levantar, mas além de ela ter me proibido, eu sentia uma dor imensa no corpo. Quando olhei para baixo, eu vi que aquele ferro tinha passado por mim e estava entre minhas costelas.

Em meio ao desespero, o cansaço foi tomando conta de mim, e eu adormeci.

Será que agora chegaria a minha vez? Será que agora eu ficaria com o papai e a mamãe?

É difícil viver as verdades do mundo

Quando o seu coração não se sente à vontade.

É difícil viver as verdades do mundo

Quando o seu coração não se sente à vontade.♪

Essa lembrança sempre era difícil e penosa para mim. Sempre quando Doutor Horácio me forçava a me lembrar, eu ficava dias e dias chorando. Era como se uma depressão profunda se abatesse dentro de mim, no meu coração, e eu me perguntava por que eu não tinha morrido também. Por que Deus havia me deixado viva enquanto eu via minha família toda morrendo? Por que ele me abandonara?

Não me lembro de quanto tempo fiquei ali, dormindo, mas me lembro de uma voz que parecia angustiada. Falava com alguém, mas eu não ouvia o que a outra pessoa dizia. Algum tempo depois, senti alguém mexendo em mim. Abri os olhos, e um belo par de olhos negros me fitava. Ele se chamava.

Sergio era um socorrista. Por mais que ele sorrisse para mim, eu sabia que algo muito errado tinha acontecido. Lembro-me de ter perguntado a ele onde eu estava; lembro-me dele ter perguntado a mim meu nome, e eu não saber responder; lembro-me de não ter sentido minhas pernas e da minha cabeça muito dolorida. Eu chorava e ele tentava me animar, dizendo que tudo iria ficar bem.

Se naquela época eu soubesse o que eu sabia hoje, eu teria gritado com ele e falaria que nada nunca mais ficaria bem.

Sigo os seus passos, invento certezas.

É certo que fracasso algum será capaz de me fazer desistir,

Porque eu não vou me entregar, eu não vou desistir,

E se eu puder fazer por ti o que ninguém jamais fez por mim,

Eu faço,

Eu faço. ♪

Depois disso, o que eu lembro são flash, luzes, vozes, e quando acordei, estava na clínica do Doutor Horácio, um anjo em minha vida, que cuidou e cuida de mim até hoje.

Eu tive queimaduras de primeiro grau no rosto, nas pernas e nos braços. Minhas pernas foram reconstruídas. Demorou muito tempo para que eu pudesse andar, mas isso... isso nem se comparou ao dano que eu tive no cérebro, devido à pancada muito forte. Eu perdi a memória, meu lobo temporal foi seriamente comprometido. Essa é a parte do cérebro que permite que os sons e as imagens sejam interpretados. Ela armazena os eventos sob a forma de memória, evoca os já memorizados e gera as vias emocionais.

Eu não sabia quem eu era, não me lembrava da minha vida e de ninguém que fez parte dela. Depois de muitas operações, eu consegui recuperar a memória do acidente, e aos poucos minhas memórias de quem eu era e do que tinha acontecido comigo voltaram com força total, e eu desejei mais que nunca que elas ficassem para sempre desaparecidas.

Sabem o que é viver assim, perdida num pesadelo sem fim? Sabem quanta dor e angústia eu sentia dentro do meu peito todo santo dia?

Quando eu havia conseguido recuperar boa parte da minha memória, eu tinha me revoltado, eu queria morrer, odiava tudo e todos à minha volta, havia parado de comer, de viver... Eu apenas praguejava o tempo todo.

Sabem como isso é ruim? Uma criança de oito anos se revoltando desse jeito?

É difícil viver as verdades do mundo

Quando o seu coração não se sente à vontade.

É difícil viver as verdades do mundo

Quando o seu coração não se sente à vontade.

Um dia depois de uma crise de depressão, a qual eu tentei me matar, Doutor Horácio decidiu que era melhor me manter sedada por algum tempo, pois achava que me daria tempo para pensar; mas na realidade, me deu tempo para sonhar.

Eu sonhei com a minha mãe e meu pai. Eles estavam zangados com o meu comportamento e pediram para eu parar com isso, que a vida era assim: nós ganhávamos e perdíamos, e que tínhamos que aceitar o desafio proposto para a gente e tentar sempre tirar o melhor das situações que a vida nos impusesse. Eles me abraçaram forte, me beijaram e partiram novamente.

Decidi então mudar. Acho que a chance de ver eles novamente me deu uma nova visão sobre a vida, e desde então, mudei minhas perspectivas e meus sonhos.

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