Nenhum Rio Volta Atrás
Na cidade de Costa das Palmeiras, existe uma tradição de casamento mantida há muitas gerações: o barco da cerimônia precisa atravessar nove eclusas com o noivo ao lado da noiva.
Se o noivo abandonar a embarcação durante o trajeto, perde o direito de herdar a antiga mansão da família.
Rafael Alves, meu noivo, fugiu logo depois de atravessar a primeira eclusa.
Mas Henrique, o irmão mais novo dele, pulou no barco e assumiu o lugar dele, me ajudando a atravessar as outras oito eclusas.
Quando ergui o véu branco, as mãos de Henrique estavam cobertas de sangue, e um sorriso frio apareceu no canto dos lábios dele.
— Não sou o Rafael. Ficou decepcionada, não foi?
Balancei a cabeça, mas ele teve certeza de que eu estava mentindo.
Durante seis anos de casamento, ele dormiu todas as noites na oficina de barcos e nunca entrou no nosso quarto.
Sempre que Rafael voltava, Henrique observava minha reação e dizia com ironia:
— Olha só. A pessoa com quem você queria se casar voltou.
Eu cuidei do pai dele, que estava paralítico, e também mantive de pé aquela oficina de guarda-chuvas artesanais que estava à beira da falência.
Durante todos esses seis anos, nunca procurei Rafael por vontade própria.
Mas, na noite do desfile fluvial do Dia de Nossa Senhora da Navegação, Henrique me empurrou do barco diante de todos.
— Quem deveria estar aqui é minha esposa. Você queria se casar com outra pessoa naquela época. Não tem vergonha de ocupar esse lugar?
Na vida passada, aquela queda no rio deixou sequelas, e passei o resto da vida tentando provar que nunca me arrependi de ter me casado com ele.
Dessa vez, não subi novamente no barco.
Depois que o sino da igreja tocou pela terceira vez, nadei sozinha até a margem.
— Henrique, você conhece as regras de Costa das Palmeiras melhor do que eu. Se alguém cair na água durante o desfile e não voltar para o barco depois que os três toques do sino terminaram, pode encerrar o casamento unilateralmente. A partir de hoje, não somos mais marido e mulher.