Narrativa: Sofia Deluca
Eu deveria me sentir culpada.
Mas não me senti.
Quando recebi a confirmação de que Lisa havia sido sequestrada, a primeira coisa que fiz foi sorrir.
Não foi um sorriso aberto — esses eu aprendi a guardar para eventos sociais, para fotos de família, para jantares em que todos fingem ser perfeitos. Foi um sorriso interno. Silencioso. Aquele que nasce quando algo finalmente começa a se alinhar exatamente como planejado.
Lisa Deluca fora sempre um erro vivo.
Ela não precisava existir para que tudo desse errado. Bastava respirar. Bastava ocupar espaço. Bastava ser… Lisa. A filha perfeita, a lembrança constante de um amor que minha tia nunca conseguiu superar, o nome que Don Marcello pronunciava com devoção quase religiosa.
Ela era fraca. Sempre foi.
Mas, ainda assim, perigosa.
Porque homens não a protegiam por medo.
Protegiam por amor.
E o amor sempre foi o maior inimigo de mulheres como eu.
Passei os dedos pela taça de vinho, observando o líquido girar lentamente.