Mundo ficciónIniciar sesiónO primeiro pensamento que atravessa minha mente é que estou no lugar errado.
Não sei aonde, nem por quê, apenas a sensação de que algo importante está escapando enquanto permaneço imóvel. Meu corpo está pesado, quente demais, envolto por uma estranha sensação de conforto que não deveria existir. Há um som próximo, baixo e ritmado, uma respiração entrecortada, e um magnífico cheiro amadeirado, com uma nota cítrica tão agradável que me pego inspirando mais fundo, como se pudesse guardá-lo dentro de mim. É um aroma que não pertence a nenhum lugar que eu reconheça… mas que, de alguma forma, parece familiar. Ainda de olhos fechados, sinto algo se mover ao meu lado. Dedos longos deslizam com cuidado pela minha bochecha, traçando um caminho lento e quase respeitoso pela minha pele antes de afastarem uma mecha de cabelo para trás da orelha. O gesto é íntimo demais para ser real. E delicado demais para ser um engano. Meu coração falha uma batida. Um arrepio percorre meu corpo inteiro, despertando aquela sensação elétrica que insiste em se espalhar por mim desde o aeroporto. Merda! Acho que eu sei exatamente o que está acontecendo aqui. Antes que eu consiga abrir os olhos ou reunir coragem suficiente para me afastar, escuto a voz grave dele. — Chegamos. Acho que você já pode parar de me usar como travesseiro. Definitivamente não estou sonhando. O constrangimento me atinge de uma vez só, fazendo cada pedaço do meu corpo arderem como chamas. Por Deus! Eu dormir no ombro de um estranho. Meu olhar vagueia por ele, deslizando de cima para baixo como se tivesse vontade própria. Que corpo, penso, com uma dificuldade absurda de desviar. — Eu… — começo, mas travo. As palavras simplesmente desaparecem. O que eu deveria falar mesmo? — Desculpa? “Ah, Louise! Isso não deveria sair como pergunta” Ele ergue uma sobrancelha, claramente se divertindo com o meu desconforto. — Tudo bem — ele responde, despreocupado. — Confesso que foi a parte mais confortável da viagem. Tento recuperar algum resquício de dignidade, tarefa difícil com ele centímetros de mim, ocupando espaço demais para alguém que acabei de conhecer. — Você se diverte com a desgraça alheia? — Só com a sua — ele rebate, piscando. — E olha que nem foi tão ruim assim. — Você é insuportável. — Já ouvi coisa pior de pessoas bem mais interessadas. Abro a boca para retrucar, mas o aviso de para desembarcarmos ecoa novamente, interrompendo qualquer resposta que eu pudesse formular. Talvez seja um sinal divino para eu parar de falar antes que me enterre de vez. Seguimos pelo corredor sem dizer nada. Enquanto isso, vou repetindo mentalmente que não devo me preocupar com a vergonha. Cada um vai para seu canto e eu poderei esquecer isso para sempre. Mas, claro, o destino adora rir da minha cara. Assim que alcançamos o saguão do aeroporto, paro abruptamente quando o vejo acenando com entusiasmo para o motorista segurando uma placa com dois nomes. Os nossos nomes. — Mil vezes merda. Ao menos agora sei como ele se chama. — Bom… — ele começa, claramente se divertindo. — Parece uma ótima oportunidade para nos conhecermos. Ergo as mãos para o céu. — Isso só pode ser brincadeira. — Parece uma brincadeira bem agradável para mim. Respiro fundo, derrotada, e sigo em direção ao carro. Há barulho suficiente na cidade para que o silêncio entre nós seja reconfortante. Por alguns minutos, quase acredito que ficaremos assim até o hotel. Quase. — Acho que podemos nos apresentar oficialmente. — Ele diz, quebrando o silêncio — Meu nome é Cristian. Mas, como você já me usou como travesseiro e babou na minha camisa, pode me chamar de Cris. — Eu não babei em você — retruco imediatamente. Ele ri, e as covinhas surgem. Minhas pernas quase cedem. Que tipo de pessoa reage assim a covinhas? — Claro que não — ele continua. — Mas você murmurou algo sobre eu ser gostoso. Meu estômago despenca. — Eu… o quê? Ele dá de ombros se divertindo. — Dorme falando? Engulo em seco. Infelizmente, durmo. — Louise. Meu nome é Louise. — Digo antes de sumir com tanto constrangimento. Engulo em seco. Infelizmente, durmo. — Antes que você fique ainda mais constrangida — digo, cruzando os braços —, meu nome é Louise. — Louise… — ele repete, mais devagar do que o necessário. — Coincidência. — Quê? — Bonito nome eu disse. Não respondo. Não confio em mim para isso. O carro para diante do hotel, e a visão do edifício me arranca um suspiro involuntário. Por alguns segundos, esqueço completamente de Cristian, do avião, do constrangimento. Roma tem esse efeito. E, naquele instante, sem que eu ainda soubesse, aquela cidade — e aquele homem — estavam prestes a bagunçar tudo o que eu achava que sabia sobre mim mesma.






