Capitulo 3- Louise

O primeiro pensamento que atravessa minha mente é que estou no lugar errado.

Não sei aonde, nem por quê, apenas tenho a estranha sensação de que algo importante está escapando enquanto permaneço imóvel. Meu corpo está pesado, quente demais, envolto por uma sensação de conforto tão profunda que chega a ser inquietante. Não deveria me sentir assim. Não deveria me sentir em casa num lugar que não conheço, ou ao lado de alguém que é um completo desconhecido.

Há um som próximo, baixo e ritmado, como uma batida de coração forte e constante, ou talvez uma respiração calma e controlada. Junto com isso, um magnífico cheiro amadeirado, com uma nota cítrica tão agradável que me pego inspirando mais fundo, involuntariamente, como se tentasse guardar aquele aroma dentro de mim. É um cheiro que não pertence a nenhum lugar que eu reconheça, não é o perfume do meu pai, nem de nenhum homem que já conheci. Mas, de alguma forma, parece familiar. Parece certo.

Ainda de olhos fechados, sinto algo se mover ao meu lado.

Dedos longos e ágeis deslizam com cuidado pela minha bochecha, traçando um caminho lento, quase reverente, pela minha pele antes de afastarem uma mecha teimosa de cabelo para trás da orelha. O gesto é íntimo demais para ser real. É delicado demais para ser um engano.

Meu coração falha uma batida.

Um arrepio percorre meu corpo inteiro, despertando aquela sensação elétrica, aquela faísca que insiste em se espalhar por mim desde o momento em que esbarramos no aeroporto.

Merda! Acho que eu sei exatamente o que está acontecendo aqui.

Antes que eu consiga abrir os olhos ou reunir coragem suficiente para me afastar, escuto a voz grave dele, baixa e perto do meu ouvido.

— Chegamos. Acho que você já pode parar de me usar como travesseiro.

Definitivamente não estou sonhando.

O constrangimento me atinge de uma vez só, como um balde de água fria misturado com fogo, fazendo cada pedaço do meu corpo arder como chamas. Sinto o calor subir pelo meu pescoço, tingir minhas bochechas, e por um momento desejo que o chão se abra e me engula completamente.

Por Deus! Eu dormi no ombro de um estranho. Não só dormi, como parecia estar extremamente confortável fazendo isso.

Abro os olhos de supetão, encontrando os dele já fixos em mim. Meu olhar vagueia por seu rosto, deslizando de cima para baixo como se tivesse vontade própria, analisando cada detalhe que a ansiedade e a escuridão não me permitiram ver antes. Os cílios são escuros e longos, a mandíbula é marcada, e a boca... bem, a boca dele é perfeitamente desenhada, com um lábio inferior mais volumoso que o superior, e muito convidativo. E que corpo, penso, com uma dificuldade absurda de desviar o olhar. Ele parece preencher todo o espaço ao meu redor, dominando o ambiente apenas com a sua presença.

— Eu… — começo, mas travo. As palavras simplesmente desaparecem. O que eu deveria falar mesmo? — Desculpa?

“Ah, Louise! Isso não deveria sair como uma pergunta”, penso imediatamente, me repreendendo mentalmente.

Ele ergue uma sobrancelha, o canto dos lábios se curva  num sorriso maravilhoso, claramente se divertindo com o meu desespero silencioso.

— Tudo bem — ele responde, num tom despreocupado que só me irrita mais. — Confesso que foi a parte mais confortável da viagem. Você é muito...

— Eu não sou nada. — rebato, sem pensar, e logo percebo o erro. Meu Deus, como consigo piorar tudo? — Quis dizer... não foi nada.

Tento recuperar algum resquício de dignidade, uma tarefa quase impossível com ele a centímetros de mim, ocupando espaço demais para alguém que acabei de conhecer. O ar parece ficar mais fino, mais difícil de respirar quando ele me olha assim.

— Você se diverte com a desgraça alheia? — pergunto, cruzando os braços numa tentativa falha de me proteger.

— Só com a sua — ele rebate, piscando de maneira provocativa. — E olha que nem foi tão ruim assim. Eu até que gostei.

— Você é insuportável.

— Já ouvi coisa pior de pessoas bem mais interessadas.

Abro a boca para retrucar, para dizer algo que o deixe sem graça pela metade, mas o aviso automático do avião pedindo para desembarcamos  ecoa novamente, interrompendo qualquer resposta que eu pudesse formular. Talvez seja um sinal divino para eu parar de falar antes que me enterre de vez.

Seguimos pelo corredor sem dizer nada.

Enquanto caminhamos, vou repetindo mentalmente como um mantra que não devo me preocupar com a vergonha. É normal dormir em viagens longas. É normal esbarrar em pessoas. Daqui a pouco cada um vai para o seu canto, cada um para os seus próprios mundos em Roma, e eu poderei esquecer isso para sempre. Vou apagar a vergonha e aproveitar minha liberdade.

Mas, claro, o destino adora rir da minha cara.

Assim que alcançamos o saguão de desembarque, cheio de gente, placas e barulho, paro abruptamente quando o vejo acenando com entusiasmo para um homem de terno que segura uma placa branca bem no meio da multidão.

Meu sangue esfria quando leio os nossos nomes.

— Mil vezes merda! — sussurro, ou talvez grite, não sei dizer. O mundo parece ter parado de girar por um segundo.

Ao menos agora sei como ele se chama. Christopher.

O nome ecoa na minha cabeça como um trovão.

— Bom… — ele começa, parando ao meu lado com as mãos nos bolsos. — Parece uma ótima oportunidade para nos conhecermos melhor, não acha, Louise?

Ergo as mãos para o céu, sentindo uma dor de cabeça se formando bem na testa.

— Isso só pode ser brincadeira. Uma pegadinha. Alguém está filmando?

— Parece uma brincadeira bem agradável para mim.

Respiro fundo, sentindo o ar faltar nos pulmões, derrotada. Não há nada que eu possa fazer agora. O motorista já está vindo em nossa direção. Não posso simplesmente sair correndo no meio do aeroporto, por mais que seja a minha vontade número um no momento. Então, sigo em direção ao carro em silêncio, com ele andando ao meu lado, ocupando todo o meu campo de visão.

O carro é enorme, preto e luxuoso, daqueles que isolam completamente o mundo exterior. Entro no banco de trás, me afastando o máximo possível para a porta, mas mesmo assim parece que ele está perto demais.

Há barulho suficiente na cidade, o trânsito caótico de Roma, as buzinas, as vozes, para que o silêncio entre nós não seja desconfortável. É um silêncio estranho, carregado de tensão e curiosidade.

Por alguns minutos, quase acredito que ficaremos assim até o hotel.

Quase.

— Acho que podemos nos apresentar oficialmente agora. — Ele diz, quebrando o silêncio de uma vez só, virando o corpo na direção do meu. — Meu nome é Christopher. Mas, como você já me usou como travesseiro e babou em mim... bem, vamos dizer que criamos certa intimidade, pode me chamar de Cris.

— Eu não babei em você — retruco imediatamente, sentindo as bochechas pegando fogo novamente.

Ele ri, uma risada gostosa e despreocupada, e as covinhas aparecem novamente, marcando suas bochechas.

Minhas pernas quase cedem mesmo estando eu sentada.

Que tipo de pessoa reage assim a covinhas? Louise, se controle!

— Claro que não — ele continua, inclinando a cabeça, os olhos brilhando de malícia. — Mas você murmurou algo sobre eu ser gostoso. Achei até que era um elogio, mas talvez estivesse sonhando com outra pessoa.

Meu estômago despenca, caindo lá no chão, talvez até atravessando o assoalho do carro.

— Eu… o quê? — minha voz sai falha.

Ele dá de ombros, num gesto perfeito, se divertindo cada vez mais com a minha situação.

— Dorme falando?

Engulo em seco. Infelizmente, durmo.

Sempre falei besteira quando dormia, mas nunca pensei que fosse admitir que achei alguém gostoso na frente da própria pessoa!

— Louise. Meu nome é Louise. — Digo de uma vez só, na tentativa desesperada de mudar de assunto antes que eu suma de vez com tanto constrangimento.

— Louise… — ele repete, arrastando as sílabas, mais devagar do que o necessário, como se estivesse provando o nome na boca. O som do meu nome saindo da voz dele me causa outro arrepio. — Coincidência.

— Quê? — franzo o cenho, confusa. — Que coincidência?

— Bonito nome, eu disse. — Ele sorri, e dessa vez o sorriso parece menos provocativo e mais... genuíno.

Não respondo. Fecho a boca com força. Não confio em mim mesma para dizer nada sem gaguejar ou dizer alguma idiotice.

O carro segue por ruas estreitas e cheias de história, até que finalmente para diante de um edifício imponente, clássico e absolutamente deslumbrante. A visão do hotel me arranca um suspiro involuntário. Por alguns segundos, esqueço completamente de Christopher, do avião, do constrangimento, do testamento e do casamento.

E, naquele instante, enquanto descia do carro e sentia o vento italiano tocar meu rosto, sem que eu ainda soubesse exatamente o porquê, eu senti no fundo da minha alma que aquela cidade — e aquele homem de olhos intensos e sorriso perigoso — estavam prestes a bagunçar tudo o que eu achava que sabia sobre mim mesma.

E eu não fazia ideia de quanto.

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