Capítulo 10

Renata

Descemos as escadas do prédio com cuidado eu por causa da sandália nova, Ana porque estava segurando a barra do vestido azul para não tropeçar.

O ar da manhã tinha cheiro de nervoso, como se até o vento soubesse que aquele dia não era qualquer dia.

Ana apertou o alarme do carro, abriu a porta do motorista e sorriu:

— Entra, princesa jambo. Agora é comigo.

Eu ri, mas a mão tremia um pouco quando fechei a porta.

O caminho até o local do casamento pareceu curto. Talvez porque eu estava tentando controlar a respiração o tempo todo. Talvez porque o vestido me abraçava como coragem.

Quando viramos a esquina da igreja, Ana soltou um assovio.

— É agora, Rê. Sem medo. Você nasceu pra esse momento.

Ela estacionou e me olhou séria, firme, como se fosse meu escudo azul mesmo.

— Vamos entrar como duas rainhas. E ninguém toca na sua paz, ouviu?

Assenti.

Respirei fundo.

Saímos do carro.

As pessoas já estavam entrando apressadas. O casamento estava quase começando dava pra ouvir a música suave ecoando lá dentro.

Ana enlaçou meu braço.

— Vai dar tudo certo. E, se não der… eu faço dar. disse ela, rindo.

Entramos.

Assim que passamos pela porta, um silêncio estranho aconteceu.

Não total… mas um silêncio que corta. Um silêncio de surpresa.

Pessoas viraram o rosto. Outras arregalaram os olhos. Houve até quem cutucasse o acompanhante.

E eu ali, parada, com o vestido dourado refletindo a luz da igreja inteira, tentando fingir que estava imune.

Ana murmurou baixinho:

— Olha isso… estão todos te engolindo com os olhos.

E era verdade.

O vestido champagne parecia acender sob os vitrais coloridos. A sandália me deixava mais alta, mais firme. A maquiagem… perfeita.

Por um segundo, eu me senti poderosa.

Mas então encontrei o olhar dela.

Minha madrasta me encarava do corredor do meio com a típica expressão de superioridade.

Lábios apertados. Sobrancelha arqueada.

Aquela cara de quem vê algo desagradável… como se a minha presença fosse um incômodo que ela não conseguiu evitar.

Ela me avaliou dos pés à cabeça com desdém, como se tentasse encontrar defeitos… e não achasse.

Ana mexeu os ombros e sussurrou:

— Se esse olhar dela fosse faca, já tinha te cortado. Credo.

Eu quase ri, mas me segurei.

Continuamos caminhando até o fundo, onde havia alguns bancos vazios. Sentamos.

E foi aí que aconteceu.

Ricardo estava no altar, em pé ao lado do celebrante, ajeitando a gravata como sempre fazia quando ficava ansioso.

Ele virou instintivamente para olhar o movimento no fundo da igreja…

E congelou.

Os olhos dele se arregalaram.

A boca dele abriu um pouco.

Ele piscou como se não acreditasse.

Era como se o mundo tivesse desaparecido e só tivesse sobrado eu ali, no fundo da igreja, com aquele vestido que parecia ter sido feito para me vingar sem precisar levantar a voz.

Ana murmurou, com deboche delicioso:

— Pronto. Agora sim valeu cada centavo. Olha a cara do idiota.

Ricardo continuava me olhando, completamente idiota mesmo, como se tivesse levado um tapa invisível.

De repente, a marcha nupcial começou a tocar e todos se levantaram. Minha meia-irmã entrou na igreja segurando o braço do meu pai. Ele me viu lá atrás e fez aquela cara… como se eu estivesse fazendo algo errado. Como se não tivesse sido ele quem me obrigou a vir.

Patrícia, quando me viu, travou por um segundo. O ódio no olhar dela praticamente atravessou o corredor inteiro. Ela olhou para o meu vestido como se eu tivesse ousado demais apenas existindo ali. Depois ergueu o queixo, forçando um sorriso artificial, e continuou caminhando até o altar, onde o Ricardo estava… completamente pasmo me encarando.

O casamento seguiu, a música enchendo a igreja, mas antes que minha mente voltasse para o momento, dois homens incrivelmente lindos entraram e se sentaram bem perto de mim e da Ana Júlia. Eles acenaram discretamente, sorriram e desejaram boa noite, educados, confiantes… diferentes de tudo ali dentro.

Um deles, em especial, tirou meu ar.

Os olhos azuis mais lindos que eu já tinha visto na vida. Um azul claro, quase cristalino, que parecia enxergar fundo fundo demais. Ele era muito alto, daqueles que chamam atenção sem esforço. O cabelo caía um pouco sobre os olhos, daquele jeito charmoso que parece que ele acabou de passar a mão e deixou assim mesmo, só que perfeito. E o perfume… Deus. Que cheiro delicioso. Forte na medida certa, elegante, mais viciante que qualquer lembrança boa que eu tentei guardar daquele lugar.

Por um instante, esqueci completamente onde estava.

E ele ainda sorriu. Aquele sorriso meio torto, meio tímido… mas que dizia muito mais do que qualquer palavra poderia dizer naquele momento.

Ana Júlia me cutucou de leve, segurando a risada.

— Pelo amor de Deus, amiga… seja mais discreta, — sussurrou, rindo baixinho enquanto eu tentava desviar o olhar daquele homem sem sucesso.

Eu revirei os olhos, mas estava rindo também. Era impossível não rir. Eu realmente devia estar encarando demais.

O casamento continuou, a música suave preenchendo a igreja enquanto todos observavam a Patrícia caminhar até o altar com aquele sorriso calculado. E, por um momento, o peso da realidade caiu sobre mim.

Se eu não tivesse descoberto a traição… seria eu.

Eu estaria naquele vestido branco.

Eu estaria segurando o braço do meu pai.

Eu estaria caminhando em direção ao Ricardo.

Aquele pensamento me acertou no peito como um soco.

Pisquei rápido, respirando fundo, tentando afastar o nó que começou a crescer na minha garganta. Não queria deixar ninguém perceber. Não ali.

Ana Júlia segurou minha mão discretamente, como se sentisse.

— Você está bem? ela perguntou baixinho.

Eu forcei um sorriso.

— Tô sim. Só… pensando.

Mas a verdade é que, olhando para o altar, vendo o Ricardo fingindo uma felicidade que eu sabia que não existia, eu senti um estranho alívio misturado com uma pontada de tristeza. Não por ele.

Mas por quem eu fui antes de saber a verdade.

Uma lágrima escapou antes que eu conseguisse impedir. Desceu quente pelo meu rosto, silenciosa, traindo tudo o que eu tentava esconder. Eu rapidamente levei a mão para limpar… mas, antes que conseguisse, algo entrou no meu campo de visão.

Um lenço.

Olhei para o lado e era ele o rapaz de olhos azuis.

Ele estava me oferecendo o lenço com uma expressão suave, sincera… como se tivesse percebido minha dor mesmo sem me conhecer.

Nossos olhares se encontraram e, por um instante, o mundo dentro da igreja pareceu ficar em silêncio.

Quando estendi a mão para pegar o lenço, nossos dedos se tocaram.

Foi rápido, quase nada… mas suficiente.

Uma sensação elétrica, quente, inesperada, percorreu meu corpo inteiro. Meu coração disparou, e eu prendi a respiração como se tivesse sido pega fazendo algo proibido.

Ele percebeu.

O canto da boca dele se ergueu num sorriso quase imperceptível mas lindo, perigoso, encantador. Como se aquele toque tivesse atingido ele também.

— Obrigado… murmurei, sem confiar totalmente na minha voz.

— Disponha ele respondeu baixinho, com aquela voz grave que parecia envolver o ar ao redor.

E continuou me olhando como se quisesse decifrar tudo o que eu estava sentindo.

Eu desviei o olhar apenas para não derreter ali mesmo.

Ana Júlia me encarou com os olhos arregalados, segurando outra risada.

— Meu Deus… sussurrou. Isso aqui virou filme e eu não fui avisada.

Eu só consegui apertar o lenço entre os dedos, tentando controlar a respiração.

E lá na frente, no altar, o meu ex-noivo continuava me olhando sem ter ideia de que, naquele instante, meu coração tinha batido por outra pessoa pela primeira vez depois de tudo.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App