Mundo de ficçãoIniciar sessãoRafael
— Você vai comigo. A voz do Antony ecoou pelo corredor do hospital, carregada de autoridade como sempre. Eu estava terminando de preencher um prontuário quando ergui os olhos, desconfiado. — Ir com você aonde, exatamente? Antony cruzou os braços. — No casamento dos nossos novos sócios. Os investidores daquele projeto enorme da maternidade. Gente importante, influente… dá para ignorar? Eu respirei fundo, já sabendo que não tinha como escapar. — Casamento, Antony… casamento é chato demais. Você sabe disso. Ele riu. — Chato ou não, vai ter que ir. Não vou aparecer sozinho lá, vão achar que eu vivo trancado no hospital. Bateu no meu ombro como quem fecha um contrato. — E outra: é sábado agora. Nada de desculpinhas. Fechei os olhos por dois segundos, aceitando meu destino. — Tá bom, tá bom. Eu vou. Mas só porque você é meu chefe e amigo. — E porque eu sou convincente ele completou, satisfeito. Te pego às cinco e meia. Terno escuro. Sem reclamar. Revirei os olhos, mas não respondi. Casamento… quem em sã consciência perderia um sábado à noite para ver duas pessoas que você nem conhece trocando votos? Sábado chegou rápido demais. No carro, Antony estava animado, falando sobre os acordos, os projetos, sobre como seria bom reforçar a imagem do hospital com gente importante. Eu só ouvia pela metade. Eu já estava resignado a passar por mais um casamento desses cheios de gente influente, fotógrafos e discursos longos quando Antony, todo empolgado, me empurrou até os bancos do fundo. A noiva já estava entrando. Não queriam chamar atenção chegando atrasados, então seguimos pelo corredor lateral até acharmos dois lugares vagos. E foi aí que eu a vi. Ela estava sentada ao lado de uma amiga. Vestido champagne, com um brilho dourado tão sutil que parecia feito para a pele dela. O tecido caía com elegância, nada exagerado. O rosto… bonito de um jeito que prende. Mas era o olhar que me desarmou. Um olhar profundo, triste… e, ao mesmo tempo, forte. Quando passamos, ela levantou os olhos por um segundo e eu senti um impacto estranho, como se alguém tivesse me atingido no peito sem aviso. — Aqui Antony cochichou, apontando exatamente para o lugar ao lado delas. Sentei. Ela ficou a menos de um palmo de distância. E o perfume… suave, quente, doce. Chegou primeiro que o resto. A amiga dela deu um aceno simpático, e eu retribuí. Mas minha atenção estava presa na mulher de vestido champagne, que agora respirava fundo, como se tentasse se recompor. A marcha nupcial ecoou. A noiva foi levada pelo pai até o altar. E, nesse momento, a garota ao meu lado desviou o olhar… e uma lágrima caiu. Não era drama. Era dor. Dava para sentir. Meu peito apertou antes que eu conseguisse pensar. Meti a mão no bolso do terno e tirei o lenço. — Ei… murmurei baixinho, estendendo para ela. Ela virou o rosto, surpresa. E quando nossos dedos se tocaram… Foi como se o mundo tivesse parado. Um choque suave, quente, que subiu pela minha mão e atingiu direto meu peito. Ela sentiu também eu vi nos olhos dela. As pupilas dilataram. Ela prendeu o ar. E eu… eu sorri. Não consegui evitar. — Pode ficar falei baixo, quase sem voz, porque minha garganta tinha secado de repente. Ela agradeceu de um jeito tímido, tocando o lenço como se fosse frágil. E eu fiquei ali, tentando entender o que diabos tinha acabado de acontecer comigo. Porque um toque não devia mudar nada. Mas aquele toque… Aquela mulher… Tinha alguma coisa nela que me fazia querer olhar de novo. E de novo. E de novo. O restante da cerimônia continuou, mas eu não conseguia deixar de olhar para ela de relance, sempre com cuidado, tentando não parecer óbvio demais. Ela encarava o altar com uma mistura de nostalgia e dor. Algo ali machucava. E então chegou a hora das alianças. O padre falou os votos tradicionais, aquele texto decorado que todo mundo já sabe de cor. E o noivo o tal Ricardo apenas repetiu, palavra por palavra, sem emoção nenhuma. Parecia entediado. Como se estivesse assinando um contrato. A noiva fez o mesmo. Nada pessoal, nada íntimo, nada que parecesse vir do coração. Eu vi a mulher de vestido champagne engolir seco. Vi seus dedos apertarem um no outro. E aí tudo fez sentido quando escutei o sussurro baixinho da amiga dela: — Ele nem é capaz de fazer votos próprios… típico do Ricardo… Ricardo. O nome me atingiu como um estalo. Olhei para o altar. Olhei para ele. Olhei de volta para ela. E foi só então que percebi o jeito como ele encarou a mulher ao meu lado quando ela entrou. Um misto de surpresa… e arrependimento. Meu peito apertou com uma sensação estranha. Não era ciúme. Era indignação por alguém como ele ter machucado alguém como ela. Assim que o padre deu o “Podem beijar a noiva”, as palmas preencheram o salão. Mas uma figura saiu do altar mais rápido que todos: um homem elegante, postura forte, que claramente carregava mais poder que o próprio noivo. Ele veio caminhando pelo corredor lateral, e quando passou pela fileira onde estávamos, eu vi seus olhos encontrarem os dela. — Minha menina… venha aqui. A voz dele ecoou alto demais. Metade do salão virou para olhar. A amiga dela arregalou os olhos. A mulher ao meu lado respirou fundo e se levantou devagar. O homem que depois descobri ser o pai do noivo a puxou para um abraço apertado. Cheio de carinho verdadeiro. — Me desculpe pelo filho idiota que eu tenho, ele disse, sem abaixar o tom de voz. Era para ser você ali no altar. Um burburinho tomou conta do salão. A noiva, lá na frente, queimava de ódio. O Ricardo ficou branco. Visivelmente branco. E eu… Fiquei parado, olhando para ela envolvida naquele abraço cheio de respeito e saudade, tentando entender como alguém tinha deixado escapar uma mulher daquela. Foi ali que tudo se encaixou dentro da minha cabeça: Ela era a ex-noiva do Ricardo. A mulher que ele trocou. A mulher que ele feriu. E a mulher que, por algum motivo que eu ainda não entendia, mexeu comigo com um único toque. Eu a vi voltar para o lugar ao meu lado, tentando disfarçar a emoção nos olhos. Senti vontade de proteger aquela mulher — mesmo sem conhecê-la.






