8 - Isabella

Entrei correndo no quarto e tranquei a porta com duas voltas na chave. Mais uma vez tive a impressão de que a casa inteira podia me ouvir, mesmo eu tentando fazer o menor barulho possível.

Minhas mãos tremiam quando coloquei a bolsa na cadeira. O contrato, ou melhor, o bolo de mais de quarenta folhas e que pesava como uma sentença, o coloquei na escrivaninha. Eu precisava ler. Precisava entender o que tinha assinado. Precisava saber o tamanho da armadilha que tinha aceitado por vinte e cinco milhões.

Eu sabia que era uma armadilha. O vestido de cetim ainda grudava na minha pele. 

As primeiras páginas eram formais: dados, cláusulas de confidencialidade, transferência de valor. Mas quanto mais eu lia, mais meu estômago embrulhava. As palavras “direito de posse”, “exclusividade física e emocional”, “proibições de contato com terceiros sem autorização prévia” estavam ali quando passei o olho. 

Eu era o objeto. Ele, o dono. Eu tentava me convencer que era só papel. O dinheiro já estava na conta. Eu ainda podia sumir. Mas o medo crescia. 

“E se Alessandro fosse pior que o meu pai? E se o contrato fosse uma coleira invisível?”

Um barulho na casa inteira me fez congelar. 

A porta da frente bateu com força. Algum vidro se quebrou no corredor. Xingamentos altos ecoaram pelas paredes, a voz grossa do meu pai:

— Filha da puta! Incompetente! Como ousa me passar a perna assim?

Carlos. Chegando cedo. Muito cedo.

Senti o sangue gelar. Lembrei da roupa que eu ainda estava usando: o vestido de cetim preto, justo, brilhante. Meu pai nunca me via assim dentro de casa. Ele odiava “excesso”. Se ele entrasse e me visse vestida para sair… Se visse a bolsa…

Levantei rápido. Tirei o vestido em segundos e joguei no closet. Vesti um moletom cinza largo e uma calça de pijama velha, a roupa que eu usava para estudar. Passei os dedos no cabelo para bagunçá-lo um pouco, como se tivesse passado o dia inteiro ali.

Abri alguns livros na mesa: inglês, desenho técnico, um romance qualquer. Espalhei lápis e caderno para parecer ocupada.

Mas a bolsa ainda estava na cadeira, exposta. O celular dentro dela. O contrato em cima da mesa.

Batidas fortes na porta. Esmurradas. A madeira tremia. Eu travei. Só existia medo.

— Isabella! Abre essa porra de porta agora!

Não respondi. Em vez disso, peguei a bolsa depressa, sentei em cima dela na cadeira da escrivaninha, o peso do meu corpo pressionando o couro contra a madeira. Meu coração disparado.

Se ele entrasse e visse a bolsa ali, saberia que algo estava errado. Eu nunca estaria com uma bolsa dentro do quarto assim, ainda mais uma pequena que uso para sair.

Com o coração batendo forte, empurrei o contrato para baixo da cama. Minha sorte era que os lençóis e a colcha iam até o chão.

A fechadura rangeu. Ele tinha a chave reserva. A porta se abriu com violência. Meu pai entrou, os olhos injetados, o rosto vermelho de raiva e álcool. Parou na entrada, me encarando.

Mantive os olhos fixos no livro aberto à minha frente, fingindo ler, mas sentindo o peso do olhar dele como uma lâmina. 

O celular vibrou debaixo de mim. Insistente. Uma, duas, três vezes. Alessandro, só podia ser ele. Apertei as coxas com mais força contra a bolsa, tentando abafar, mas o tremor continuava teimoso.

Carlos deu um passo para dentro. Olhou ao redor: a cama desarrumada, os livros espalhados, o closet entreaberto.

Por um momento, tive certeza de que ele entraria de vez, reviraria tudo, abriria gavetas, levantaria o colchão. Meu estômago se contraiu tanto que doeu.

Mas ele parou. Respirou fundo, como se tentasse se controlar. Passou a mão no rosto e murmurou algo incompreensível. A raiva ainda estava lá.

— Inútil… igual à mãe — rosnou baixo, mais para si mesmo.

Deu meia-volta. Bateu a porta com tanta força que o quadro na parede tremeu.

Fiquei imóvel por longos segundos, ouvindo os passos dele se afastarem pelo corredor, a porta do escritório batendo em seguida, o som da garrafa sendo jogada na parede.

Só então me movi. Levantei devagar, as pernas moles. Peguei a bolsa, abri o travesseiro da cama e enfiei tudo lá dentro — o celular ainda vibrava loucamente. 

Ótimo. Nessa noite seriam dois homens ridículos para lidar.

Minha respiração estava descompassada, o peito subindo e descendo rápido demais. Eu achava que ele tinha descoberto.

“Mas como poderia? Será que viu algo no meu rosto? E se tivesse sentido o cheiro do perfume caro do Alessandro que ainda pairava na minha pele?”

Não toquei no celular nem no contrato pelo resto do dia. Fiquei alerta, ouvidos atentos a qualquer barulho na casa. Medo de tudo: do meu pai, de Alessandro, de mim mesma.

Na hora da janta, meu pai estava irredutível. Ele me pegou pelo braço deixando marcas. Não falava qual era o problema. Só gritava e xingava a torto e a direito.A raiva em mim crescia.

De noite, sem trancar a porta dessa vez, guardei a bolsa e peguei o celular que ainda vibrava. Várias mensagens do Alessandro. Hesitante e um tanto chorosa, começei a ler.

“Porque não me responde”, “Chegou bem?”, “Me responda, quando eu mandar”, “Atenda o celular.”, “Você não irá fugir de mim.”, “Acredite, você não pisaria fora de casa sem que eu soubesse ou te pegasse.”, “Me responda”.

Digitei rápido uma resposta curta, que para ele não dizia quase nada:

Ok, tudo bem.”

Ele demorou alguns minutos para responder. Quando veio, foi curto:

“Boa noite.”

Devolvi o boa noite e coloquei o celular de volta ao travesseiro. Eu estava na escuridão que era o medo.

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