7 - Isabella

A manhã passou rápido demais. Como se o tempo tivesse decidido não me dar espaço para pensar. 

Eu quase não dormi naquela noite. O pouco que consegui foi fragmentado, raso, cheio de interrupções. Quando levantei, o peso ainda estava no corpo e no rosto. As olheiras estavam fundas. Roxas.

Fiquei um tempo olhando para o espelho antes de começar. Corretivo. Base. Pó.

Quase meia hora no banheiro, meus movimentos automáticos, repetitivos porém preguiçosos. Eu não tentava ficar bonita. Só… aceitável.

Quando terminei, meu rosto parecia normal.

Quase.

Escolhi o vestido com cuidado. Preto, de cetim. Justo e com um decote em V discreto. Comprimento até acima do joelho. Era o tipo de roupa que meu pai aprovava nos jantares. Talvez por isso eu tenha escolhido. Ainda estava seguindo as regras que já não importavam.

Eu não sabia para onde estava indo. Não sabia exatamente quem ele era, além das fotos.

Só sabia que precisava sair. Antes das 14h.

O medo não era um pensamento. Era físico. Subia pelos braços, apertava o peito, deixava minha respiração mais curta, que eu tentava engolir.

Coloquei os saltos na bolsa. Desci descalça para não fazer barulho. Cada passo era calculado no piso frio, evitando qualquer som desnecessário. Mesmo sabendo que meu pai não estava.

Passei pela sala sem parar. Não olhei para nada. Não toquei em nada. Abri a porta com cuidado, controlando até o som da fechadura.

Meu coração batia forte demais. Dava para sentir nas costelas. 

Eu só precisava que nada desse errado. Que ninguém olhasse pela janela. Que nenhum funcionário aparecesse. Que o segurança não resolvesse fazer uma ronda naquele exato momento.

Que Alessandro não fosse pior.

Às 13:45, um carro parou no portão. Eu não sabia o modelo. Nunca me importei com isso. Mas dava para ver que não era comum. Vidros escuros. Exalava proteção, o que dificultava minha fuga caso fosse necessário.

Meu estômago revirou. Respirei fundo antes de me aproximar, abrir a porta traseira e entrar.

O cheiro veio primeiro. Couro novo. Um perfume masculino discreto. E algo mais denso, tabaco. O banco de trás estava vazio. O motorista não virou o rosto.

— Boa tarde, senhorita. Iremos direto para o restaurante.

Assenti somente com um aceno de cabeça. Minha voz não saiu. O carro começou a se mover quase sem som.

Fiquei com as mãos no colo, olhando para o vidro escuro. Não dava para ver direito o lado de fora. Só formas, movimento.

Eu estava sozinha. Não sabia se era melhor assim. Ou pior. O medo vinha em ondas agora. O pensamento voltou, inevitável:

Vinte e cinco milhões. Eu precisava ser forte por isso. 

O carro parou em frente a um restaurante japonês. Discreto, mas caro. A entrada organizada e um tipo de silêncio controlado.

O motorista abriu a porta e outro homem já esperava. Ele estava de terno e com a mesma postura. 

Fui conduzida até o fundo, onde uma mesa estava separada por um biombo de madeira e vidro fosco. A luz estava baixa. O cheiro de shoyu e wasabi pairava no ar, misturado com algo quente e limpo.

E ele estava lá. Sentado. Esperando.

Alessandro Rossi.

Terno cinza escuro, impecável. Gravata preta. Meu coração queria pular pela boca a essa altura. Mas não era isso que prendia. As tatuagens no pescoço, subindo, eram visíveis e faziam minha mente vagar sobre quem seria ele. 

As mãos estavam cheias de anéis de ouro e marcas que não combinavam com a elegância calculada. 

Engoli em seco com o olhar. Era direto, fixo. Como se já soubesse exatamente o que estava vendo. Como se fosse a presa que acabara de encurralar.

Ele se levantou quando eu me aproximei mais. Arrumou o terno com um gesto simples, automático. Engoli em seco, a boca já havia secado há algum tempo. 

A mão dele tocou minha cintura. Minha respiração parou. 

— Boa tarde, Isabella. — A voz era baixa, firme. — Sente-se.

Eu obedeci, automaticamente. Ele percebeu. Claro que percebeu. O leve movimento no canto da boca entregou.

— Achei que você fosse recuar — disse, quase leve. — Parecia o tipo de garota mimada que faz algo impulsivo e depois se arrepende.

A pausa foi curta.

— Mas aqui está.

Olhei para baixo.

— E agora eu vejo que o dinheiro foi bem gasto.

Não respondi. Ele não esperava resposta, pelo menos eu achava isso.

Ele chamou o garçom sem me olhar. Pediu tudo. Sem me consultar. Eu só percebi depois, tudo seguia como ele queria. Levantei o olhar, em desafio. 

Ele já estava me observando, mas não desviei.

— Você não é difícil de ler — disse, simples. 

O frio percorreu minha espinha devagar. Ele já me conhecia. Não sabia como mas ele me conhecia.

O pedido chegou. 

Ele pegou o hashi com precisão, os movimentos eram controlados e elegantes. As tatuagens nas mãos se moviam junto, contrastando com o gesto refinado.

Ele colocou uma peça no meu prato. Minha favorita. Niguiri de salmão. Eu comi. Sem pensar. E o prazer de comer tinha me tomado.

Outra peça apareceu no meu prato. Outro gesto, como se aquilo fosse natural. Como se já existisse um acordo silencioso ali.

— Coma — ele disse, baixo.

Não tinha cuidado ali. Era controle. E quando terminamos, o silêncio voltou. 

Então ele colocou o contrato na mesa. Um volume pesado de papéis, bem mais do que julgaria necessário.

— Leia depois. — disse. — Assine agora ou devolva o dinheiro.

Olhei para as folhas. Minhas mãos hesitaram. Por um segundo, pensei no meu pai, depois no dinheiro, na única chance que eu tinha.

Peguei a caneta. Era pesada. As minhas mãos tremiam, mas não parei. Assinei.

Empurrei de volta a pilha de papel. Ele recolheu, satisfeito.

— Boa garota. O dinheiro já está na sua conta. Eu conferi.

Claro que tinha conferido.

— E agora…

Ele fez uma pausa curta.

O olhar fixo em mim.

— Você já pode se considerar minha.

Não senti surpresa. Mas internamente eu tremia 

— Em dois dias, eu volto para te buscar.

Dessa vez, não parecia um convite. Era uma certeza.

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