Mundo de ficçãoIniciar sessãoNo dia seguinte, Carlos não foi trabalhar. Ficou em casa o dia inteiro, andando de um lado para o outro, falando sozinho, atendendo ligações aos berros.
Mal saí do quarto, só para comer. Eu tinha medo de me encontrar com ele pela casa. Cada vez que ouvia os passos dele no corredor, meu coração subia à garganta.
Tinha certeza de que ele sabia. De que, de alguma forma, tinha descoberto o dinheiro, o contrato, o acordo. Mas ele não falava.
O segundo dia foi pior que o primeiro. A casa parecia um campo minado. Vidros estilhaçados, móveis arrastados com violência. Os gritos ecoavam pelos corredores.
Fiquei trancada no quarto, encostada na porta, ouvindo cada estrondo.
A mala já estava pronta há algumas horas: escondida no fundo do closet. Dentro dela, roupas básicas, alguns documentos. Só esperando Alessandro chamar.
Cada barulho me fazia pular. O coração acelerava tanto que doía o peito.
Eu me sentava na cama, depois me levantava, depois voltava a me sentar. Olhava para o closet como se a mala pudesse sair sozinha e dizer “vamos”.
Se ele entrasse no quarto de novo… se visse a mala… se percebesse que eu estava planejando alguma coisa…
Ao meio-dia, o barulho diminuiu por alguns minutos. Desci devagar, pés descalços no piso frio, tentando não fazer ruído.
Fui até a cozinha pegar água. Encontrei a salada que a empregada tinha deixado na geladeira. As folhas estavam murchas, o tomate cortado, um fio de azeite. Sentei-me à mesa da sala de jantar, sozinha, garfo na mão, mas sem apetite.
Foi quando ele apareceu. Entrou pela porta que dava para o corredor, camisa aberta, olhos vermelhos, barba por fazer. Parou na entrada da sala, respirando pesado.
Eu congelei, o garfo ficou suspenso no ar. Ele me encarou por segundos que pareciam horas. Então avançou.
O tapa veio rápido, aberto, com força suficiente para virar meu rosto para o lado. A dor explodiu na bochecha esquerda, quente e ardente. O som ecoou mais alto que qualquer vidro quebrado.
— Vagabunda — ele cuspiu, voz rouca de álcool e ódio. — Bastarda.
As palavras me cortaram mais fundo que a mão dele. Sempre cortavam. Mas dessa vez… dessa vez foi diferente. Porque dessa vez eu tinha feito algo.
Tinha assinado. Tinha recebido dinheiro. Tinha um plano. Eu merecia.
Ele se virou, pegou a garrafa de uísque que estava na mesinha lateral, quase vazia, deu um gole direto no gargalo e saiu cambaleando. A porta bateu. Mais barulho de coisas caindo lá dentro. Depois, silêncio.
Fiquei parada na cadeira, mão na bochecha que latejava. Lágrimas escorriam quentes pelo meu rosto, pingando na salada intocada.
Tentei respirar. Tentei pensar. Tentei entender o que tinha acabado de acontecer. Mas a mente estava em branco. Dor. Humilhação. O eco da palavra “vagabunda” batendo dentro da cabeça.
Minutos se passaram. Cinco. Dez. Eu nem percebi.
Então, sem pensar, sem planejar, sem pegar nada , nem a mala, nem o contrato debaixo do travesseiro, nem o celular que ainda vibrava com mensagens não lidas.
Eu me levantei. Andei até a porta da frente. Abri e saí.
O sol do final de tarde bateu nos meus olhos, cegando por um instante. Fechei a porta atrás de mim com cuidado, quase sem barulho.
Coloquei o capuz do moletom cinza sobre a cabeça, escondi o rosto inchado. Estava de chinelo, calça de pijama, moletom largo.
Nada nos bolsos. Nada nas mãos. Desci a rua.
Nenhum grito atrás de mim. Nenhum “Isabella!” furioso ecoando da varanda como acontecia quando eu era criança e tentava sair para brincar na rua. Ele não tinha percebido. Ou talvez estivesse bêbado demais para perceber.
Ou talvez… talvez simplesmente não se importasse mais.
Eu continuei andando sem rumo, sem destino. As lágrimas não paravam. Mal enxergava o caminho.
O tapa ainda ardia, a pele quente e sensível. O rosto latejava em ritmo com o coração. As pernas tremiam, mas continuavam se movendo. Uma rua arborizada, casas grandes, muros altos. Depois uma avenida mais movimentada. Carros passando. Pessoas andando. Ninguém olhava para mim. Ninguém parava.
Eu estava perdida.
Não sabia para onde ir. Não tinha dinheiro na mão. Não tinha celular para chamar alguém. Não tinha plano B.
Mas pela primeira vez em anos, também não tinha Carlos atrás de mim.







