Meu pai costumava dizer que um sobrenome podia abrir portas.
Mas também podia colocar um alvo nas costas de quem o carregava.
Eu descobri isso muito cedo.
Desde criança, todos me olhavam de um jeito diferente.
Eu não era apenas Tiago.
Eu era o filho de Antônio Ferraz.
O herdeiro de um império que pouca gente conhecia de verdade.
Na escola, eu era apenas mais um aluno.
Mas, quando atravessava os portões da nossa propriedade, tudo mudava.
Homens armados faziam a segurança do lugar.
Carros blindados entravam e saíam a todo instante.
Meu pai passava horas em reuniões.
E, aos poucos, comecei a acompanhá-lo.
Não porque ele me obrigasse.
Mas porque eu queria aprender.
Naquela manhã, ainda antes do sol nascer, ele bateu na porta do meu quarto.
— Já está acordado?
Sentei na cama e olhei o relógio.
Cinco horas.
— Agora estou.
Ele sorriu de lado.
— Vista uma roupa confortável.
— Vamos para onde?
— Trabalhar.
Em menos de quinze minutos, eu já estava pronto.
Entramos na caminhonete e seguimos por uma estrada de terra.
O silêncio dominou boa parte da viagem.
Até que resolvi perguntar:
— O senhor pretende que eu assuma tudo isso um dia?
Meu pai continuou olhando para a estrada.
— Eu pretendo que você esteja preparado caso esse dia chegue.
— E se eu não quiser?
Pela primeira vez, ele sorriu.
— Você está me perguntando ou me provocando?
— Os dois.
— Então escute bem.
Ele reduziu a velocidade.
— Um homem nunca deve carregar um peso porque foi obrigado.
— Então eu posso escolher?
— Pode.
Olhei para ele, surpreso.
— Achei que o senhor fosse dizer que meu destino já estava decidido.
— Destino não existe, Tiago.
— Não?
— Existem escolhas.
Aquelas palavras ficaram na minha cabeça.
Chegamos a um galpão afastado da cidade.
Alguns homens já nos aguardavam.
Assim que meu pai desceu do carro, todos o cumprimentaram com respeito.
— Bom dia, chefe.
— Está tudo pronto?
— Sim.
Entramos.
No centro do galpão havia um homem ajoelhado.
As mãos amarradas.
O rosto machucado.
Meu coração acelerou.
Era a primeira vez que eu via uma cena como aquela tão de perto.
Um dos capangas se aproximou.
— Descobrimos que ele passou informações para outra organização.
Meu pai caminhou lentamente até o homem.
— Qual é o seu nome?
— Marcelo.
— Há quanto tempo trabalha para mim?
— Dez anos.
— E por que me traiu?
O homem começou a chorar.
— Eles pegaram meu filho.
O galpão ficou em silêncio.
— Disseram que o matariam se eu não entregasse informações.
Meu pai permaneceu olhando para ele.
Sem dizer nada.
Alguns segundos depois, um dos homens falou:
— Chefe, não podemos deixar isso barato.
Outro concordou.
— A punição precisa ser um exemplo.
Meu pai levantou a mão, pedindo silêncio.
Voltou a olhar para Marcelo.
— Você mentiu para mim alguma vez antes disso?
— Nunca.
— Você roubou da organização?
— Nunca.
— Você vendeu informações por dinheiro?
— Não.
— Então fez isso para salvar seu filho.
Marcelo abaixou a cabeça.
As lágrimas caíam sem parar.
Meu pai respirou fundo.
Depois olhou para os homens ao redor.
— Soltem-no.
O galpão inteiro ficou em choque.
— Chefe...
— Eu disse para soltá-lo.
Ninguém teve coragem de discutir.
As cordas foram cortadas.
Marcelo caiu de joelhos.
— Obrigado...
— Não me agradeça.
Meu pai o ajudou a levantar.
— Vá cuidar do seu filho.
— Eu nunca mais vou decepcionar o senhor.
— Espero que não.
Marcelo saiu chorando.
Quando ele desapareceu, um dos capangas perguntou:
— O senhor não acha que isso demonstra fraqueza?
Meu pai encarou o homem.
— Fraqueza é matar alguém que já perdeu tudo.
Ninguém respondeu.
Na volta para casa, eu permanecia calado.
Meu pai percebeu.
— Está pensando no que aconteceu?
— Sim.
— O que achou?
Olhei pela janela.
— Achei que o senhor fosse mandar matá-lo.
Ele sorriu discretamente.
— E por que faria isso?
— Porque ele traiu a organização.
Meu pai balançou a cabeça.
— Não.
— Não?
— Ele traiu por desespero.
Fiquei em silêncio.
— Um líder precisa saber a diferença entre um traidor e um pai tentando salvar o filho.
As palavras dele ficaram ecoando na minha mente.
— O senhor nunca sente medo?
Perguntei.
Ele demorou para responder.
— Todos os dias.
Olhei para ele.
— Sério?
— A diferença é que não deixo o medo decidir por mim.
Quando chegamos à propriedade, meu pai foi direto para o escritório.
Antes de entrar, parou ao meu lado.
— Quero lhe mostrar uma coisa.
Ele abriu uma gaveta.
Lá dentro havia uma fotografia antiga.
Nela estavam dois garotos.
Um era meu pai.
O outro era Bernardo.
Os dois sorriam, cobertos de lama, segurando varas de pescar.
— Essa foto foi tirada quando tínhamos doze anos.
Peguei a fotografia.
— Vocês eram muito amigos.
— Ainda somos.
Meu pai sorriu.
— Seu Bernardo salvou minha vida mais de uma vez.
Lembrei da visita que fizemos semanas antes.
Da fotografia de Laura.
Do carinho que Bernardo demonstrava ao falar da filha.
— Ele parece um bom homem.
Meu pai assentiu.
— É um dos melhores que conheci.
Depois seu rosto ficou sério.
— Nunca julgue uma pessoa apenas pelo mundo em que ela vive.
— O senhor está falando dele?
— Estou falando de todos nós.
Fechei a gaveta devagar.
Naquele instante, compreendi que aquele mundo era muito mais complicado do que imaginava.
Nem todo homem poderoso era cruel.
Nem todo inimigo era realmente um inimigo.
E nem toda guerra era feita por pessoas más.
Enquanto isso, em outra cidade, Laura Montenegro provavelmente estava estudando, desenhando ou tentando arrancar um sorriso do pai.
Ela sequer imaginava que nossos pais carregavam uma amizade de décadas.
Muito menos que um dia nossos caminhos se cruzariam.