Os anos passaram depressa.
Quando percebi, já tinha doze anos.
Algumas coisas mudaram.
Outras nunca mudariam.
Paola continuava sendo duas pessoas.
Na frente do meu pai, era doce, paciente e elegante.
Quando ele saía de casa, bastava o carro desaparecer pelo portão para o sorriso dela desaparecer junto.
Eu já não chorava mais.
Aprendi que as lágrimas só lhe davam mais satisfação.
Então comecei a guardar tudo para mim.
Foi Sofia quem me ensinou.
— Não deixe que ela veja que conseguiu machucar você.
Desde aquele dia, eu passei a sorrir mesmo quando queria gritar.
Meu pai também havia mudado.
Não era uma mudança grande.
Era quase imperceptível.
Mas eu o conhecia melhor do que qualquer pessoa.
Sabia quando ele estava preocupado.
Sabia quando alguma coisa não estava bem.
Ele passou a ficar mais tempo no escritório.
Ficava olhando documentos por vários minutos, sem realmente lê-los.
Às vezes, segurava uma xícara de café já frio e permanecia em silêncio, olhando pela janela.
Em outras ocasiões, parecia observar Paola quando ela não percebia.
Era um olhar rápido.
Discreto.
Mas diferente.
Como se estivesse tentando entender alguma coisa.
Eu não sabia o quê.
Numa sexta-feira, estávamos jantando juntos.
Era raro.
Meu pai fazia questão de reunir a família sempre que podia.
— Como foi a escola? — perguntou.
— Tirei nota máxima na prova de História.
Os olhos dele brilharam.
— Sabia que conseguiria.
Paola sorriu.
— Nossa menina é muito inteligente.
Olhei para ela.
Aquela mesma mulher que, naquela manhã, havia rasgado um dos meus cadernos porque eu "ocupava espaço demais" na biblioteca.
Meu pai sorriu para ela.
— Você sempre incentiva a Laura.
Por um instante, vi Paola prender a respiração.
Foi muito rápido.
Mas meu pai também percebeu.
Ela logo voltou a sorrir.
— Ela merece todo incentivo.
Meu pai assentiu.
Mas, dessa vez, não respondeu imediatamente.
Apenas ficou olhando para ela por alguns segundos.
Silencioso.
Foi a primeira vez que senti um clima estranho entre os dois.
Mais tarde, levantei para beber água.
Ao passar pelo escritório, ouvi a voz do meu pai.
— Carlos, preciso que você verifique uma coisa para mim.
Carlos era o chefe da segurança da mansão.
Parei sem fazer barulho.
— Algum problema, senhor Bernardo?
— Ainda não sei.
— O senhor parece preocupado.
Houve um longo silêncio.
— Talvez eu esteja imaginando coisas.
Meu coração acelerou.
Era raro ouvir meu pai falar daquele jeito.
— O que deseja que eu faça?
— Apenas observe.
— Observar quem?
Outro silêncio.
Então Bernardo respondeu em voz baixa.
— Todos.
Franzi a testa.
Todos?
O que estava acontecendo?
Antes que eu pudesse ouvir mais alguma coisa, um assoalho estalou sob meus pés.
A porta se abriu.
Meu pai apareceu.
— Laura?
Sorri sem graça.
— Eu só ia pegar água.
Ele sorriu de volta.
Mas havia cansaço em seus olhos.
Muito cansaço.
— Venha cá.
Aproximei-me.
Ele colocou a mão sobre meu ombro.
— Está tudo bem?
Perguntei.
Ele demorou alguns segundos para responder.
Depois sorriu.
O mesmo sorriso de sempre.
— Está, princesa.
Mas eu sabia que não estava.
Na manhã seguinte, Paola organizou um almoço beneficente na mansão.
A casa ficou cheia.
Empresários.
Políticos.
Jornalistas.
Todos elogiavam minha madrasta.
— Que mulher maravilhosa!
— Tão generosa.
— Bernardo tem muita sorte.
Ela agradecia cada elogio com um sorriso perfeito.
Enquanto isso, dava ordens secas aos empregados pelos corredores.
— Quero essa mesa arrumada agora.
— Você não sabe fazer nada direito?
— Ande logo!
Assim que alguém importante se aproximava...
Ela voltava a ser delicada.
Meu pai observava tudo de longe.
Sem dizer uma palavra.
Percebi que, pela primeira vez, ele não parecia encantado.
Parecia... atento.
Como se estivesse montando um quebra-cabeça.
Naquela noite, enquanto eu estudava no quarto, ouvi vozes no corredor.
A porta estava entreaberta.
Reconheci a voz de Paola.
— Você está estranho comigo.
Bernardo respondeu calmamente.
— Impressão sua.
— Não é.
Silêncio.
— Fiz alguma coisa?
Meu pai demorou para responder.
— Não.
Outra pausa.
— Apenas estou cansado.
Ela insistiu.
— Tem certeza?
— Tenho.
Os passos se afastaram.
Corri até a porta.
Vi meu pai entrar no escritório sozinho.
Ele fechou a porta devagar.
Não bateu.
Não gritou.
Não discutiu.
Mas havia algo diferente.
Algo que eu nunca tinha visto.
Pela primeira vez desde o casamento, meu pai parecia olhar para Paola não como um homem apaixonado.
Mas como alguém que começava a fazer perguntas.
E, sem saber por quê, aquilo me deu esperança.
Uma esperança pequena.
Silenciosa.
A esperança de que, talvez...
Talvez um dia ele finalmente enxergasse a mulher que eu conhecia desde os seis anos.
Eu só não imaginava que essa verdade chegaria tarde demais.