Meu pai costumava dizer que confiança era uma das coisas mais raras do mundo.
Eu nunca entendi completamente o que ele queria dizer.
Pelo menos não quando tinha quinze anos.
Naquela época, minha maior preocupação era terminar os treinos mais rápido e provar para meu pai que eu estava pronto para assumir mais responsabilidades.
Mas ele nunca parecia satisfeito.
— Você age primeiro e pensa depois.
— Porque pensar demora.
— É exatamente por isso que você me preocupa.
Eu apenas revirei os olhos.
Meu pai soltou uma risada.
— Um dia você vai entender.
— Um dia você vai parar de repetir essa frase.
— Nunca.
Aquilo encerrou a conversa.
Como quase sempre acontecia.
Naquela manhã, estávamos viajando para encontrar um velho amigo dele.
Um dos poucos homens que meu pai realmente respeitava.
Bernardo Montenegro.
Eu já tinha ouvido aquele nome centenas de vezes.
Talvez milhares.
Os dois haviam crescido juntos.
Passado fome juntos.
Brigado juntos.
Sobrevivido juntos.
A vida acabou levando cada um para um caminho diferente.
Hoje comandavam organizações diferentes.
Mas a amizade permanecia.
Algo raro naquele mundo.
Muito raro.
— Ele é mesmo tão importante assim? — perguntei.
Meu pai desviou os olhos da estrada.
— Bernardo é como um irmão para mim.
Aquilo chamou minha atenção.
Meu pai não costumava falar daquele jeito.
— Então vocês se conhecem há muito tempo.
— Desde antes de você nascer.
— E vocês nunca brigaram?
Ele gargalhou.
— Mais vezes do que consigo contar.
— Então por que ainda são amigos?
— Porque amizade de verdade não desaparece por causa de uma discussão.
Fiquei pensativo.
Talvez ele tivesse razão.
Algumas horas depois chegamos à propriedade dos Montenegro.
O lugar era enorme.
Mais parecia um palácio.
Seguranças estavam espalhados por toda parte.
Homens armados.
Carros luxuosos.
Portões gigantes.
Tudo transmitia poder.
Mas aquilo não me impressionava.
Eu tinha crescido naquele ambiente.
Era apenas mais um dia comum.
Quando entramos na mansão, encontramos Bernardo nos esperando.
Ele abriu um enorme sorriso.
— Antônio!
Os dois se abraçaram como velhos irmãos.
Meu pai sorriu.
— Você está ficando velho.
— Olha quem fala.
Os dois começaram a rir.
Eu balancei a cabeça.
Adultos eram estranhos.
Passamos boa parte da tarde ouvindo histórias antigas.
Ou melhor...
Eles contavam histórias antigas.
Eu apenas escutava.
A maioria parecia exagerada.
— Você quase morreu naquela noite — disse Bernardo.
— Você quase morreu primeiro.
— Mentira.
— Verdade.
— Mentira.
— Verdade.
Os dois pareciam adolescentes.
Não líderes poderosos.
Em determinado momento, Bernardo abriu uma gaveta do escritório.
Pegou uma fotografia.
E seu rosto mudou completamente.
Um sorriso diferente surgiu.
Mais suave.
Mais feliz.
— Preciso mostrar uma coisa.
Meu pai arqueou uma sobrancelha.
— O quê?
Bernardo entregou a foto.
— Minha filha.
Meu pai observou a imagem.
— Ela está enorme.
— Cresce rápido demais.
— Parece com a mãe.
Bernardo sorriu.
— Graças a Deus.
Os dois riram.
Então meu pai me entregou a fotografia.
— Veja.
Peguei a imagem.
Era uma menina.
Cabelos escuros.
Pele clara.
Olhos claros.
Ela sorria para a câmera segurando um livro.
Parecia feliz.
Estranhamente feliz.
— Ela tem quantos anos?
— Nove.
— Sua filha?
— Minha princesa.
A maneira como Bernardo falou deixou claro o quanto a amava.
Eu nunca tinha visto aquele homem sorrir daquela forma.
Era como se todo o resto desaparecesse quando falava dela.
— Ela gosta de ler? — perguntei.
Bernardo pareceu surpreso.
— Muito.
— Parece inteligente.
— É mais inteligente do que eu.
— Isso não parece difícil.
Bernardo fingiu estar ofendido.
— Eu gostei dele.
Meu pai deu uma risada.
— Não incentive.
Observei novamente a fotografia.
A menina parecia diferente das pessoas que costumavam fazer parte do nosso mundo.
Parecia inocente.
Livre.
Como se não tivesse ideia dos perigos ao seu redor.
E provavelmente não tinha mesmo.
A conversa continuou.
Negócios.
Problemas.
Acordos.
Coisas que eu já estava acostumado a ouvir.
Mas algo me chamou atenção.
Em determinado momento, Bernardo ficou sério.
Muito sério.
Ele olhou para a fotografia sobre a mesa.
Depois para meu pai.
— Antônio.
— Sim?
— Se algum dia acontecer alguma coisa comigo...
Meu pai imediatamente o interrompeu.
— Não vai acontecer.
Bernardo ignorou.
— Escute.
O silêncio tomou conta do escritório.
— Se algum dia acontecer alguma coisa comigo, cuide dela.
Meu pai ficou imóvel.
— Bernardo...
— Estou falando sério.
— Você está exagerando.
— Talvez.
Pela primeira vez vi preocupação nos olhos de Bernardo.
Uma preocupação verdadeira.
Profunda.
Como se carregasse um peso invisível.
— Prometa.
Meu pai suspirou.
— Prometo.
Bernardo assentiu lentamente.
Pareceu satisfeito.
Mas não completamente.
Como alguém que ainda sentia que uma tempestade estava se aproximando.
Quando a reunião terminou, eu estava prestes a sair do escritório.
Mas algo chamou minha atenção.
A fotografia continuava sobre a mesa.
A menina sorria para a câmera.
Sem preocupações.
Sem medo.
Sem imaginar que o pai acabara de pedir a um amigo que cuidasse dela caso algo acontecesse.
Olhei para a foto por mais alguns segundos.
Depois a coloquei de volta no lugar.
Não sabia por que estava fazendo aquilo.
Talvez curiosidade.
Talvez nada.
Era apenas uma menina.
Uma desconhecida.
Uma criança que eu provavelmente nunca encontraria.
Mas, por algum motivo, a imagem permaneceu na minha cabeça durante toda a viagem de volta.
Os olhos claros.
O sorriso.
O jeito feliz.
Como se aquela fotografia escondesse uma história que eu ainda não conhecia.
E talvez conhecesse um dia.
Mas naquele momento eu não fazia ideia de quem Laura Montenegro realmente era.
Não imaginava que nossos destinos já estavam ligados.
Nem que anos depois eu me lembraria daquela fotografia.
Nem que arriscaria minha própria vida para protegê-la.
Naquele dia, ela era apenas uma menina em uma foto.
E eu era apenas um garoto que não entendia por que não conseguia esquecê-la.