Mundo de ficçãoIniciar sessãoVincenzo
"Eu não sou a sua prostituta!"
Os gritos dela ainda ecoam dentro da minha cabeça. Um olhar vívido e irritado ousa encarar-me com impetuosidade. Há indignação em suas retinas. Mas, no fundo, eu sei que tudo não passa de um jogo. Uma encenação. Ela se entrega a um estranho. Não pensa duas vezes enquanto geme debaixo dele, e se sente indignada?
— Sonhando acordado?
Meus pensamentos são interrompidos quando Thierry, meu diretor de marketing e amigo mais próximo, invade a minha sala. Apago a imagem da garota da minha cabeça e aponto uma cadeira para ele se sentar.
— Trouxe o que te pedi? — questiono, ignorando a sua pergunta.
— Trouxe. — Ele diz, mas a sua cara não é das melhores.
Thierry estende um papel para mim e eu fixo os olhos no texto em negrito, fechando a minha mão no mesmo instante e amassando o documento inteiro.
— Que merda é essa? — rujo.
Ele faz um gesto tenso.
— Não sei como isso aconteceu, Vincenzo, mas o acordo vazou.
Esmurro fortemente a minha mesa, ficando de pé no mesmo instante. Furioso, encaro o meu funcionário.
— Eu quero os responsáveis por isso — ranjo entre os dentes.
Nervoso, Thierry meneia a cabeça positivamente. Pega o telefone do bolso e faz uma ligação.
— Marie, peça para o Louis e o Jean virem à sala do presidente — pede, encerrando a ligação em seguida.
— Sabe quanto podemos perder com isso? — Solto um grunhido irritado.
— Eu sinto muito, Vincenzo…
— Sentir não é suficiente, Thierry! — rosno.
A porta do meu escritório se abre e dois homens, de aparentemente vinte e vinte e três anos, passam por ela. Nem os mando se sentar. Eu os quero de pé. Olhando nos meus olhos e me dando uma explicação plausível para uma atitude nada profissional.
— Acredito que ambos são formados e foram treinados para trabalhar em uma empresa do porte da Vitale — começo.
— Senhor Vitale…
Um deles abre a boca para falar. Um gesto gélido meu o faz engolir as palavras.
— Vocês sabem o que é isso? — Ergo o papel amassado. Os olhos deles se fixam na página quase irreconhecível. — Vocês negligenciaram as auditorias, ignoraram os alertas e o documento interno vazou!
— Eu… — O rapaz gagueja. — Posso consertar isso, senhor Vitale.
Arqueio as sobrancelhas.
— Você pode? — Dou um passo na direção dele.
— Eu… posso tentar…
— Tentar? Eu pago vocês para tentar? — rosno furioso. — SEUS… INCOMPETENTES!! — vocifero.
A porta volta a se abrir e seguro mais um grito de repreensão ao perceber que é a Ava, minha assessora, acompanhada de outra garota.
— Oh, me desculpe! Estou atrapalhando? — Ela indaga, ainda parada na entrada da sala.
— O que você quer, Ava?
— Essa é Adeline Laurent, a sua nova gestora de crises.
Entrecerro os olhos e os fixo na garota. Pele morena. Cabelos cacheados, cheios, caindo sobre os seus ombros. Lábios cheios e rosados. Ela me fita com certa dureza, e eu me pergunto se sabe exatamente quem eu sou para olhar-me com tamanha autoridade. Aproximo-me devagar, avaliando suas vestes, sua postura, e paro a centímetros dela.
— Fui informado de que o prêmio Vitale seria entregue ao aluno mais brilhante da turma.
Avalio o seu rosto. De alguma forma, ele me parece familiar. Mas não — eu não a conheço. Jamais teria conhecido alguém fora do meu círculo social. É claro que não.
— Mostre-me que você não é apenas um rostinho bonito, senhorita Laurent. Resolva isso, e esse cargo será seu. Mas, se não conseguir salvar esse acordo, estará na rua.
Observo com prazer o seu maxilar se enrijecer.
A garota segura o papel amassado na mão, sem desviar o olhar do meu. O que me deixa furioso, mas resolvo não demonstrar. Ainda não. Deixarei para descarregar toda a minha ira quando ela falhar miseravelmente.
— Eu vou resolver. — Ela garante, usando um tom seco.
Mentalmente estalo o meu pescoço de um lado, depois do outro, afastando-me em seguida.
— Vai?
Tenho vontade de rir. Como ela conseguiria resolver um vazamento que já está nas mãos da mídia? Como recuperaria um acordo fadado a fracassar? Ela vai falhar, e eu estarei bem aqui para expulsá-la do meu reino.
— Eu realmente espero que sim.
— Pode deixar, senhor Vincenzo. Fui preparada para lidar com situações extremas. Trarei uma solução ao senhor em duas horas…
— Você tem uma hora, senhorita Laurent — determino com uma frieza incalculável.
— Mas…
— Uma hora! — repito, encarando-a outra vez. — Convença-me dessa sua capacidade, e esse emprego será seu.
Em resposta, ela apenas assente com a cabeça, e Ava a conduz para fora da sala. Volto a encarar os homens parados à minha frente.
— A Vitale não aceita menos do que a excelência dos seus funcionários. Vocês deixaram vazar uma informação muito importante, e não posso admitir tal atitude.
— Senhor…
— Estão demitidos! — rosno, dando-lhes as costas para retornar à minha mesa, encerrando a reunião. Eles se retiram da sala.
Apoio os dedos no nariz, fecho os olhos por alguns segundos e respiro fundo.
— Você deveria dar uma segunda chance a eles, Vincenzo. São jovens e estão aprendendo…
— O mundo não é feito de segundas chances, Thierry — rebato, um tanto rude. — Existem erros que não nos permitem voltar atrás.
Dessa vez, refiro-me à pior decisão que já tomei em minha vida. Sou a prova viva de que as segundas chances não são para todos. Eu sei, porque tentei. Quis ter uma última conversa com a mulher da minha vida. Estive disposto a me humilhar, a me ajoelhar a seus pés e implorar pelo seu perdão. Mas nunca chego a fazê-lo. O destino, cruel demais, a tirou de mim antes que eu tivesse essa chance. E, o pior: não levou apenas ela, mas também o filho, que eu sequer imaginava ter.
— Às vezes eu gostaria de entender o que te fez ficar assim. — Ele me lança um olhar especulativo. — É como se você usasse uma armadura constantemente. Como se quisesse se proteger de tudo e de todos…
— Você virou a porra de um psicólogo agora? — retruco mal-humorado. — Quer analisar o meu perfil, senhor Roux?







