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Adeline

— Ah, mami, você é dez! — Volto a abraçá-la. Depois aprecio as belas tulipas e até as imagino na minha sala.

— Ei, e eu? — Papai parece indignado. E isso me arranca um riso baixo.

— Você também é dez. Vocês dois são.

— Coma, filha. Você precisa sair em duas horas.

— Está bem. Eu amo vocês! — Faço um coraçãozinho com as mãos antes que fechem a porta.

Contudo, meu sorriso se esvai pouco a pouco quando me lembro da noite passada.

Suspiro baixo.

O desgraçado nem se preocupou em usar uma camisinha. Resmungo mentalmente. Onde você estava com a cabeça, Adeline? Desde quando se aventura em transas casuais? Definitivamente não foi isso que seus pais lhe ensinaram.

Faço um bico torto com a boca, soltando uma respiração pesada.

Sacudo a cabeça.

A experiência é o que conta, certo? Depois dessa, nunca mais me aventuro na cama de um estranho. E é sempre bom saber que nunca mais o verei outra vez. Com esse pensamento, devoro o meu café da manhã, tomo um banho rápido, escovo os meus cabelos e faço uma maquiagem digna de uma especialista em relações corporativas e gestão de crises. Depois, visto o único conjunto de terninho de três peças cor de chumbo que comprei em um brechó.

Sorrio para a minha aparência diante do espelho e ergo uma mão para arrumar uma mecha desgarrada. O sinal de nascença no meu pulso entra no meu campo de visão e o encaro por alguns instantes. Escuro como a noite, e o seu formato se assemelha, de longe, a um pedaço de lua.

Pressiono os lábios e vou rapidamente até uma penteadeira. Abro uma caixa aveludada e escolho um bracelete para escondê-lo. Dou mais uma olhadinha e sorrio satisfeita.

— Perfeito! — digo, olhando-me no espelho de corpo inteiro. — Agora vai lá e arrasa, garota! — digo para a minha imagem e sorrio.

Entretanto, quando saio do meu quarto segurando o vaso de vidro transparente com as flores e a minha bolsa, encontro a casa completamente vazia. Meus pais já saíram para trabalhar. Vale salientar que sinto muito orgulho deles. Claire é professora do ensino médio em uma escola pública. Ela nunca pôde ter filhos e a adoção foi a sua escolha para realizar um sonho. Henri trabalha como segurança em um hospital público, e ele é perdidamente apaixonado pela sua esposa.

— Pronta? — Maia grita de dentro do seu carro, assim que para em frente à minha casa. — Hoje é o seu primeiro dia, gata. Precisa se apressar. O senhor Vitale odeia atrasos.

Aí está a pontinha de medo que sinto desse emprego. Eu sou recém-formada, e esse é o meu primeiro emprego da vida. E a minha primeira vez tinha que ser com o senhor Vincenzo Vitale — um homem extremamente exigente e de fama fria e sombria.

…Você consegue, filha.

Lembro-me das palavras de minha mãe quando recebi esse cargo. E sim, ela sabe que não sou de desistir tão fácil.

— Devia tirar esse bracelete brega. — Maia retruca, ligando o motor, assim que me acomodo no banco do passageiro.

— Eu gosto dele — respondo desdenhosa. — E acho que combina com a minha roupa.

— Falando em roupas, precisa fazer compras assim que receber o seu primeiro salário. A Vitale S/A é uma empresa exigente em questão de aparências.

Me olho no espelho do retrovisor.

— Não que você não esteja linda. Você está. — Continua ela. — Mas pode melhorar, não é?

Nervosa, mexo no bracelete, girando e girando ao redor do meu braço.

Um frio se aloja na boca do meu estômago quando finalmente ponho os meus pés dentro do hall de entrada do Grupo Vitale. O mármore negro reflete as luzes douradas do teto impecavelmente alto, enquanto enormes painéis de vidro revelam a cidade pulsando do lado de fora. Tudo aqui exala poder. O perfume sofisticado no ar. O silêncio elegante entre os funcionários perfeitamente alinhados. E o enorme "V" prateado estampado atrás da recepção faz o meu estômago se contrair. Pela primeira vez, sinto que estou entrando em um mundo grande demais para mim.

— Vem, é por aqui! — Maia me puxa pela mão para um corredor largo, onde há alguns elevadores. — Eu fico no quinto andar, e você segue para o trigésimo.

Verifico no painel. É o último andar desse prédio.

— Boa sorte, amiga! — Ela beija rapidamente a minha bochecha e sai logo em seguida.

Nervosa, observo o espaço isolado enquanto respiro fundo algumas vezes. Amplo e sofisticado. Revestido por aço escuro polido e detalhes dourados discretos que refletem a iluminação baixa do teto. As portas deslizam sem emitir ruído algum e um corredor comprido, igualmente sofisticado, se abre para mim.

Ok, respire fundo. Você é alguém importante aqui dentro e precisa agir como tal. Erga a sua postura. Empine esse queixo. Lance olhares determinados de quem sabe o que quer. Aqui dentro você não é Adeline, a garota simples, de gestos humildes. Aqui você é Adeline Laurent, a mulher que transforma problemas em soluções como em um passe de mágica.

— Ah, você chegou! — Uma mulher extremamente elegante diz, aproximando-se rapidamente. — Senhorita Laurent, não é?

— Sim. — Abro um sorriso que julgo profissional.

— Por aqui! — A mulher segue na minha frente, elegante, sobre os saltos-agulha, e eu sigo logo atrás dela, apressando os meus passos pelo piso lustroso. — Meu nome é Ava Boucher. Eu sou assessora de imprensa do Grupo Vitale.

Então ela para bruscamente e eu também.

— E estou feliz que finalmente esteja aqui.

Ava abre a porta e me dá passagem.

— Seja bem-vinda ao Grupo Vitale! — Ela diz quando dou dois passos na direção da entrada da sala.

— SEUS INCOMPETENTES! — Um berro me faz estremecer por inteiro. Os meus olhos correm na direção do grito, encontrando um trio de homens pálidos, de pé diante de um imponente CEO, que parece devorá-los com os olhos.

Engulo em seco.

Não pode ser!

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