6

Vincenzo

Em resposta, Thierry ergue as mãos em sinal de rendição.

— Eu só estava dizendo…

— Deveria voltar ao trabalho, senhor Roux. Afinal, é para isso que eu te pago.

— Certo, chefe! — Thierry faz um gesto desdenhoso com a boca, e simplesmente me dá as costas, saindo da sala em seguida.

Puxo uma respiração profunda e reconheço que fui duro com ele. Mas Thierry me conhece muito bem. Ele sabe que não sou homem de meias palavras. E que nunca esteve nos meus planos permitir que invadam a minha história — nem mesmo aquele que chamo de amigo.

***

— Senhor Vitale. — A voz de Philippe Beaumont, presidente da Beaumont Distribution France, ecoa do outro lado da linha. — Acabei de revisar a proposta final enviada pela sua equipe.

Permaneço em silêncio, diante de uma parede de vidro do escritório, enquanto observo uma Paris em uma falsa quietude bem debaixo dos meus pés.

— E?

— O conselho aprovou o projeto.

Eu sabia! Penso, exultante; porém, permaneço calado.

— Estamos falando de oitenta mil metros quadrados, dois centros de distribuição automatizados e uma operação que atenderá toda a região sul da França.

— Eu sei exatamente o que estamos construindo, senhor Beaumont. — Uso meu melhor tom profissional, seco.

Ouço um discreto pigarro do outro lado.

— Naturalmente.

— Informe aos seus superiores que a primeira etapa será iniciada em quinze dias. A entrega parcial ocorrerá no oitavo mês. O complexo estará totalmente operacional dentro do prazo previsto.

— Impressionante.

— Não. Isso é apenas planejamento, senhor Beaumont.

Viro-me para voltar à minha mesa. Contudo, o meu olhar vai direto para um corredor em frente à minha sala, onde vejo a minha nova gestora de crises andar de um lado para o outro enquanto fala ao telefone. Ela parece desesperada. E não é por menos. Dei-lhe uma tarefa que ninguém jamais conseguiria cumprir. Ela não vai conseguir. Eu sei disso. Entretanto, não pretendo demiti-la — só quero colocá-la no seu devido lugar e abaixar a sua maldita crista. Quem ela pensa que é para me encarar daquela maneira?

— Então temos um acordo? — Desperto com a voz de Philippe ao telefone.

— Sim, temos.

Encerro a ligação e volto a fixar o meu olhar na garota, que abre um sorriso nervoso e caminha apressada para uma porta. Ela a abre e adentra a sala, tirando de mim o prazer de assistir ao caos em seu rosto.

— Senhor Vitale, estes são os documentos do projeto Lions Gate. — Élise, minha secretária, diz, entrando no meu escritório de repente. Ocupo o meu lugar na cadeira executiva e abro a pasta assim que ela a põe sobre a minha mesa.

— O Blade entrou em contato? — pergunto com um tom firme, profissional, sem tirar os olhos de cima dos documentos.

— Infelizmente, ele não poderá vir, senhor.

É claro que não. Resmungo mentalmente.

Desde que se casou com a Abby, Blade Vitale tem evitado sair da ilha. E a coisa só piorou com a chegada dos gêmeos. Eu nunca vi o meu irmão tão feliz assim na vida. Nem mesmo no seu primeiro casamento os seus olhos brilharam tão vívidos como agora. Devo dizer que sinto inveja do que ele tem. Eu já tive um sonho assim antes. Tive um grande amor que preencheu o meu coração de forma absurda. Eu respirava por ela. Sentia-a em cada instante do meu dia. Ouvir a sua voz era o que me dava vida. Mas, no fundo, Nella Gali nunca me pertenceu de fato. Ela tinha olhos apenas para uma pessoa: Blade Vitale — meu irmão mais velho. Eu nunca fui o seu escolhido, e talvez isso tenha influenciado no fato de eu nunca ter lutado por nós dois.

E, sejamos sinceros, sonhar é para os tolos. Perdi muito tempo com sonhos que não eram meus, e agora vivo um dia de cada vez.

— Ele disse que seu tio virá em seu lugar.

Ergo a cabeça, surpreso.

— Lucien Vitale em Paris?

Sim, estou incrédulo. Desde a morte de sua esposa, meu tio se enterrou na Alemanha. É intrigante saber que ele participará de um evento de gala das Indústrias Vitale S/A. Contudo, minha mãe sempre me disse que herdei a parte mais importante desse homem: o caráter e a frieza dos negócios. Ela não faz ideia, mas existem decisões na vida de um homem que o transformam de maneira irreversível.

— Por mim, tudo bem — falo, sem dar muita importância. — Peça para a Ava vir até o meu escritório. Preciso resolver algumas coisas com ela.

— Sim, senhor.

Enfio a cara nos papéis à medida que a minha funcionária se retira da sala. Cláusula de afirmação do centro de distribuição farmacêutico. Um lucro contabilizado em mais de cem mil euros.

— Mandou me chamar? — Ava pergunta, assim que entra pela porta do meu escritório.

Apenas faço um gesto para que ela se sente, enquanto finalizo a leitura do contrato.

— Me diga — peço, largando uma caneta prateada sobre o papel. — Como estão os preparativos para a festa de cinquenta anos das Indústrias Vitale S/A?

— O cronograma está sendo cumprido conforme o informei na semana passada. Os convites corporativos já foram enviados. A equipe de eventos finalizou os últimos ajustes, e a confirmação da comitiva da matriz italiana chegou esta manhã. Como pode ver, tudo estará pronto no prazo certo.

— Acabei de descobrir que o meu tio, Lucien Vitale, estará presente neste evento.

— Oh!

— Quero uma mesa especialmente para ele e seus convidados, Ava. Providencie isso.

— Pode deixar, Vincenzo.

— Ótimo. Era só isso.

Dispenso-a, voltando o meu olhar para o contrato. No segundo seguinte, ouço o som dos seus saltos altos ecoar pela sala. A porta se abre e, depois, se fecha, e eu retorno ao meu trabalho. Contudo, a porta volta a se abrir no mesmo instante.

— Esqueceu alguma coisa, Ava?

— Ah, senhor Vitale, a senhorita Laurent deseja falar-lhe.

Olho imediatamente para o relógio no meu pulso e, surpreso, ergo a minha cabeça.

— Ela disse o que quer? — Minha secretária parece sem palavras.

Faltam pouco menos de meia hora para o prazo dela acabar. Provavelmente, Adeline Laurent está vindo com o rabo entre as pernas me pedir um prazo maior para resolver a bomba que joguei no seu colo. Sinto uma satisfação imensa percorrer a minha corrente sanguínea e, com o ego inflado, digo:

— Mande-a entrar!

Para a minha surpresa, Adeline tinha o nariz empinado na minha direção. O olhar altivo dela me dizia que nada a havia abalado — que, de alguma forma, ela teria resolvido a crise. Mas não. Eu não consigo acreditar que uma simples garota que acabara de sair da sala de aula tenha tamanho poder.

— Sente-se! — ordenei, ficando de pé no mesmo instante.

Sem dizer uma palavra, Adeline dá alguns passos em direção à cadeira. Puxa-a e se senta.

— Imagino que você não conseguiu conter o vazamento das informações do acordo — falo, saindo de trás da minha mesa. Dou alguns passos calculados e paro bem atrás dela, inclinando-me até ficar à altura da sua orelha.

Entretanto, um perfume suave de morango invade as minhas narinas, faz o meu coração errar o compasso e os meus dedos apertam com força o encosto da cadeira. Cerro rigidamente o maxilar e me forço a seguir com o meu propósito.

— Lembre-se: eu lhe dei um prazo de oito horas para resolver esse problema. Se você não teve competência suficiente, eu vou entender. Você é… jovem demais. Bonita. E, inexperiente…

Ergo o corpo e me afasto dela. Esse perfume doce e suave não me deixa pensar direito. E isso me irrita.

— Definitivamente, a Vitale não costuma treinar iniciantes, senhorita Laurent. Ela não molda. Apenas aceita profissionais à sua altura…

— Eu resolvi. — Ela diz com uma firmeza convicta, interrompendo-me bruscamente.

Incrédulo, encaro-a.

Impossível! Meu cérebro grita, ainda processando a sua resposta.

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