David chegou tarde, bem depois da meia-noite.
O bar com Willian tinha sido necessário: uísque puro, conversas sobre paternidade que começaram sérias e terminaram em risadas bêbadas, conselhos ruins e mais uísque. A mãe ainda não sabia de nada. “Vai dar um jeito quando estiver pronto”, Willian disse. David não estava pronto. Talvez nunca estivesse.
Entrou no apartamento em silêncio, tirou os sapatos no hall pra não fazer barulho, afrouxou a gravata. O lugar estava quieto, só o zumbido baixo do ar-condicionado e a luz suave que vazava pela porta entreaberta do quarto de Ava.
Ele não resistiu. Foi até lá, de mansinho.
O abajur novo projetava borboletas dançantes no teto, sombras delicadas que giravam devagar. David sorriu sozinho. Nunca, em todos os anos que morava ali, imaginou que sua cobertura ia ter borboletas no teto. Nem ursinhos nas prateleiras. Nem cheiro de talco misturado com leite morno.
Parou ao lado do berço branco.
Ava dormia de ladinho, bochechas rosadas, mãozinha fechada