Mundo ficciónIniciar sesiónVIVIAN
Voltar nunca esteve nos meus planos.
Na verdade, durante muito tempo, fiz de tudo para garantir que isso jamais acontecesse. Construí uma vida longe daqui, empilhei compromissos, mergulhei no trabalho e aceitei um pedido de casamento que parecia seguro, estável e… suficiente. Não era arrebatador, não era intenso, mas eu já tinha aprendido — ou achava que tinha — que intensidade demais costuma acabar em ruínas.
O término aconteceu numa terça-feira cinza, dentro de um café silencioso onde o cheiro de grãos torrados parecia mais forte que qualquer emoção. Não houve gritos, nem lágrimas dramáticas, nem copos quebrados. Apenas silêncio. Um silêncio pesado, definitivo. Ele disse que eu estava distante. Eu disse que ele merecia alguém inteira. Nós dois sabíamos que aquilo significava a mesma coisa: eu nunca tinha realmente ficado.
Saí dali com o anel na bolsa e uma sensação estranha de liberdade misturada com vertigem. Era como pular de um penhasco e só depois perceber que não sabia voar.
Passei três dias tentando me convencer de que aquilo era só uma fase, que bastava reorganizar a rotina e seguir em frente. Mas a verdade é que, quando o barulho da vida diminuiu, só restou um nome ecoando dentro de mim.
Gustavo.
Eu podia mentir para qualquer pessoa, menos para mim mesma. Não importava quantos anos tivessem passado, quantas cidades eu tivesse conhecido ou quantas versões minhas eu tivesse inventado ao longo do caminho — uma parte de mim nunca saiu daqui. Nunca saiu dele.
Foi por isso que comprei a passagem.
Não contei para ninguém o verdadeiro motivo. Disse que precisava de um tempo, que queria rever minha avó, que sentia saudade da cidade. Meias verdades são perigosas porque parecem honestas o suficiente para não levantar suspeitas. Mas no fundo eu sabia: não era saudade da cidade que me puxava de volta. Era saudade de quem eu tinha sido quando ainda acreditava que nós dois daríamos certo.
Quando o ônibus cruzou a placa enferrujada com o nome da cidade, meu coração começou a bater diferente — mais forte, mais rápido, mais vivo. Como se reconhecesse antes de mim que voltar não era apenas uma escolha.
Era inevitável.
E eu não fazia ideia de que o destino resolveria me colocar frente a frente com ele tão cedo… nem que bastaria um olhar para perceber que alguns sentimentos não envelhecem. Eles apenas esperam.
A primeira vez que vi Gustavo de novo foi dentro de uma lanchonete barulhenta, cheia de risadas infantis e cheiro de batata frita. Nada dramático. Nada cinematográfico. Só a vida acontecendo como se não tivesse a menor ideia de que estava prestes a me derrubar.
Eu estava sentada sozinha, esperando meu pedido, mexendo distraidamente no celular, quando senti dois braços pequenos me abraçando com força.
— Tia Helô!
O apelido me atingiu antes mesmo de eu olhar. Meu corpo reconheceu aquela voz antes da minha mente conseguir acompanhar.
Lívia.
Quando levantei os olhos e vi o rostinho dela, iluminado por um sorriso cheio de dentes de leite, algo quente se espalhou pelo meu peito. Fazia tempo desde a última vez que a tinha visto, mas algumas coisas permaneciam iguais — o brilho nos olhos, a espontaneidade, a forma como ela se jogava nas pessoas sem medo nenhum de não ser recebida.
— Oi, princesa! — respondi, abraçando-a de volta, sentindo o perfume infantil que sempre me lembrava tardes de parque e risadas despreocupadas.
Foi então que ouvi a voz dele.
— Oi, Heloísa.
Meu nome na boca de Gustavo sempre teve um efeito estranho sobre mim. Como se cada sílaba tivesse peso próprio. Como se fosse mais que um som — fosse uma memória.
Levantei o olhar devagar.
Ele estava exatamente como eu lembrava… e completamente diferente.
Os traços estavam mais maduros, a expressão mais séria, o maxilar mais definido. Havia linhas discretas ao redor dos olhos, marcas que só aparecem em quem já sorriu muito ou se preocupou demais. Talvez as duas coisas. O cabelo continuava levemente bagunçado, como se ele nunca tivesse aprendido a domá-lo direito, e a barba curta deixava seu rosto ainda mais intenso.
Mas não foi nada disso que me prendeu.
Foi o olhar.
O mesmo olhar.
Profundo. Firme. Familiar.
E perigoso.
Porque dentro dele ainda existia história.
— Oi, Gael — respondi, quase automaticamente, antes que minha cabeça lembrasse meu coração de se proteger.
Lívia falava alguma coisa animada sobre batata frita e ketchup, gesticulando como se estivesse contando o maior segredo do mundo. Eu a ouvia, sorria, respondia, mas minha atenção estava dividida — metade nela, metade nele.
Gustavo parecia desconfortável. Não hostil. Não frio. Apenas… tenso. Como se a minha presença tivesse bagunçado algo dentro dele que ele preferia manter organizado.
Eu conhecia aquele olhar.
Era o mesmo que ele fazia quando estava tentando fingir que não sentia.
— Vocês podem sentar aqui comigo — ofereci, antes que o silêncio entre nós dois ficasse perceptível demais.
Ele hesitou. Por um segundo inteiro. Talvez dois.
Mas Lívia não hesitou nem um milésimo.
— Obrigada, tia Helô!
Ela já tinha puxado a cadeira e se acomodado ao meu lado antes mesmo que ele pudesse decidir qualquer coisa. Acabei rindo, e aquele som pareceu dissolver um pouco da tensão no ar.
Gustavo sentou-se de frente para mim.
Erro.
Grave erro.
Porque daquela distância eu conseguia ver detalhes demais — a cicatriz discreta perto da sobrancelha, o jeito como ele pressionava os lábios quando estava nervoso, o movimento sutil do peito quando respirava fundo como se estivesse se controlando.
Ele ainda fazia isso.
Ainda tentava se controlar perto de mim.
Meu coração apertou.
— Faz tempo — falei, baixo.
Ele assentiu.
— Faz.
Silêncio.
O tipo de silêncio que não é vazio. É cheio demais.
Lívia, completamente alheia ao terremoto emocional acontecendo entre nós dois, começou a contar sobre a escola, a professora, a aula de balé, a festinha que estava chegando. Eu ouvia com atenção genuína, mas uma parte de mim continuava observando Gustavo.
Ele olhava para a filha com uma doçura que eu nunca tinha visto antes.
E aquilo me desarmou completamente.
Eu me lembrava do garoto que implicava comigo, do adolescente teimoso que discutia por qualquer coisa, do rapaz impulsivo que me beijou na chuva como se o mundo fosse acabar. Mas aquele homem ali… aquele pai… era novo para mim.
E perigoso.
Porque era impossível não admirar.







