RavenaA primeira coisa que senti foi calor.Um calor diferente, terno, que vinha de dentro de mim e se irradiava entre nós, algo como pele contra pele. O cheiro de couro, madeira antiga e rosa com vinho, misturava-se ao aroma inconfundível de Cyrus, ancorando minha alma à realidade antes mesmo que meus olhos se abrissem por completo.Eu estava nos aposentos dele, no castelo. O céu lá fora exibia os tons de âmbar e laranja do amanhecer, filtrando-se pelas longas cortinas de veludo. Meus músculos estavam doloridos, minha mente pesada, e algo dentro de mim parecia... esvaziado. Como se parte de minha essência tivesse sido arrancada, usada e deixada para trás. Laha estava em silêncio. Não dormindo, apenas quieta. Como se estivesse recolhida, digerindo o que havia acontecido.— Você está acordada — murmurou Cyrus ao meu lado. A voz dele sempre carregava esse tom grave, envolvente. Mas agora, havia algo mais. Uma tensão. Um peso.Assenti devagar.— Os lobos foram colocados sob proteção. E
MarcelA masmorra era fria. Como se congelasse meus ossos. A pedra suava uma umidade antiga, cheia de promessas esquecidas e sangue seco. Mas o frio que me consumia não vinha do chão, nem do ar.Vinha de dentro.Eu não entendia o que fazia ali. Nem por que estava preso. Havia vozes, vultos. Fragmentos. Uma mulher de cabelos brancos chorando sobre meu peito. Um velho de olhos mortos. E fogo. Muito fogo.Mas tudo o que fazia sentido era ela.Ravena.O nome surgia como uma prece silenciosa em minha mente. A única âncora na escuridão onde me encontrava. Ela era uma lembrança desfocada, mas viva. Como um raio de sol filtrando pelas frestas de uma cela. Uma imagem de cabelos longos e olhos insondáveis. Um sorriso tímido...doce... sereno.Até que ela surgiu.As portas da masmorra se abriram com um som metálico que soou como um trovão em meus ouvidos. Os guardas saíram silenciosamente, e a penumbra ficou mais densa. Mas mesmo naquela meia-luz, eu a reconheci.Ravena.Não... aquela não era a l
CyrusA escuridão da masmorra não era diferente da que habitava em meu peito naquele instante. Uma sombra densa, viscosa, feita de ira contida e um desprezo que crescia como veneno. Apoiado contra a parede, envolto pelas sombras que obedeciam apenas à minha vontade, eu estava ali. Imóvel. Observando.Ela pediu que eu não interferisse.Ravena. Minha companheira. Minha rainha.Ela precisava encarar o monstro com os próprios olhos. Precisava olhar para aquela escória e lembrar-se de que não era mais a fêmea subjugada de antes. Era o pesadelo daqueles que a feriram. Era poder encarnado. A justiça que os deuses abandonaram.Vi a porta abrir e os guardas saírem. Recuaram com respeito, talvez com medo. E ela entrou.Meu peito se inflou, de orgulho, e algo mais feroz, mais instintivo. Um orgulho primitivo, talvez, mas também uma reverência silenciosa. Ela parecia feita de tempestade e sombra, uma força antiga que rompia as correntes da memória e do medo.Marcel a reconheceu. Seus olhos arreg
Empregada Antes do dia clarear eu já estava na casa da alcatéia. Precisava ajudar a preparar o café da manhã de todos, e hoje eu sabia que as coisas seriam ainda mais difíceis, por causa dos convidados. A cozinheira gritava com todos, a cozinha estava quente e cheia de fumaça. Alguém tinha queimado alguma coisa. Encarregada de preparar o bacon e os ovos, eu me concentrei no que fazia ignorando todos, como eles faziam comigo. - Ei, você, escrava. – gritou a cozinheira. – Largue isso. O Alfa te convocou ao salão de jogos. Um arrepio sinistro percorreu minha espinha. Da última vez que estive naquele lugar, Alexander quase não me deixou sair viva. Ele me amarrou nua de cabeça para baixo, e rebateu bolas de beisebol contra o meu corpo, como se isso não bastasse, o alfa chamou Marcel e ordenou que ele me desse uma surra por não ser uma boa diversão. Caminhei na direção da sala de jogos tremendo, eu ainda estava muito machucada do dia anterior. Talvez esse fosse meu fim. Bati e es
Não sei por quanto tempo fiquei amarrada naquela mesa, coberta de esperma, sangue e suor. Marcel mantinha seu olhar sobre mim, pronto para recomeçar aquela tortura.Percebi há muito tempo que ele tinha prazer somente no meu sofrimento, isso o excitava demais. - Eu vou te partir ao meio, minha coisinha safada. – meu companheiro me disse enquanto soltava as cordas que prendiam meus tornozelos. Fui puxada para a beirada da mesa de bilhar. Mas de repente alguém bateu na porta, interrompendo a todos. O alfa vestiu suas calças e caminhou até lá. Marcel se vestiu rapidamente, ligando seu link mental com os guardas. - Estamos sob ataque meu alfa! Alguma coisa está dizimando a alcateia! – um dos guardas gritou. O silêncio pairou sobre a sala, podia sentir que eles estavam se preparando para contra atacar. Afinal de contas, eram todos alfas, os mais poderosos dos territórios vizinhos. Um calafrio percorreu meu corpo febril, senti como se algo gelado tomasse conta da sala. Meu corpo enrij
Minha consciência ia e vinha, se perdendo no que aconteceu e temendo encontrar o monstro de olhos vermelhos. Revivi memórias dos dias anteriores em que eu caminhava em direção ao escritório da alcatéia segurando uma bandeja de bebidas com toda a minha força.Sentia que poderia desabar a qualquer momento, mesmo assim tentava fazer o meu trabalho para que nada desse errado. Por que se isso acontecesse seria o meu fim. - Sirva e saia, sua coisa imunda. – a voz autoritária do alfa Alexander ressoou pela sala. Deixei cada copo de bebida na frente de cada convidado, alguns deles não disfarçavam sua devassidão e me tocavam, enfiando a mão por baixo do meu vestido gasto. O conselho das matilhas começou, e eu saí o mais rápido que pude daquela sala. Quanto mais tempo ficava perto deles, mais chances teria de ser um alvo. Fechei a porta atrás de mim, com um suspiro silencioso. - O que está fazendo aí parada, seu pedaço de merda inútil?! – abaixei a cabeça imediata
Uma figura alta, imponente, e intimidadora me olhava com desinteresse. Ele tem cabelos dourados como sol, que descem até seus braços fortes; as íris cintilantes como o ouro, e a pele branca como a mais fina porcelana, sem nenhum detalhe que estrague sua perfeição. Os traços de seu rosto são milimetricamente proporcionais, a boca parece macia como um pêssego maduro, o lábio superior ligeiramente inclinado para cima, numa representação de sua superioridade. Ele vestia preto dos pés à cabeça. As abotoaduras do punho da camisa reluziam contra a luz, revelando a joia de que era feita. O terno era sob medida, o colete de veludo negro tinha botões de dourados trabalhados. Não havia capa e nem coroa, mas instintivamente eu sabia que esse homem era de algum tipo de realeza. Os olhos dele faiscaram, quando eu me movia inquieta. Por alguma razão eu senti o cheiro estranho que provinha dele me nocautear, como se estivesse embriagada. - Não tem um nome? – ele perguntou, me analisando abertame
Ravena Gemi nos meus sonhos tenebrosos. O abismo em que eu estava era um dos meus piores pesadelos. - Onde pensa que vai, minha coisinha sem vergonha? – congelei segurando as coisas que ia usar. Balde e esfregões. O som daquela voz me revirava o estômago. Marcel se aproximou, com aquele sorriso detestável no rosto. Eu fechei os olhos pedindo a deusa que me livrasse das mãos dele só dessa vez. Mas acho que até ela me considerava um ser indigno e maligno, porque as garras de Marcel afundaram em meus braços, e sua boca engoliu a minha. Já era tarde quando finalmente consegui sair da casa da matilha. Minhas mãos e pernas estavam cheias de sangue e sujeira, minha boca estava seca e fedia como uma latrina. Minha cabana ficava às margens da floresta, e era a única coisa que eu tinha para chamar de meu. Entrei sentindo o frio me castigar, esquentar a água no fogo ia demorar demais, eu precisava me lavar logo. Assim que a tina estava cheia de água, entrei dentro sem me importar c