Mundo ficciónIniciar sesiónAurora
A primeira coisa que eu aprendi trabalhando no Grupo Monteiro foi que organização não era apenas uma qualidade. Era uma necessidade. Principalmente quando seu chefe era Leon Monteiro. Não porque ele fosse uma pessoa difícil. Na verdade, esse era o ponto curioso sobre ele. Leon nunca foi mal-educado. Nunca levantou a voz com funcionários. Nunca fez alguém se sentir inferior por não saber alguma coisa. Ele apenas tinha um jeito muito particular de existir. Tudo nele parecia calculado. Os passos. As palavras. As expressões. Até o silêncio. Depois de três anos trabalhando como sua secretária executiva, eu já sabia reconhecer os diferentes tipos de silêncio dele. Existia o silêncio de concentração, quando ele estava analisando alguma coisa importante. O silêncio de irritação, que era mais raro, mas fazia qualquer pessoa pensar duas vezes antes de interrompê-lo. E existia o silêncio normal. Aquele que simplesmente fazia parte dele. Leon Monteiro era uma pessoa reservada. E todos na empresa sabiam disso. — Aurora! A voz da minha irmã me chamou do outro lado do corredor. Ou melhor, do outro lado da casa. — Eu estou acordada! — Você está falando isso há cinco minutos! Abri os olhos e olhei para o relógio. Sete e dez. Levantei imediatamente. — Eu tenho tempo. Beatriz apareceu na porta do meu quarto com uma expressão divertida. — Você sempre fala isso. — Porque normalmente eu consigo. — Normalmente. Revirei os olhos. — Você veio aqui só para me lembrar que eu posso me atrasar? — Vim impedir que você saia correndo pela casa procurando suas coisas. Ela tinha um ponto. Infelizmente. Beatriz me conhecia bem demais. Peguei minha bolsa na cadeira. Meu celular estava na mesa. Minha chave estava dentro da bolsa. Tudo no lugar. — Viu? Eu estava organizada. Ela cruzou os braços. — Você só achou porque eu não deixei você procurar. Não respondi. Porque ela estava certa. --- A cozinha estava com cheiro de café quando chegamos. Beatriz colocou duas canecas na mesa enquanto eu terminava de prender meu cabelo. — Você tem reunião hoje? Assenti. — Algumas. — Com o senhor Monteiro? — A maioria. Ela fez uma expressão de pena. — Meus sentimentos. Ri. — Ele não é tão assustador. — Eu nunca disse que ele era assustador. Ela tomou um gole do café. — Só disse que eu não gostaria de receber uma lista de tarefas dele. — Você é dramática. — Sou realista. Sorri. Essa era a diferença entre nós. Beatriz sempre falava o que pensava. Eu costumava pensar primeiro. Talvez por isso funcionássemos tão bem juntas. Ela era impulso. Eu era planejamento. De alguma forma, uma equilibrava a outra. Antes de sair, passei os dedos pelo pingente preso ao meu pescoço. Era um hábito antigo. Eu fazia isso sem perceber. O pequeno objeto dourado era uma das poucas coisas que eu tinha guardado dos meus pais. Não era uma joia cara. Não tinha nenhum valor financeiro. Mas tinha valor suficiente para mim. E isso bastava. --- O Grupo Monteiro era impossível de ignorar. O prédio enorme ficava em uma das áreas mais movimentadas da cidade e parecia sempre estar funcionando em uma velocidade diferente do resto do mundo. Pessoas entrando e saindo. Reuniões marcadas. Telefones tocando. Funcionários andando com pressa pelos corredores. Era um lugar onde ninguém parecia realmente parado. Subi até o décimo oitavo andar e encontrei Lívia exatamente onde eu esperava. Na minha mesa. Com meu café. Parei. — Lívia. Ela levantou os olhos. — Bom dia. Apontei para a caneca. — Esse é o meu café. Ela olhou para a bebida. Depois para mim. — Você tem como provar? — Eu pedi com o mesmo jeito de sempre. — Isso não prova nada. Suspirei. — Você roubou meu café. Ela sorriu. — Trouxe outro. Apontou para a caneca ao lado do computador. Peguei. — Um dia eu vou chegar antes de você. — Você diz isso toda semana. — Porque uma hora vai acontecer. Lívia riu. Ela era uma das poucas pessoas naquele lugar que conseguia me fazer esquecer que estávamos em um ambiente completamente formal. — Alguma novidade? — perguntei. Ela pensou por alguns segundos. — O senhor Monteiro chegou cedo. Olhei para o relógio. — Ele sempre chega cedo. — Hoje chegou mais cedo. — Existe diferença? — Existe. Balancei a cabeça. — Você observa coisas muito específicas. — Alguém precisa. Antes que eu pudesse responder, o corredor ficou mais silencioso. Não completamente. Mas o suficiente para perceber a mudança. Leon Monteiro havia chegado. Ele caminhava em direção à sala dele com a mesma postura de sempre. Elegante. Séria. Impecável. O terno escuro combinava perfeitamente com a imagem que todos tinham dele. Mas havia uma coisa que chamava atenção. Os olhos. Verdes. Extremamente marcantes. Era impossível não reparar. Não porque significasse alguma coisa. Apenas porque eram uma característica difícil de esquecer. Ele parou diante da minha mesa. — Senhorita Duarte. Levantei. — Senhor Monteiro. Ele colocou uma pasta sobre a mesa. — Preciso desses documentos revisados antes da reunião das dez. Peguei a pasta. — Certo. Ele fez um breve movimento com a cabeça. — Obrigado. Entrou na sala. Lívia esperou a porta fechar. — Ele fala tão pouco que eu acho que ele economiza palavras. Olhei para ela. — Você deveria economizar comentários. Ela colocou a mão no peito, fingindo ofensa. — Estou apenas observando. — Você chama fofoca de observação. — Exatamente. Sorri enquanto abria a pasta. --- Minha manhã passou entre documentos, ligações e reuniões. Era o tipo de rotina que algumas pessoas considerariam cansativa. Eu considerava organizada. Gostava de saber exatamente o que precisava fazer. Gostava de resolver problemas antes que eles se tornassem problemas maiores. Talvez fosse por isso que eu me encaixava tão bem naquele trabalho. Leon exigia muito. Mas ele também reconhecia quando alguém fazia um bom trabalho. No início da tarde, ele saiu de uma reunião e deixou uma nova pasta na minha mesa. — Duarte. Olhei para ele. — Sim, senhor Monteiro? — Preciso que revise esses contratos. Peguei os documentos. — Para quando? — Hoje. Assenti. — Vou verificar. Ele voltou para a sala. Lívia apareceu alguns segundos depois. — Ele confia em você. Continuei olhando os papéis. — Ele confia no meu trabalho. — Continua sendo confiança. Não respondi. Talvez fosse. Mas era apenas profissional. Nada além disso. --- Quando o expediente terminou, a maioria das pessoas já tinha ido embora. Lívia se despediu antes de mim. Eu fiquei alguns minutos a mais para terminar os últimos documentos. Quando finalmente desliguei o computador, percebi que a sala de Leon ainda estava iluminada. Não era novidade. Ele costumava ficar até tarde. Peguei minha bolsa e caminhei em direção ao elevador. A porta da sala dele abriu antes que eu chegasse. — Senhorita Duarte. Virei. — Sim, senhor Monteiro? Ele segurava alguns arquivos. — Poderia enviar esses documentos amanhã pela manhã? Peguei a pasta. — Claro. — Obrigado. Assenti. — Boa noite, senhor Monteiro. — Boa noite, Duarte. Entrei no elevador. Mais um dia terminado. Mais uma rotina cumprida. E, naquele momento, nada parecia diferente. Era apenas trabalho. Apenas uma relação profissional. Apenas mais uma noite comum.






