Mundo de ficçãoIniciar sessãoAurora
Eu sempre achei interessante como algumas pessoas conseguiam transformar uma simples reunião em uma situação de vida ou morte. No Grupo Monteiro, isso acontecia com uma frequência considerável. Não porque as reuniões fossem ruins. Na verdade, eram extremamente organizadas. O problema era que algumas pessoas entravam naquela sala esquecendo que Leon Monteiro tinha uma paciência limitada para assuntos sem objetivo. E eu descobri, depois de três anos trabalhando com ele, que uma das minhas maiores funções era impedir que problemas pequenos chegassem até ele. Não porque ele não conseguiria resolver. Ele conseguiria. Esse era justamente o problema. Leon resolvia tudo. Mas, quando algo chegava até ele, normalmente significava que alguém tinha falhado antes. E ninguém gostava de ser essa pessoa. — Você está com essa cara de quem vai enfrentar uma guerra. Levantei os olhos do computador. Lívia estava parada ao lado da minha mesa com duas pastas nas mãos. — Eu estou trabalhando. — Exatamente. Ela colocou uma das pastas sobre a mesa. — Para você, isso é quase a mesma coisa. Peguei os documentos. — A reunião de hoje tem muita coisa. — Com o conselho? Assenti. — E com alguns investidores. Ela fez uma expressão de compreensão. — Então realmente é uma guerra. Ignorei. Mas sorri. Era impossível não sorrir com Lívia. Ela conseguia transformar qualquer situação em algo menos sério. Até trabalhar em uma empresa onde todo mundo parecia estar sempre a cinco minutos de uma crise. — Você sabe que poderia fingir ser uma pessoa normal às vezes, né? Ela levou a mão ao peito. — Eu sou extremamente normal. Olhei para ela. — Você roubou meu café duas vezes essa semana. — Isso não tem relação. — Tem tudo a ver. Ela riu. Antes que eu pudesse responder, meu telefone tocou. O nome na tela fez minha postura mudar automaticamente. Senhor Monteiro. Atendi. — Senhor Monteiro. — Duarte. A voz dele era calma, como sempre. — Preciso que confirme a presença dos participantes da reunião das onze. Olhei para a agenda. — Já estou verificando. — E envie a versão atualizada dos relatórios financeiros. — Vou encaminhar. — Obrigado. A ligação terminou. Lívia me observava. — Eu ainda acho engraçado. — O quê? — Você muda completamente quando fala com ele. Franzi a testa. — Como assim? — Fica mais séria. Olhei para ela. — Eu estou falando com meu chefe. — Exatamente. Balancei a cabeça. — Você pensa demais. — Alguém precisa pensar nessa empresa. Voltei aos documentos. — Você trabalha no setor de comunicação. — Comunicação também é importante. — Você inventa argumentos muito rápido. — Obrigada. — Não foi um elogio. — Eu aceitei como um. --- A reunião das onze ocupou mais tempo do que o planejado. Como quase todas as reuniões importantes. Eu fiquei do lado de fora da sala, acompanhando horários, documentos e todas as pequenas coisas que precisavam acontecer para que tudo funcionasse. Era uma posição que muitas pessoas subestimavam. Mas uma boa secretária executiva precisava saber mais do que marcar reuniões. Precisava entender pessoas. Saber quando interromper. Quando esperar. Quando lembrar alguém de algo antes que fosse tarde demais. E Leon Monteiro era uma pessoa que valorizava eficiência. Quando a reunião terminou, os participantes começaram a sair. Alguns pareciam satisfeitos. Outros pareciam cansados. Um dos diretores passou por mim ajeitando a gravata. — Como ele consegue ficar três horas falando de números sem mudar a expressão? Segurei um sorriso. — Acho que é uma habilidade. Ele riu. — Ou falta de emoção. Antes que eu respondesse, a porta da sala abriu novamente. Leon saiu. O diretor imediatamente ficou sério. Eu precisei esconder o sorriso. Leon olhou para os documentos na minha mão. — Duarte. — Sim, senhor Monteiro? — Preciso que marque uma reunião com o departamento jurídico. Anotei. — Para quando? — Amanhã pela manhã. — Certo. Ele continuou andando. Era assim. Objetivo. Direto. Sem perder tempo. --- No fim da tarde, quando achei que finalmente conseguiria terminar minhas tarefas, recebi uma mensagem de Beatriz. Bia: "Você vai chegar tarde hoje?" Olhei para a pilha de documentos. Eu: "Provavelmente." A resposta veio quase imediatamente. Bia: "Você precisa aprender a dizer não." Sorri. Eu: "Você fala isso como se eu não tivesse trabalho." Bia: "Eu falo isso porque você trabalha demais." Não respondi. Porque talvez ela tivesse razão. Mas eu gostava do meu trabalho. Gostava da sensação de estar construindo algo. Mesmo que fosse apenas uma pequena parte de uma empresa enorme. --- Já passava das sete quando percebi que apenas algumas luzes ainda estavam acesas no andar. Uma delas era a sala de Leon. Eu deveria ir embora. Minha parte estava feita. Mas uma última pasta ainda estava na minha mesa. Um relatório que precisava ser revisado. Suspirei. Cinco minutos. Era o que eu precisava. Sempre eram cinco minutos. E nunca eram. Quando terminei, já passava das sete e meia. Peguei minha bolsa e levantei. Foi quando ouvi vozes no corredor. Parei por um instante. Não por curiosidade. Mas porque reconheci uma delas. Leon. A outra voz era masculina. Mais grave. Mais descontraída. Abri a porta da minha sala apenas o suficiente para ver o corredor. Um homem estava parado próximo à sala de Leon. Eu não o conhecia pessoalmente, mas já tinha ouvido falar dele. Eduardo. O melhor amigo de Leon. Diferente do chefe que eu conhecia todos os dias, Eduardo parecia muito mais acessível. Ele sorria enquanto conversava. Algo raro quando se tratava de Leon. — Você precisa sair mais dessa sala, cara. Eduardo falou. Leon apenas cruzou os braços. — Estou ocupado. — Essa é sempre sua resposta. — Porque geralmente é verdade. Eduardo riu. Foi estranho ver aquela cena. Não porque fosse impossível. Mas porque era diferente da imagem que todos tinham de Leon. Com Eduardo, ele parecia menos distante. Ainda sério. Ainda reservado. Mas diferente. Como se não precisasse manter a mesma barreira. Quando perceberam minha presença, eu imediatamente saí da porta. Não era minha intenção ouvir conversa particular. Voltei para minha mesa. Alguns segundos depois, Eduardo passou pelo corredor. Ele sorriu educadamente. — Boa noite. — Boa noite. Ele foi embora. Pouco depois, Leon apareceu. — Ainda aqui, Duarte? — Estava terminando um relatório. Ele olhou para a pasta na minha mão. — Não precisa ficar além do horário se não for necessário. A frase me surpreendeu um pouco. Não pelo conteúdo. Mas porque muitas pessoas imaginavam que ele não se importava. E ele se importava. Só não demonstrava da forma tradicional. — Eu sei, senhor Monteiro. Ele assentiu. — Bom trabalho hoje. Foi uma frase simples. Mas vindo dele, significava bastante. — Obrigada. Saí da empresa alguns minutos depois. No caminho para casa, pensei em como as pessoas tinham uma visão muito diferente de quem trabalhava no topo. Muitos imaginavam que pessoas como Leon Monteiro eram apenas frias. Distantes. Sem sentimentos. Mas talvez fosse mais complicado que isso. Talvez algumas pessoas apenas não soubessem demonstrar. E talvez fosse exatamente por isso que quase ninguém realmente conhecia Leon Monteiro.






