Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuando abriu os olhos, Karen demorou alguns segundos para se lembrar de onde estava. O quarto grande e luxuoso era o oposto do seu pequeno apartamento.
Ela se vestiu rapidamente e desceu para o andar de baixo.
O café da manhã já estava posto com frutas cortadas, croissants ainda quentes, e uma xícara fumegante à sua espera.
Tudo parecia bonito demais para ser real.
“Dormiu bem?”
A voz de Sebastian veio das sombras do corredor. Ele apareceu logo em seguida, impecável em uma camisa branca, os cabelos úmidos, o mesmo olhar cinzento e impenetrável da noite anterior.
Karen se sentou devagar. “Eu estava nervosa e não consegui dormir.”
“Na próxima vez, peça um comprimido para dormir.”
Ele se sentou diante dela, servindo o próprio café como se estivessem em uma manhã comum, em uma casa comum — como se nada tivesse acontecido.
Karen brincou com a borda da xícara, o estômago embrulhado.
“Eu estava pensando em voltar para o orfanato, se eu explicar a situação eles me aceitariam de volta.”
Sebastian ergueu o olhar, interessado. “Por que você faria isso?”
“Lá é seguro para mim.”
“Não precisa voltar para o orfanato para ter segurança.”
“Não vejo outra alternativa. Não conheço ninguém e não tenho família.”
Ele se recostou na cadeira, estudando-a por um instante que pareceu longo demais. Então disse, com a mesma naturalidade de quem comenta o tempo:
“Case-se comigo.”
Karen piscou, sem entender. “O quê?”
Sebastian levou a xícara aos lábios.
“Você quer segurança. Eu preciso de uma esposa. É simples.”
O ar pareceu sumir da sala.
Ela o encarou, tentando decifrar se aquilo era uma piada.
“Você... não está falando sério.”
“Estou.” Ele apoiou o copo, os olhos fixos nela. “Não há nada mais seguro do que ser minha mulher.”
O som do relógio na parede foi o único ruído entre eles.
Karen sentiu o coração disparar, mas não sabia se era medo, incredulidade ou algo mais perigoso ainda.
“Isso não faz sentido, Um homem como você deve ter dezenas de mulheres. Eu não vou ser boba novamente.”
Karen levantou-se de um salto, as pernas ainda bambas, e foi em direção à porta. Ela tinha certeza de que Sebastian e Peter eram cúmplices — duas faces do mesmo plano — e que ele também queria enganá-la.
“Karen, eu sei que parece loucura, mas não é. A família Sterling me aceitaria se eu me casasse.” A voz dele manteve a calma, mas havia algo por trás dela, era uma pressão sutil, como o ar antes da tempestade.
Ela passou a mão pelo braço, tentando afastar o tremor.
“Nós nem nos conhecemos. Como posso confiar em você?”
Ele não se levantou de imediato. Ficou observando-a, os olhos cinzentos avaliando cada movimento, como se decifrasse uma equação. Finalmente, levantou-se devagar e foi até a janela; as cortinas filtravam a luz e desenhavam listras sobre o terno escuro.
“Não seria um casamento real, não vamos dormir na mesma cama,” disse ele, cada palavra medida. “Seria um casamento de mentirinha. Até as coisas se acalmarem, até a situação da Lindsay se resolver, ou ela morrer.”
Ela virou o rosto, incapaz de aceitar a frieza prática com que ele tratava a vida alheia.
“Não quero que ela morra.” A frase saiu pequena, impossível de esconder.
Sebastian fechou os olhos por um instante, como quem pesa uma decisão. Quando os abriu, não havia ternura — apenas uma honestidade fria.
“Eu não quero que ela morra, mas a vida não é justa. Se eu me casar com você, te dou proteção legal, abrigo, acesso a recursos. Peter não ousará te tocar.”
Ela riu, mas era um som quebrado.
“Você oferece prisão com laço de ouro como se fosse salvação.”
“Chame do que quiser. Eu chamo de sobrevivência.”
“E depois?” ela perguntou, a voz quase sussurrada.
Ele sorriu como se fosse um anjo.
“Depois você terá a sua de volta.”
Ela pensou no orfanato, na Senhora Malcolm, na promessa de independência construída com tanto esforço.
“E se eu recusar?”
Sebastian inclinou a cabeça, avaliando.
“Você volta para o orfanato e espera que Peter não te encontre. E em poucos dias você vai acordar numa banheira cheia de gelo, ou nem vai acordar mais.”
Silêncio.
As palavras de Peter ecoaram na cabeça dela, as vozes dos corredores do hotel, a risada falsa de cortesias e promessas. Ali, na sala impecável, a verdade parecia um rumor: frágil e fácil de apagar.
Karen sentiu a garganta secar. Não sabia se o que vinha depois seria menos perigoso que o que já havia acontecido. Mas sabia que fugir de novo significava voltar ao ponto de partida, ou talvez para algo pior.
Ela engoliu em seco e, sem responder, sentou-se de novo. As mãos tremiam, mas estava decidida a ouvir tudo até o fim. Sebastian observou-a por um segundo, então falou baixinho, quase como quem fotografa um momento.
“Por que está fazendo isso?”
Ele colocou o pingente sobre a mesa.
“Por isso! Eu sei o quão cruel os Starling são. Karen nós dois somos iguais, somos dois sobreviventes.
Karen tocou a própria medalhinha.
“Eu não sei.”
“Se aceitar, vamos a um cartório. Assinamos um acordo pré-nupcial. Tudo legal, tudo transparente. E enquanto isso, eu mantenho você aqui. Ninguém te toca.”
Karen fechou os olhos por um segundo, imaginando o orfanato, o quarto pequeno, o banco vazio. Quando abriu os olhos de novo, havia algo frio e resoluto na sua face.
“Você me dá garantia escrita?” perguntou ela.
Sebastian sorriu, um sorriso sem afeto, e pegou uma caneta da mesa. “Posso dar o contrato.
Ela respirou fundo. A escolha era uma linha fina sobre um abismo. E, por mais que a idéia de casar por conveniência a enojou, a palavra “segurança” soou, pela primeira vez desde a noite anterior, como uma promessa possível e mortalmente tentadora.
“Karen, você aceita se casar comigo?”
A pergunta pairou no ar como uma sentença.
O coração dela batia alto demais, abafando qualquer pensamento racional. Tudo o que via era a promessa de segurança, de paz, de alguém que não a deixaria sozinha de novo.“Eu… aceito.”
Sebastian inclinou levemente a cabeça, o olhar impassível — como quem conclui um negócio, não um destino.
Karen acreditou que estava sendo salva por um anjo.
Mas, sem saber, acabava de dar as mãos a outro demônio.







