O Coração de Pedra
Rocco Mancini
O silêncio finalmente retornou ao meu escritório, mas a tensão que ele continha era mais alta do que qualquer ruído. Eu estava de pé, observando o lugar onde Scarlett, a babá, tinha estado. Eu a tinha forçado a ficar, e o motivo era simples e humilhante: o bastardo, Luigi, que eu me neguei a conhecer.
Eu não podia amar aquela criança, ela seria usada contra mim se eu me permitisse ter essa fraqueza.
A cena anterior ainda queimava na minha mente: a minha própria incapacidade de olhar uma criança que tinha meu sangue. Eu, Rocco Mancini, futuro Dom, controlado por um bebê de poucos meses. Era uma ironia cruel que não podia ser tolerada.
O Dom não tem coração. O Dom tem controle.
Eu repeti o mantra em minha mente, tentando sufocar o impulso estranho que havia surgido em ver a criança, e em calar aquela mulher. A babá. Scarlett.
Ela não era como as mulheres que circulavam em meu mundo. Não era polida e submissa como as outras. Ela era pequena, mas irradiava uma força silenciosa. Seus olhos castanhos eram desafiadores, mas havia uma tristeza submersa neles que me intrigou. Quando ela me encarou, perguntando se eu não iria conhecer o bebê, havia fogo. Um fogo que eu queria apagar e acender ao mesmo tempo
E então, houve a atração. Brutal e inegável.
A atração por uma mulher que se recusava a se submeter, que tinha peito para me enfrentar. Ela vestia roupas simples e amassadas de viagem, mas havia uma beleza crua e incomum em seu rosto, na forma como ela segurava o bebê com uma naturalidade que me era completamente estranha. Um erro. Ela era um erro que se somava à complicação de Luigi. Um problema duplo que eu tinha que neutralizar.
Proibida. A palavra ecoou na mesma frequência que Scarlett. Eu poderia ter todas as mulheres que desejava, menos a que era responsável por um ser que podia acabar com tudo!
Eu não podia me dar ao luxo de fraquezas, muito menos de luxúrias. Finalmente teria o meu legado; a passagem de poder estava iminente. Eu já mandava em tudo, meu pai somente fazia parte da mobília, mas o título, o anel, ainda não estavam em minha posse.
Então engolir a atração era necessário.
Ela era apenas uma ferramenta para ocultar da minha vida o bebê. Nada mais.
O pior era que somente ao senti a presença dele, algo que nunca senti floresceu. Um tremor no meu peito, um despertar de algo antigo e adormecido. Um reconhecimento visceral. Ele era pequeno, perfeito, com um tufo de cabelo escuro, foi o que eu consegui ver de longe. Ele era a prova do meu descuido, mas também a extensão do meu sangue.
Por um breve momento, a frieza do Dom vacilou. Pensei no que teria sido se a mãe dele tivesse vindo até mim, se o mundo fosse diferente, se eu fosse um homem diferente.
Cazzo!
Eu afastei o pensamento com a mesma força que afastava a dor. Não há ‘se’. Há o que é. E o que é, é que ele é um risco. Uma bomba-relógio que Marco, meu primo, mataria para desarmar.
Eu apertei a borda da mesa. O Dom não tem coração. O Dom tem apenas responsabilidade e poder. Eu faria o que fosse necessário. Luigi existia, e isso significava que ele era agora minha responsabilidade. Eu o protegeria, mas o manteria nas sombras. Ele nunca saberia quem eu sou, e eu nunca saberia quem ele poderia ter sido.
- Matteo. - Eu chamei minha voz voltando ao tom de comando frio. - Certifique-se de que a babá e o bebê estejam em uma ala isolada. Longe de qualquer tráfego da família. Especialmente... longe de Marco.
- Considere feito chefe. – Matteo se vai e eu fico com as minhas responsabilidades que não podem me esperar fraquejar.
Por mais que eu não pudesse, não quisesse ou devesse. Aquela criança era a minha responsabilidade, e consequentemente a babá também.
Tentei voltar para a minha rotina normal, somente caminhava até o outro lado da mansão para ouvir a babá cantando músicas de ninar para o meu filho, ou ver ela pegar vários cobertores. Colocar em frente a janela, e colocar o pequeno para tomar banho de sol.
Luigi colocava a mão na boca, enquanto ela o admirava somente por ser um bebê. Um bebê inocente e esperto.
Meus pensamentos foram substituídos quando ouço a sua voz. Scarlett tinha sua atenção voltada para mim agora.
- Posso levar o Luigi para passear lá fora? - Olho para ela tentando entender o que ela quer de fato. - Ele precisa pegar sol, precisa respirar ar puro... - Ela se cala ao olhar dentro dos meus olhos.
Isso não poderia acontecer, eu não podia dar margens para ser descoberto.
- Aqui tem sol, porque ir lá fora? - Ela engole seco.
- Porque o sol é bom... - Seu tom de voz vacilava entre receio e certeza de estar fazendo o certo. - Fora que lá, em um ambiente aberto, o Luigi poderia ver as flores, sentir o ar puro e até... - A interrompi.
Não podia permitir isso, de jeito nenhum.
- Não! - Digo seco.
Ela vacila, mas faz a pergunta mesmo que seu medo ainda esteja em seu olhar.
- Porque?
Eu entro no quarto devagar, medindo cada centímetro que nos separava como se fosse uma luta que eu não deveria estar lutando, e sim, aniquilando.
- Porque essa criança não pode ser vista por ninguém, Scarlett. - Falo como se fosse um fato que não era difícil de entender. - Ninguém da minha família pode saber que eu tenho um bastardo como filho. No meu mundo, não podem existir filhos fora do casamento.
Vejo a decepção em seus olhos, estou sendo duro, mas não sei ser diferente.
- Se ele ainda está vivo, é porque ninguém faz ideia que ele existe jovem. - Ela me olha com os olhos marejados. - Se fosse outro naquela porta, vocês não estariam vivos agora.
Ela engole seco começando a entender onde tinha se enfiado até o pescoço.
- Sua família é tão cruel assim ao ponto de matar um inocente? - Não respondi, olhei dentro dos seus olhos.
Minha "família" era capaz de fazer tudo, até matar um inocente por poder. Era isso que eu precisava que ela entendesse o quanto antes.
- Na máfia não tem espaço para bastardos, Scarlett. Se descobrirem sobre Luigi, a vida dessa criança vai ser um inferno. - Digo por fim. - Então é melhor ele viver em um quarto de luxo, do que correndo perigo lá fora no sol brilhante. - Ela me olha séria, e enxuga uma pequena lágrima que escorreu em sua bochecha. - A tradição e leis são levadas muito a sério, e meu pai, o Dom, nunca iria permitir que eu tivesse um filho fora do casamento. Se alguém descobrir e contar para ele, Luigi pode sofrer muito, ou até... - Ela agora chorava.
- Entendido?- Me levanto. - Você não está em um lugar onde o sol é necessário para a saúde dessa criança. Você está presa em um lugar para que essa criança possa respirar amanhã, e não seja assassinado.
- Entendeu agora onde se enfiou? - Ela olha para a criança.
- Sim, Senhor Mancini.
- Boa resposta. - Saio do quarto acreditando que deixei tudo explicado da melhor forma possível.
Eu preciso que ela tenha medo, que ela entenda quais são os riscos que estamos correndo aqui.
Que Luigi é um erro que precisa se escondido, que se ele não for protegido, ele vai acabar morrendo.