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02_uma determinação Nova

O Peso de uma Dívida

Alessia era a personificação de um sonho dourado. Seus olhos, da cor do céu num dia sem nuvens, contrastavam com os cabelos que capturavam todos os raios de sol. Sua pele, alva e imaculada como porcelana, fazia com que até as outras damas da alta sociedade susurrassem de inveja. Com uma beleza tão descomunal, todos diziam que ela poderia facilmente trocar os salões nobres pelos palcos, se assim desejasse.

Quando seus pais pereceram no naufrágio do "Maré Dourada", meu pai, irmão de sua mãe, foi consumido por uma culpa tão profunda que a trouxe para nossa casa direto do enterro. Eu era jovem demais para entender a complexidade daquela dor, mas velha o suficiente para perceber o olhar que ela me dirigia—um lampejo de pura rancor que sempre se dissolvia em doçura artificial na presença de outros.

Uma memória, nítida e dolorosa, surgiu diante de meus olhos enquanto eu a observava com Jonas...

Tinha oito anos. O café da manhã na varanda envidraçada era meu momento favorito, um breve período de calma antes dos tutores e das lições. Alessia já estava conosco há algumas semanas.

Minha mãe, Sally, com olheiras profundas mas um sorriso terno, estendeu-me um embrulho simples. —Aqui, meu amor. Seu presente de aniversário. Desculpe não ter tido muito tempo esses dias, mas espero que goste.

Eram luvas de tricô, finamente elaboradas. Eu sabia que ela sacrificara noites de sono para tricotá-las. Um sorriso de orelha a orelha estampou-se em meu rosto. Lancei-me em seus braços, agradecendo effusivamente.

A voz de Alessia cortou o ar, aguda e exigente: —Tio, eu quero luvas feitas pela tia também!

Meu pai, Marcos, fitou-a com uma expressão que não entendi na época—uma mistura de pena e obrigação. —A Sally fará um par para você, querida. Na primavera.

Minha mãe, ainda paciente, confirmou: —Sim, querida. Na primavera, farei um par lindo para você.

O rosto de Alessia contorceu-se. —Só na primavera? Mas...

Lágrimas começaram a rolar por suas faces imaculadas, uma performance perfeita de abandono. Meu pai, movido por uma culpa que eu só compreenderia anos depois, voltou-se para mim com uma dureza que nunca antes dirigira a mim: —Sophia, dê as luvas para sua prima. Sua mãe fará outras para você.

O mundo parou. Olhei para minha mãe, meus olhos suplicando. —Mãe...

Ela olhou para meu pai, incredula. —Marcos, ela não precisa entregar nada. São dela.

A voz do meu pai elevou-se, grave e implacável: —Sophia, você não ouviu o que eu disse?

O coração partiu-se. Eu amava aquelas luvas, mas odiava mais ainda o conflito. Estendi-as para Alessia. Ela as pegou, e seu pranto transformou-se instantaneamente num sorriso triunfante. Saiu saltitando da mesa, sem um olhar para trás.

Minha mãe, com uma calma perigosa, pediu-me: —Filha, meu amor, pode nos dar licença?

Ao sair, ouvi o estrondo de vidros quebrando. Olhei para trás e vi a toalha da mesa puxada, todo o café da manhã destruído no chão. A voz da minha mãe, tremula de raiva, ecoou: —Estive sendo paciente com você, Marcos, mas isso é demais!

— O que pensa que está fazendo? — rugiu meu pai.

— Você perdeu o irmão e se sente culpado, mas essa menina é mimada e manipuladora! Se continuar a cedendo, só Deus sabe no que ela se tornará!

— O que você sabe sobre educar crianças? — ele retrucou, amargo. — Não viu como Sophia demorou para dar as luvas? É egoísta!

— Era o presente DELA, Marcos! Você está ficando louco!

Saí correndo, a discussão pairando como uma nuvem negra atrás de mim. E no corredor, escondida atrás de uma estátua, estava Alessia. Ela não chorava. Um sorriso assustador, de pura satisfação, curvava seus lábios. Ela ouvira tudo. E se alegrava com isso.

Volto ao presente, à varanda, testemunhando aquele mesmo sorriso de vitória nos lábios de Alessia enquanto Jonas a beijava.

— Não podemos, Jonas — ela murmurou, entre um beijo e outro, sua voz um falsete de virtude. — Você está noivo. E eu também.

O ar de ingenuidade era tão falso quanto a piedade que ela demonstrava.

— Você nunca amou Philip de verdade — Jonas insistiu, suas mãos percorrendo suas costas. — Caso contrário, não teria me procurado. Além disso, já falei com Sophia. Vamos cancelar o noivado.

Ela afastou-se um pouco, seus olhos azuis faiscando de cálculo.

— Você é um idiota? Não pode romper com ela. Sabe quanto aquela garota vale. E eu não vou romper com Philip... ele é como um pombo domesticado. Gosto de brincar com ele.

A frieza da declaração atingiu-me como um balde de água gelada. Eu sempre suspeitara que Alessia não era a santa que Philip julgava, mas nunca imaginei uma crueldade tão calculista. Ela admitia, sem pudor, que brincava com seus sentimentos.

Isto é culpa minha. O pensamento surgiu, cortante. Se eu tivesse confrontado-a na época, se não tivesse sempre cedido, entregando tudo de mão beijada... Philip não estaria tão enredado em suas garras.

Philip. Meu primeiro amor. Eu engoli todos os meus sentimentos por ele porque acreditei, ingenuamente, que ele amava Alessia. Ela me dissera que seu coração acelerava por ele, e eu, tola, aceitei aquilo como verdade. Afastei-me abruptamente, numa tentativa errônea de me proteger da dor de ser a segunda opção, a sobrante que sempre sobra.

Mas agora... agora ela o chamara de "pombo domesticado". Um brinquedo. E me chamara de "pote de ouro". Uma transação.

A raiva que surgiu dentro de mim não era pelo noivado desfeito com Jonas. Era por Philip. Por sua honra, por seu coração gentil que estava prestes a ser esmagado por aquela víbora dourada.

Ela sempre fez o que quis. Mas não desta vez. Não com ele.

Voltei a prestar atenção aos dois. Estavam agora num emaranhado de membros e roupas desfeitas, os suspiros de Alessia ecoando na noite quieta. As mãos de Jonas vagavam sob suas saias, e eu não precisava ver mais para entender a profundeza da traição.

Levantei-me silenciosamente, afastando-me daquela cena repugnante. Seus murmúrios e gemidos se dissiparam atrás de mim enquanto eu caminhava, com passos firmes, em direção ao meu quarto.

Ao fechar a porta, a quietude do meu santuário envolveu-me. Encostei-me na madeira sólida, meu coração batendo forte não de angústia, mas de determinação.

— Tudo bem, Sophia — disse em voz alta, para mim mesma, a voz soando estranhamente confiante no silêncio. — Você já se decidiu. Vai tirar Philip das garras venenosas de Alessia.

Era um juramento. Uma promessa que ecoou nas paredes vazias.

O problema era que, no fundo, eu não tinha a menor ideia de por onde começar.

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