Cristiane se levantou e caminhou até a janela.
Bruno, nervoso, a seguiu imediatamente.
— Sra. Cristiane, por favor, não faça nenhuma besteira. O Sr. Vinícius me pediu pessoalmente para garantir a sua segurança.
O olhar de Cristiane atravessava o vidro e se fixava no enorme outdoor do outro lado da rua. Vinícius, vestindo um terno sob medida, aparecia ereto e impecável. Ao lado dele, a modelo elegante era Jaqueline Souza, herdeira do Grupo Souza.
O mundo inteiro dizia que os dois formavam um casal perfeito: ele, brilhante; ela, deslumbrante.
E ela… Ela, a esposa secreta de Vinícius, era uma existência que ninguém conhecia.
Bruno lançou um olhar culpado para o outdoor e tentou, com extrema cautela:
— Sra. Cristiane, o Sr. Vinícius só está propondo um divórcio de fachada. Depois de assinado, sua vida continuará exatamente igual. Quanto à Srta. Jaqueline… Tudo é apenas para facilitar a abertura de capital da empresa. Além disso, o Sr. Vinícius garantiu que, assim que a senhora assinar, receberá cinquenta por cento das ações.
Aquele discurso… Ela já ouvira tantas vezes que perdera a conta.
— Eu assino.
Cristiane o interrompeu. A voz dela era suave e firme ao mesmo tempo.
O advogado, pego de surpresa, ficou primeiro boquiaberto. Logo, seu rosto se abriu em um sorriso aliviado.
— Sra. Cristiane, finalmente a senhora entendeu.
Cristiane segurou a caneta e escreveu seu nome no acordo de divórcio. A ponta de seus dedos tremia de leve. Aquela caneta pesava como se fosse feita de chumbo. Cada traço parecia uma lâmina cega abrindo sua carne. Era apenas um nome, mas, para ela, parecia que escrevia havia um século.
Assim que ela colocou o último ponto, o advogado puxou o documento quase com ansiedade.
— Sra. Cristiane, então eu não vou mais atrapalhar.
A porta se fechou com força.
Cristiane despencou no sofá como um peixe morto, esvaziada de alma e força.
A televisão transmitia as notícias do momento.
— Segundo informações, o Grupo Ribeiro, fundado pelo renomado empresário Vinícius, concluiu com êxito o processo de IPO. Após a auditoria financeira, a empresa deverá abrir capital oficialmente dentro de um mês. A estimativa é que o valor de mercado alcance dez bilhões de dólares, tornando o Sr. Ribeiro o homem mais rico da cidade A.
A imagem então mudou para Vinícius. Seu rosto, marcado por traços fortes e simétricos, ocupava a tela com uma presença quase avassaladora. Ao encarar a câmera, ele exalava a confiança de alguém acostumado ao topo, com a dose exata de arrogância charmosa.
— Sr. Ribeiro, quem é a pessoa que o senhor mais gostaria de agradecer por este marco na história da empresa? — Perguntou o apresentador.
Os olhos de Vinícius brilharam de imediato, tomados por uma emoção que parecia transbordar. Ele virou o rosto e lançou um olhar intenso para Jaqueline, ao seu lado.
— Claro que preciso agradecer à minha parceira de confiança, Jaqueline. Sem ela, eu não seria quem sou hoje.
Jaqueline baixou o olhar, corada, como se carregasse uma timidez cuidadosamente ensaiada.
— Circulam muitos comentários dizendo que o senhor e a Srta. Jaqueline formam um par perfeito. O senhor pensa em se casar com ela? — O apresentador prosseguiu.
Vinícius sorriu, direto para a câmera:
— Essa pergunta eu ainda não posso responder com certeza… Porque eu não sei se a Jaque me daria essa chance.
A plateia irrompeu em gritos e aplausos.
— Meu Deus, ele é a definição de um CEO dominante! Até declarando amor o homem arrasa.
— Gente, isso tá com cara de novela demais! O magnata e a herdeira… Eu shippo sem vergonha nenhuma.
— As fofocas eram verdadeiras mesmo! Hoje estamos sendo alimentados com muito amorzinho.
Cada frase que saía da televisão era como uma lâmina gelada, afiada o suficiente para perfurar direto o peito de Cristiane. A dor se espalhava por todo o seu corpo, infiltrando-se nos ossos.
As lembranças vieram como uma maré violenta, inundando sua mente.
Há dez anos, Vinícius e Cristiane viviam um apoiando o outro, como se fossem o único porto seguro um do outro.
Nos dias mais difíceis, uma simples tigela de arroz frito com ovos precisava ser dividida em quatro refeições para sustentar os dois.
Para que Vinícius continuasse estudando, Cristiane abrira mão da própria vaga na universidade. Trabalhava em três empregos ao mesmo tempo, sozinha, sem reclamar. Para juntar a mensalidade do curso o quanto antes, chegara a vender sangue no hospital. O corpo já frágil não aguentara tanta perda. Assim que saiu do centro de doação, desmaiou na calçada.
Vinícius chegou correndo, desesperado, e a tomou nos braços. As lágrimas, quentes e abundantes, caíam sobre ela. Cristiane levantou a mão, enxugou o canto dos olhos dele e exibiu as notas amassadas na outra mão com um sorriso radiante:
— Vini, agora você tem dinheiro pra estudar.
O garoto ainda imaturo jurou, com uma convicção que parecia eterna, que um dia, quando se tornasse alguém importante, daria a ela a vida com que todas as mulheres sonhavam.
Quando Vinícius conseguiu seu primeiro emprego após a faculdade, eles foram juntos ao cartório e se casaram.
— Cris, nossos dias bons finalmente vão começar. Você não vai precisar se matar de trabalhar nunca mais. Quando eu tiver dinheiro, vou te dar o casamento mais grandioso que já existiu.
Naquela noite, eles se amaram como se fossem duas flores abertas no meio da escuridão. Ardentes, urgentes, inseparáveis, como se pudessem se fundir em um único corpo.
Depois, a carreira de Vinícius só subiu. A passos largos. Cristiane nunca mais precisou se preocupar com dinheiro. Mudara-se para uma mansão, saía em carros de luxo e sempre havia alguém para cuidar da casa quando ela voltava.
Mas havia um único detalhe que nunca mudava: Vinícius jamais assumira publicamente que ela era sua esposa.
E ela seguia esperando. Esperando o dia em que ele cumpriria aquela promessa sussurrada entre lágrimas e sonhos de juventude.
Porém, o que finalmente chegou não foi o casamento que ela imaginou a vida inteira. Foi o acordo de divórcio, escrito de próprio punho por Vinícius. Uma vez, outra vez e mais uma. Mesmo quando ela ameaçava a própria vida, Vinícius não recuava.
— Cris, é só um divórcio de fachada. Fica tranquila, eu jamais te abandonaria. Mas, para a empresa abrir capital, precisamos do apoio da família Souza. A Jaqueline não pode saber que sou casado. Muito menos saber da sua existência.
Todas as vezes, era o mesmo discurso. A mesma mentira repetida até virar rotina. Toda a sua luta, toda a sua resistência, toda a sua dor… Aos olhos de Vinícius, nada disso passava de birra, um obstáculo inconveniente que atrasava o caminho dele rumo a um sucesso ainda maior.
Na televisão, a câmera focalizava Jaqueline. Ela sorria com suavidade, o olhar cheio de charme. Ao ajeitar o cabelo de maneira quase displicente, deixou à mostra o enorme anel de diamante em seu dedo anelar.
— Obrigada pela preocupação com a minha vida com o Vini. Se houver alguma novidade, prometo que todos saberão.
A plateia voltou a explodir em aplausos.
Cristiane baixou a cabeça e encarou a aliança simples em seu próprio dedo. Um gosto amargo, sem fim, espalhou-se por seu peito. Naquele instante, ela finalmente entendeu: tudo o que ela desejou, Vinícius já tinha dado a outra pessoa. E tudo o que Vinícius queria… Ela não tinha como oferecer.
Eles já não caminhavam na mesma direção havia muito tempo.
Que divórcio de fachada que nada. Se era para se separar, que fosse de verdade: limpo, definitivo, irreversível.
Cristiane pegou o celular e discou para um número internacional.
— Tia, eu já decidi. Quero ir morar com a senhora no exterior.
Do outro lado da linha, a voz demonstrava surpresa:
— Cris, tem certeza? Você não dizia que queria ficar com aquele seu marido tão promissor?
Cristiane ficou em silêncio por um longo tempo, até finalmente responder:
— Eu me divorciei dele.
— Melhor assim. Um homem que te deixa às sombras, que nem te dá um nome decente… Isso é coisa de quem já tem outra. Deixe para lá. Venha comigo. Coincidentemente, no mês que vem volto ao país para auditar uma empresa que vai abrir capital. Quando terminar, levo você comigo.
— Está bem, tia.
Mônica, tia de Cristiane, era diretora de uma empresa global de auditoria, especialista em analisar a saúde financeira de corporações prestes a entrar na bolsa. O trabalho era intenso, quase devorador. Justamente por isso, desde que encontrara Cristiane anos atrás, nunca conseguira tempo para conhecer Vinícius pessoalmente.
E agora, pelo visto, não precisaria mais.