NO LIMITE DO DESESPERO

 Luciana Moreno

Há dias em que a vida parece feita de portas fechadas.

Hoje é um deles.

O relógio marca 9h15 e já estou sentada na poltrona dura do banco há mais de uma hora, observando os ponteiros se arrastarem.

 O ar-condicionado sopra frio demais, as pessoas conversam em voz baixa, e eu tento ignorar o nó na garganta. 

Tenho nas mãos uma pasta gasta com todos os exames da Sofía, o orçamento do hospital e uma pilha de documentos que provam o quanto estou afundada.

—Senhora Moreno?

Levanto de imediato, ajeitando o casaco puído.

 O gerente, um homem de sorriso mecânico e olhos que não olham de verdade me conduz até uma sala envidraçada.

Ele analisa as folhas, faz algumas anotações, e depois me encara com o mesmo olhar vazio de sempre.

—Infelizmente, o sistema não autoriza o crédito solicitado.

–Mas eu, eu tenho salário fixo, sou funcionária registrada…

—Sim, mas o valor pedido ultrapassa a margem possível para o seu perfil. 

—O banco precisa garantir segurança, entende?

Segurança!

A palavra me corta como faca.

—É a vida da minha filha! Murmuro, a voz falhando. 

–Ela tem quatro anos! 

—Eu juro que pago!

—Faço qualquer coisa!

Ele desvia o olhar, desconfortável. 

—Sinto muito, senhora Moreno. Posso tentar uma linha menor de empréstimo.

—Uma linha menor não paga o tratamento.

O homem suspira, sem emoção.

—Talvez procurar ajuda de familiares?

Rio, amarga. 

—Não tenho ninguém.

Ele não diz mais nada.

Apenas me estende o papel com a negativa e me deseja um bom dia.

Saio do banco com as pernas trêmulas. 

Lá fora, o sol queima, mas dentro de mim só há frio.

Abro o celular e vejo uma mensagem da professora de Sofía: 

—Ela vomitou novamente. Acho melhor levá-la ao médico.

Sinto o chão sumir.

Pego o primeiro ônibus. 

No caminho, meus pensamentos se embaralham.

Quantas vezes uma mãe precisa se humilhar até o destino sentir pena?

Sofía é tão pequena... tão frágil.

 Às vezes, quando ela dorme, eu fico olhando as mãozinhas miúdas, o peito subindo e descendo devagar, e penso que não posso perdê-la. 

Eu simplesmente não posso!

O hospital já me avisou: 

O tratamento precisa começar em breve. 

Quanto mais demoro, mais arrisco tudo.

E eu não tenho de onde tirar aquele dinheiro.

Chego em casa com o coração acelerado. 

Sofía está deitada no sofá, pálida, mas sorri quando me vê.

—Mamãe... você trouxe suco?

—Trouxe sim, meu amor.

Ajeito o cobertor sobre ela e escondo o tremor das mãos.

Enquanto preparo algo leve na cozinha, o telefone toca.

É Mariana, uma antiga colega da faculdade.

—Luci! Quanto tempo! Eu soube do que aconteceu com a Sofía, sinto tanto, querida.

A voz doce dela soa distante, condescendente.

—Obrigada, Mari.

—Ouvi dizer que você está trabalhando pro Gutiérrez, não é?

— O homem de ferro!

—Sim.

—Olha, talvez eu consiga te ajudar. 

—Falei com o diretor da clínica onde trabalho. Ele pode dar um desconto, mas ainda assim... 

—É caro.

Respiro fundo. 

—Eu agradeço, Mari. Qualquer coisa ajuda.

—Claro. Mas você ainda mora naquele bairro? 

—É perigoso demais. Você devia pensar em mudar.

Ela continua falando, mas eu já não ouço.

Não é o bairro o problema.

 É o mundo!

Desligo e volto para Sofía.

Ela dorme, o rosto sereno. Sento ao lado dela, passando os dedos pelos cabelos finos. 

O coração dói tanto que chega a fisgar.

Penso novamente em vender o carro, aquele velho sedã que mal anda.

 Penso em pegar outro empréstimo. 

Penso em pedir ajuda ao meu chefe.

Mas o orgulho grita mais alto.

Leonardo Gutiérrez é um homem frio.

Rico, inacessível, acostumado a mandar.

Ele nunca entenderia o que é implorar.

Na manhã seguinte, chego atrasada pela segunda vez em anos. 

A chuva transformou as ruas em rios. 

Entro na empresa encharcada, tentando parecer normal.

—Senhorita Moreno, o senhor Gutiérrez pediu para vê-la assim que chegasse. Diz Helena, a assistente dele.

—Agora?

—Agora.

Meu estômago se contrai.

Entro na sala e o vejo de costas, observando a cidade através das janelas de vidro.

 Ele parece uma pintura:

Impecável, imóvel, poderoso.

—Desculpe o atraso. Digo, com a voz contida.

Ele se vira, e o olhar dele me atravessa.

—Tudo bem com sua filha?

Congelo.

Por que ele está perguntando isso?

—Está, está sim.

Ele franze o cenho. 

—Você parece cansada.

—Foi uma noite difícil.

—Quer tirar o dia de folga?

—Não posso. Preciso do salário inteiro.

Há um silêncio estranho entre nós. 

O tipo de silêncio que pesa.

—Luci. Ele nunca me chama assim 

— Se precisar de algo, me avise.

Forço um sorriso. 

—Obrigada, senhor, mas não é necessário.

Ele parece querer dizer mais, mas se cala.

O dia arrasta-se devagar. 

Cada ligação, cada relatório, cada e-mail parece pesar toneladas.

No fim do expediente, espero todos irem embora antes de sair.

Não quero que ninguém me veja chorar.

Mas quando chego ao estacionamento, o mundo desaba.

Encosto no carro e deixo que as lágrimas venham. 

Não dá mais para segurar.

Choro até o peito doer, até a respiração falhar.

Choro como mãe, como mulher, como alguém cansada de lutar sozinha.

Lembro das palavras do médico 

— Há chances, mas o tratamento é caro.

Lembro do gerente do banco, da amiga com pena, da febre da Sofía.

E então lembro de mim mesma, sentada diante de Leo Gutiérrez, tentando parecer profissional quando tudo que eu queria era pedir ajuda.

A chuva cai de novo, fina e fria.

Ninguém por perto. Ninguém para ouvir.

Respiro fundo, tentando recompor o rosto, mas sei que estou derrotada.

Entro no carro e fico ali, imóvel.

De repente, sinto um arrepio.

É a estranha sensação de estar sendo observada.

Olho ao redor, mas o estacionamento está vazio.

Não vejo nada além das luzes refletindo no asfalto molhado.

Ligo o motor e vou embora.

Não percebo que, lá de cima, atrás de uma cortina de vidro, há alguém que me observa em silêncio.

Chego em casa tarde. Sofía está acordada, brincando com um ursinho.

—Você chorou, mamãe?

Congelo.

—Não, amor.

—Seu olho tá vermelho.

Sento-me ao lado dela e sorrio, mesmo que o coração esteja despedaçado.

—Foi o vento, meu anjo.

Ela me abraça, e o calor do corpinho dela me desmonta.

—Vai ficar tudo bem, né, mamãe?

A pergunta simples, dita com tanta confiança, me quebra por dentro.

—Vai sim, meu amor.

Eu minto, porque as mães mentem quando precisam dar esperança.

Quando ela dorme, volto à sala e olho os papéis sobre a mesa.

Os números não fecham, as contas não param, e o tempo corre contra nós.

Mas uma frase do meu chefe ecoa na mente, insistente, como se quisesse me perseguir:

"—Se precisar de algo, me avise."

Talvez ele não tenha dito por dizer.

Talvez...

Fecho os olhos e respiro fundo.

Amanhã, eu ainda não sei o que farei.

Mas sei que hoje cheguei ao limite.

E quando a alma encosta no abismo, ou a gente cai... ou aprende a voar.

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