A PROPOSTA

 

Luciana Moreno

Nunca pensei que um dia eu seria chamada à sala do meu chefe como quem é levada ao tribunal. 

Quando a secretária pessoal de Leonardo Gutiérrez me pediu para entrar, minhas mãos suavam tanto que deixei marcas de dedos na pasta que carregava.

 Havia revisado três relatórios antes de subir, tentando me convencer de que era apenas mais uma reunião, mas o modo como ela evitou olhar nos meus olhos denunciava que não era.

A porta fechou atrás de mim com um clique seco, e o silêncio que se instalou me deu vontade de correr. 

Leo estava de costas, observando a cidade pela enorme parede de vidro. 

O terno escuro, o relógio caro, a postura ereta, ele parecia uma estátua moldada pela perfeição e pela frieza.

— Sente-se, Luciana.  A voz dele soou firme, sem emoção.

Obedeci, sentando-me com cuidado, como quem pisa em vidro. 

O som do relógio de parede marcava cada segundo do meu desconforto.

 Ele se virou lentamente, os olhos castanho-escuros encontrando os meus como se quisessem atravessar cada camada da minha alma.

— Eu analisei o seu pedido de adiantamento. 

— Ele começou, sem rodeios. 

— E também as movimentações do seu salário nos últimos meses.

Meu coração gelou.

— Senhor Gutiérrez, eu… 

Tentei me justificar, mas ele ergueu a mão, interrompendo-me.

— Eu não costumo discutir a vida pessoal dos meus funcionários, mas o seu caso me chamou atenção. 

Ele apoiou as mãos sobre a mesa, inclinando-se ligeiramente.

 — A sua filha está doente.

Senti o chão sumir. A garganta travou. 

—Ninguém sabia daquilo, eu havia sido extremamente cuidadosa.

— Como, como soube? Perguntei, num fio de voz.

— Eu tenho recursos, Luciana. Respondeu com naturalidade, como quem comenta sobre o clima.

 — E eu admiro a sua lealdade, o modo como trabalha mesmo quando claramente está exausta.

Eu não sabia se ele estava elogiando ou apenas tentando justificar a invasão da minha privacidade.

— Se o senhor está preocupado com minha produtividade, garanto que…

— Não é isso. 

Interrompeu novamente. 

— Eu quero fazer uma proposta.

A palavra ficou suspensa no ar, pesada.

 Ele caminhou até a poltrona à minha frente e se sentou, cruzando as pernas com calma. 

Havia algo calculado em cada movimento, como se estivesse prestes a fechar um contrato milionário.

— Uma proposta? Repeti, confusa.

— Sim.

 Ele se recostou. 

— Meu avô, Don Eduardo, está muito doente. 

—O médico disse que ele talvez não chegue ao final do ano. 

—E o maior desejo dele é me ver casado… 

—E com um herdeiro a caminho.

Eu o encarei, sem entender para onde aquilo estava indo.

O silêncio que segue é brutal. Ela se levanta.

—Isso é uma piada?

—Não!

—Então é um insulto. 

—O senhor acha que pode comprar tudo, até um casamento?

Levanto-me também, sem conseguir esconder o tom grave.

—Não é isso. Eu não estou te comprando. 

—Estou te oferecendo segurança. 

—Em troca, você me ajuda a cumprir o último desejo de um homem que me criou como um pai.

— Senhor Gutiérrez, com todo respeito, não vejo o que isso tem a ver comigo.

— Tem tudo a ver, Luciana. Disse com frieza. 

— Preciso que você se case comigo.

Por um instante, achei que fosse uma piada.

— Desculpe… 

— O quê disse?

 Mas ele continuou me olhando, sério, inabalável.

— Um casamento de fachada. Dois anos, no máximo.

—Durante esse período, você e sua filha terão segurança financeira, moradia, e o melhor tratamento possível. 

—Em troca, eu terei a imagem de um homem comprometido, estável, e realizarei o último desejo do meu avô.

Senti o estômago revirar.

— Isso é…

Procurei as palavras, mas a voz saiu trêmula. 

— Isso é uma loucura!

— Não, é um acordo. 

Ele cruzou os braços, impassível. 

— Tudo será documentado, com cláusulas claras.

— O senhor está propondo que eu… 

—Eu me case com o senhor… 

—Por dinheiro?

— Estou propondo uma troca de benefícios. Disse, como se falasse de uma fusão empresarial. 

— Você ganha o que precisa para salvar sua filha. 

—Eu ganho o que preciso para dar paz ao meu avô.

As lágrimas começaram a arder atrás dos meus olhos, mas lutei para não deixá-las cair.

— O senhor não faz ideia do que está dizendo.  

Levantei-me, sentindo o corpo inteiro tremer. 

— Está me tratando como se eu fosse…

— Não! 

 Ele se levantou também, a voz levemente alterada pela primeira vez. 

— Estou tratando você como uma mulher inteligente, que sabe o peso da realidade.

— O senhor não tem direito! Exclamei, a raiva finalmente rompendo. 

— Invadiu minha vida, os meus problemas, e agora acha que pode comprar a minha dignidade?

— Dignidade não paga hospitais, Luciana. 

 A frase dele foi um golpe. 

— Eu sei o quanto o tratamento da sua filha custa. Nenhum banco vai te emprestar esse dinheiro. 

—Nenhum seguro cobre o tipo de internação que ela precisa.

Eu engasguei com o próprio ar. Ele sabia de tudo.

— Como, como ousa? Sussurrei, mais para mim do que para ele.

Leo me olhou, e pela primeira vez algo diferente atravessou seu olhar, não era frieza, nem arrogância.

 Era algo quase humano, como pena.

— Você pode me odiar o quanto quiser. Disse em tom baixo. 

— Mas se aceitar, Sofía terá o melhor hospital, os melhores médicos e nunca mais vai faltar nada.

Em troca, eu pago integralmente o tratamento da sua filha. Todo o hospital, médicos, medicamentos, terapias o que for necessário. 

—E você não precisará se preocupar com nada durante esses dois anos.

O olhar dela brilha por um instante, depois se apaga.

—E o senhor quer um filho?

Há um silêncio pesado entre nós.

—Meu avô quer um bisneto. 

—Mas não vou te forçar a nada, Luciana. Nada. 

—Será uma decisão sua.

Ela me observa longamente.

Ela cruza os braços, a respiração curta. 

—E em troca? Pergunta, quase num sussurro.

—O que exatamente o senhor espera de mim?

—Que me acompanhe em eventos. Que viva comigo, na minha casa, como minha esposa. Que... 

—Mantenhamos as aparências. 

—Haverá um contrato, claro. Com regras claras.

Ela ri, um som quebrado. 

—Regras. O senhor acha que minha vida é uma transação?

—Não, Luciana. Acho que você é a única pessoa que não me trataria como um contrato.

Essas palavras escapam antes que eu possa controlá-las.

Ela empalidece novamente.

 Eu vejo nos olhos dela um turbilhão de emoções:

 Medo, culpa, desconfiança, e algo mais... 

Talvez esperança.

—Eu não posso. Ela murmura, levantando-se. 

—Não posso aceitar algo assim.

—Pense. É só isso que peço. Pense. 

—A oferta é verdadeira.

Meu corpo inteiro tremia. 

Eu queria gritar, fugir, apagar aquele momento.

— Prefiro morrer pobre do que vender a minha alma.  Murmurei, tentando sair da sala.

Mas ele foi mais rápido.

— Pense bem! A voz dele me alcançou antes que eu abrisse a porta. 

— Não é a sua alma que estou comprando, Luciana. 

—É a chance de salvar sua filha!

Fechei os olhos, e por um instante vi o rosto de Sofía, pálido, dormindo no hospital. 

O cheiro de desinfetante, o som do monitor cardíaco… A imagem me cortou por dentro.

— Saia da minha cabeça, senhor Gutiérrez. Respondi, sem virar para trás. 

— Eu não sou parte dos seus negócios.

— Eu estou te dando uma escolha. Ele disse, firme. 

— Poucas pessoas têm essa oportunidade.

Abro a porta e saio sem olhar para trás.

Quando ela sai, o perfume leve que deixa para trás me persegue.

Encosto as mãos na mesa, respirando fundo.

Talvez eu tenha cometido uma loucura.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, sinto que não é o dinheiro que está em jogo.

É algo que nem todo o poder do mundo consegue comprar: 

A chance de mudar a vida de alguém e talvez, de mudar a minha também.

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